Em certa cena de Criadas, Sandra (Mawusi Tulani), uma das protagonistas do filme, entra em um cômodo onde o quadro A Redenção de Cam está exposto em um canto. A câmera passeia pelos detalhes da obra, cuja temática racial se entrecruza com as discussões presentes no filme. Após Sandra sair de cena, Mariana (Ana Flávia Cavalcanti), a outra protagonista, observa a mesma pintura, mas de outra forma: o quadro se tornou uma cena vivida por atores de carne e osso, que agora encaram a mulher.
Esse ato de sublinhar de modo excessivo seus simbolismos e metáforas é uma marca do longa dirigido e roteirizado por Carol Rodrigues, nada se passa sem ser materializado ou verbalizado de alguma forma, ao invés de deixarem as situações falarem por si próprias, minando as possibilidades da obra, que possui uma dinâmica muito rica entre suas personagens.
Sandra e Mariana são primas, a primeira negra retinta, a segunda não, mas seus laços não são somente familiares. A mãe de Sandra foi empregada da mãe de Mariana, que ascendeu na vida ao se casar com um funcionário público de alto escalão. Mesmo que as primas morassem no mesmo espaço, a vida delas existe em opostos, com a de Sandra marcada por uma série de ausências, e a de Mariana por afluências.
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Criadas acompanha as duas a partir do momento que Sandra, agora uma engenheira em ascensão, retorna à casa onde sua mãe trabalhou, ocupada por Mariana, chef de cozinha passando por um delicado momento profissional, não conseguindo arranjar um novo emprego.
Sob o telhado da casa, tensões do passado e presente passam a emergir. Há ressentimentos que nunca foram plenamente verbalizados, diferenças de perspectiva sobre uma mesma história familiar e, sobretudo, a percepção de que a proximidade afetiva entre as duas nunca foi capaz de apagar as desigualdades que estruturam suas trajetórias
O longa também possui aspectos fantasmagóricos, com as versões infantis das protagonistas perturbando o presente, e outros eventos que reforçam a desconexão entre as duas personagens. Logo no início, por exemplo, Mariana, durante uma conversa com Sandra, desaparece, uma situação que se repete em alguns momentos do longa.
Se esse clima de estranhamento contribui para tornar visíveis as fissuras emocionais que separam as protagonistas, ele também evidencia uma das principais fragilidades do filme, que é a sua transparência. Criadas apela para um didatismo que entra em choque com o mistério que permeia seu desenvolvimento. O que poderia gerar inquietação acaba sendo outra forma de destacar o que já estava em evidência por outros meios.
Assim, uma trama muito rica acaba sendo achatada pela necessidade constante de reafirmar seus próprios significados. Ao invés de permitir que as contradições encontrem expressão nas ambiguidades de suas interações, o filme frequentemente recorre a símbolos, aparições e diálogos explicativos para conduzir a interpretação do espectador, ao invés de estimular a reflexão por conta própria.