“Leci Brandão – Na Palma da Mão”: a história de Leci é também do samba, da negritude e dos orixás

Numa sexta-feira à noite, resolvi sair da minha nova casa na Tijuca e esticar até o Meíer para assistir ao espetáculo Leci Brandão – Na Palma da Mão, musical idealizado e dirigido por Luiz Antonio Pilar, vencedor do Prêmio Shell 2024 na categoria de Melhor Direção. O espetáculo traça a trajetória de vida de Leci, dos primeiros dias ao lado de sua mãe, Lecy. Como guia, o musical é inspirado à partir de seus dois orixãs, Ogum e Iansã. 

O elenco enxuto traz Verônica Bonfim que faz a vez de Lecy, a mãe; Sérgio Kauffmann, uma espécie de voz narrativa que encarna alguns personagens, como o pai de Leci e o grande Cartola; e Tay O’Hanna que faz a própria Leci dos primeiros passos da música até os dias de hoje. A banda que acompanha o elenco é formada por Matheus Camará (Violão, Clarinete e Agogô); Pedro Ivo (Violão, Clarinete e Agogô); Rodrigo Pirikito (Violão, Cavaquinho e Xequerê); Thainara Castro (Pandeiro, Atabaque, Congas, Repique de Anel, Repinique e Efeitos).

Leia também: “Leci Brandão – Na Palma da Mão”: musical homenageia a sambista mais raiz da nossa história

Em termos estruturais, o que chama atenção no espetáculo é a simplicidade. Nada ali é feito para chamar atenção pelos excessos, como é comum nos grandes musicais. E esse é um dos grandes acertos do espetáculo que vai construindo intimidade e proximidade entre cena e público, o que é essencial para Leci não seja apenas mítica, mas uma figura que espelha muitas histórias de uma plateia majotirariamente negra. Com isso, o que salta aos olhos é a dramaturgia de Leonardo Bruno com pesquisa e adaptação de Lorena Lima, Luiz Antônio Pilar e Luiza Loroza que vão ajustando detalhes e chegam a um texto poroso, mas que não se torna simplório.

A escolha por trazer vozes de orixãs como costura da narrativa é muito feliz porque evita que a história seja contada meramente de forma cronológica. Assim, a narrativa acompanha momentos essenciais da carreira de Leci, mas sempre de uma forma mítico-narrativa, como se ela inspirasse e fosse inspirada a todo instante por sua espiritualidade.

Ao lado disso, as canções de Leci Brandão também são utilizadas para complementar essa trama. Fecha-se, então, a tríade: ancestralidade, o samba, os orixás. A sua relação próxima de amor com sua mãe está em A Filha da Dona Lecy e As coisas que mamãe me ensinou; O pai aparece em músicas como Papai Vadiou; a sua homossexualidade em Assumindo e Ombro amigo, entre outros casos. 

O cenário e a iluminação completam esse espaço de simplicidade, atravessado por muitas referências que vão se juntando: folhas no chão, uma pequena árvore que lembra a de Esperando Godot, no fundo, a banda. A luz, por sua vez, vai recortando Lecis para traduzir diversos momentos: o sucesso no programa Flavio Cavalcanti, o abrigo em casa e a exposição das ruas. Com isso, o espetáculo abre o espaço propício para discutir uma série de temas como preconceito de uma mulher no meio de sambistas compositores da Mangueira naquele tempo, a entrada na vida política, a descoberta de uma militância sócio-racial, a homossexualidade no meio da rua. 

Para quem quer não apenas saber mais de uma das maiores figuras do nosso samba, mas também ouvir canções que marcaram a nossa história, Leci Brandão – Na Palma da Mão é o espetáculo. Não apela para pirotecnias porque a verdadeira história é ancestral…e vem de dentro.

Veja alguns trechos do espetáculo aqui:

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