Conheça Rezende, o homem por trás do consagrado Instituto Candelaio

O que um filósofo morto pela Inquisição em 1600 tem em comum com um professor dos dias atuais especializado em literatura e história da arte?

Giordano Bruno, além de filósofo, era matemático, teólogo, religioso e escritor, mas acima de tudo, um amante do conhecimento livre, o grande elo com o Professor Claudinei Cássio de Rezende, que em 2023 criou o Instituto Candelaio inspirado exatamente na única peça teatral do pensador italiano. 

Escrita em 1582, época do chamado Renascimento Tardio e em uma mistura de latim macarrônico e dialeto napolitano, Candelaio, é uma obra contestadora à homologação linguística italiana que ocorria em Florença, na Accademia della Crusca. Com isso, Bruno reivindicava que o conhecimento científico também estava fora da academia, razão pela qual intitulou-se um acadêmico sem academia. Candelaio concerne ao castiçal, a base da chama que ilumina a razão.

Rezende, professor de História e de História da Arte na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC e de Arte Clássica no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, defende que artistas e cientistas do Renascimento significam um ponto de inflexão bastante importante na história, e por essa razão o fascinam mais do que outro momento. 

A pintura Velha senhora e menino com velas, do mestre Peter Paul Rubens (1577-1640), complementa a referência ao Candelaio de Bruno.  Remete à busca do conhecimento através das gerações, um esforço humano que nunca diminui, mas se soma continuamente em cada exemplar do gênero.

Da Revolução Gutenberg em diante, ele acredita ter havido um momento ímpar: a polimatia, o saber vasto e variado, acabou sendo regra, favorecida pela imprensa e pela propagação do conhecimento. Em um momento posterior há a especialização do conhecimento, esgotando a figura do polímata. Por isso, a era de Brunelleschi, Michelangelo e Rubens é um momento de interesse humanista.

Sobre Giordano Bruno como essa grande fonte de inspiração, principalmente por seu significado histórico, o Professor Rezende afirma que:

“Insubmisso à fogueira inquisitorial da qual foi vítima, o polímata fez-se defensor das novas hipóteses astronômicas copernicanas, complementando-as com a tese do universo infinito. Tal tese enterrou a consideração tradicional do cosmos, a da existência de um centro do universo. Afinal, sua defesa implicava não uma correção particular no campo de uma ciência específica, mas uma mutação total na concepção de universo.”

Porém, a primeira formação do Professor Rezende não esteve nas artes propriamente ditas, mas na teoria política do Renascimento. Seus estudos na área de história e ciências sociais começaram nos anos 2000, a partir do contato com uma professora muito culta e rigorosa: Lívia Cotrim. Nesta altura conheceu Antonio Rago, coordenador de um núcleo de estudos da PUC envolvido com a obra filosófica de György Lukács e de Mészáros, e assim, Rezende se decidiu pelos estudos acadêmicos na linha da ciência política, com destacado interesse por Maquiavel.

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Os estudos da literatura e das artes vieram posteriormente, enquanto estudava estética, com Arlenice Almeida. Motivado por isso, seu doutorado esteve em torno de Lukács, filósofo cujos estudos relacionam-se à estética e aos princípios humanizadores da atividade artística e literária. No pós-doutorado, Rezende trabalhou uma relação muito particular da formação do capitalismo holandês, e como isso modificou a relação da pintura. 

Em 2015 tornou-se professor da PUC-SP e ali começou a lecionar história da arte, entre outras disciplinas. De lá para cá, é esta a área a que mais se dedica, publicando artigos e estudos na área do Renascimento e da crítica literária, tendo, em 2023, criado o Instituto Candelaio com o objetivo de fornecer um caminho de formação popular a qualquer um que tenha interesse nas ciências humanas e na filosofia, além de inserir professores de excelente qualidade no mundo da propagação dos saberes. 

Professor Claudinei Cássio de Rezende

No Instituto Candelaio, o Professor Rezende ministra diversos cursos, dentre eles: 

REMBRANDT E A CRISE DO MERCADO HOLANDÊS: O curso aborda a história da pintura holandesa do século 17, conhecida como a Era de Ouro, com relevo especial na trajetória de Rembrandt van Rijn (1606-1669) e no surgimento do mercado de arte – característica que resulta na depauperação do ofício do pintor. No mercado de arte holandês temos a figura do marchand, fundamental para mediar a nova relação entre os pintores e as comissões artísticas. Um dos resultados deste processo é a impessoalidade da pintura: a arte passa a ser como mais um móvel ou item colecionável. Como consequência da dificuldade de atribuição de autoria sobre uma pintura, um mercado de obras de arte falsificadas inunda o mundo holandês, causando atribuições equivocadas. Diante de uma dificuldade em atribuir autoria no momento coetâneo à produção das pinturas devido a um mercado bastante agressivo, Van Meegeren, no século 20, se aproveita desta situação, ocasionando uma célebre falsificação de Vermeer durante o nazismo. 

VELÁZQUEZ E O REALISMO ESPANHOL: O curso aborda a história da pintura espanhola seiscentista através do itinerário pictórico de Diego Velázquez (1599-1660), alicerçado na historiografia de primeira-mão de Antonio Palomino e na fortuna crítica do pintor, dando relevo aos seus retratos mais importantes, como Juan de Pareja; Inocêncio X; A Família de Filipe IV; Filipe, o Próspero; e Sebastian de Morra. Abordará a dimensão original da retratística de Diego Velázquez, incluindo uma reflexão inovadora sobre como o pintor espanhol operou uma transgressão dos modelos clássicos e mitológicos em suas pinturas. 

DOM QUIXOTE E FAUSTO: DOIS MITOS MODERNOS DA INDIVIDUALIDADE: Este curso de literatura clássica trata de dois grandes mitos modernos da modernidade, fazendo uma análise inovadora: de um lado, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616); de outro, Fausto, uma história inspirada num médico histórico, que teve seu ápice com Goethe (1749-1832). Ambas as histórias tratam de um mito de um individualismo moderno em que seus protagonistas ao mesmo tempo se destacam e conflitam com o mundo moderno em seu nascimento. Dom Quixote, um personagem que reivindica um papel de herói de uma coletividade que colapsa e o torna um retrógrado reivindicador da moral da cavalaria, representa um senso de alienação típico do início da modernidade. Fausto, por sua vez, da consubstanciação do mito histórico por Spies, em 1587, passando por Marlowe, Widman e Lessing, e chegando em Goethe, no fim do século 18, trata de um personagem que transita no mundo da modernidade: ele se inicia como um contraexemplo de religiosidade e moralidade, no mito do pactuário demoníaco mefistofélico, mas se transforma, no Iluminismo, no bastião da razão, chegando a levar às últimas consequências o desejo da redenção do gênero humano. 

O RENASCIMENTO IDÍLICO DE BOSCH: O curso aborda em quatro horas a pintura e a época de Hieronymus Bosch (c.1450-1516), um artista cuja atribuição precisa de pinturas não chega a trinta, mas que, sem dúvida alguma, percorre o imaginário coletivo até os dias de hoje graças às suas visões fantásticas e idílicas. A biografia, bastante incerta, de Bosch é analisada à luz de documentos sufragados pela história. Ao final, uma aula especial sobre a sua obra mais célebre, O Jardim das Delícias Terrenas.

Inclusive, haverá um curso gratuito no dia 20.06.2024:

CARAVAGGIO: DA VIDA MARGINAL À MORTE ENIGMÁTICA: o curso aborda a história da pintura barroca de Michelangelo Merisi, dito Caravaggio (1571-1610), alicerçado na historiografia de primeira-mão, que se baseia nas biografias escritas por Baglione, por Bellori e por Mancini. Aqui se revela uma biografia bastante incerta e controversa, diante da qual o professor realiza uma análise baseada na história do mundo barroco e nas fontes documentais recentemente descobertas. Assim é possível aproximar a realidade histórica de Caravaggio, percorrendo da sua vida errática, que inclui duelos e assassinato, à sua morte bastante misteriosa. 

Mais informações, aqui!

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