“O que não tem nome” aborda a busca de uma mãe para dar sentido ao que não pode ser nomeado

Em O que não tem nome, a poeta colombiana e dramaturga Piedad Bonnett narra com honestidade contundente o suicídio de seu filho. Diagnosticado com esquizofrenia, Daniel batalhou por anos contra a depressão e a paranoia, consequências da doença e da dificuldade de nomeá-la. O relato autobiográfico tem início no apartamento de Daniel em Nova York – cidade onde cursava o mestrado –, poucas horas depois de sua morte. Com linguagem sóbria e delicada, a autora relata as batalhas do filho, o estupor do luto, as formalidades ligadas à perda e, acima de tudo, a luta desigual de um jovem contra a loucura.

Dividido em quatro partes, cada uma centrando-se em um tema particular – a dor, a enfermidade, a loucura e o suicídio –, O que não tem nome é um livro de memórias em que o ficcional é introduzido apenas para especular acerca das ações e motivações de seu filho, acossado pela paranoia e pela depressão. Enumerando os momentos decisivos dessa vida dividida entre a luz e as sombras, Bonnett faz, a partir de fragmentos, um relato pessoal, preciso e sensível da experiência da dor.

No livro, a autora encontra um caminho para explorar os limites da linguagem diante da morte – se esta não é capaz de mudar ou suavizar um evento definitivo, escrever pode assumir um caráter terapêutico para dar conta de uma experiência íntima e, ao mesmo tempo, universal. Antes de oferecer respostas, a literatura torna-se um meio para chegar às perguntas que emergem da dor da perda. Sem abandonar o ofício de poeta, Bonnett mostra o que a linguagem tem de mais poderoso e falho: nomear nem sempre é possível e, ainda que não seja o suficiente face ao luto, são as palavras que combatem a ausência.

A edição da DBA Literatura conta com um autorretrato feito pelo próprio Daniel na capa e também com um prólogo escrito pela autora após 10 anos da primeira publicação do livro.

Leia também: As cartas de suicídio como gênero literário

Trecho

Seu filho morreu, e você deve fazer uma mala para viajar até onde o cadáver dele a espera. E é o que você faz. Alguém lhe ajuda, diz uma calça preta, diz é melhor colocar os sapatos em um saco. Faz três horas, três horas de um tempo que já começou a correr para a sua dissolução, e você não desmaiou, não caiu de joelhos no chão nem está cambaleando à beira da vertigem ou da loucura. Não. Como dizem os manuais do luto, você está em estado de choque ou embotamento. A sua dor, a dos primeiros minutos após a notícia, se transformou em fria estupefação, em espanto, em uma aceitação semelhante à que surge quando entramos na sala de cirurgia ou constatamos que perdemos o voo para uma cidade distante. Você tenta pensar em meias, pijamas, remédios, e repete mentalmente, internamente, as palavras que acaba de ouvir, desejando que algo físico a tire do estupor, um ataque de choro, uma febre repentina, uma convulsão, algo que venha para destruir esta serenidade que tanto se assemelha à mentira, à própria morte. Coloquei um cachecol na sua mala, diz a voz. Perfeito, obrigada.

Destaque:

“Um livro arrebatador, corajoso até o ponto da violência, extraordinário. Piedad Bonnett escreve a partir do abismo e ilumina as sombras com um texto penetrante e imprescindível.” – Rosa Montero

Sobre a autora:

Piedad Bonnett (Amalfi, Colômbia, 1951) é formada em filosofia e literatura pela Universidad de los Andes e mestra em teoria da arte e arquitetura pela Universidad Nacional de Colombia. Publicou nove livros de poemas e é autora de seis peças de teatro, além dos romances Después de todo, Para otros es el cielo, Siempre fue invierno, El prestigio de la belleza, Donde nadie me espere, Qué hacer con estos pedazos, e O que não tem nome, incluído em 2016 pela Babelia entre os cem melhores livros dos últimos vinte e cinco anos. Ganhou o Prêmio Nacional de Poesia do Instituto Colombiano de Cultura, o Prêmio Casa de América de Poesia Americana, o Prêmio Víctor Sandoval, o Prêmio José Lezama Lima da Casa de las Américas, e o Prêmio Geração de 27.

Ficha Técnica

Título: O que não tem nome
Título original: Lo que no tiene nombre
Autora: Piedad Bonnett
Tradutora: Elisa Menezes
Capa: Isabela Vdd /Anna’s
Imagem de capa: Autorretrato (2001), de Daniel Segura Bonnett
Número de páginas: 152 pp.
Formato: 14 × 21 cm
Preço: R$ 62,90
ISBN: 978-65-5826-075-2
Preço e-book: R$ 44,90
ISBN e-book: 978-65-5826-076-9
Data de livraria: 29/04/2024
Editora: DBA Literatura

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