“Futuro Futuro” (2026): uma distopia à brasileira 

Sabemos que prêmios em festivais de cinema não existem apenas para enfeitar o escritório do diretor ou do produtor. Prêmios são chancelas, indícios de qualidade dados pelos pares para produções que, com o prêmio, podem alavancar sua passagem pelos cinemas. Prêmios são importantes em especial para o cinema brasileiro, que ainda sofre para permanecer em cartaz ao lado dos filmes predatórios hollywoodianos e suas campanhas de marketing milionárias. “Futuro Futuro” é um destes filmes que já estreiam premiados: foi eleito o Melhor Filme do Festival de Brasília de 2025.

Neurodeflação súbita deve ser nossa palavra de ordem. Fiquemos com ela na mente.

Um homem desmemoriado (Zé Maria Pescador) entra em uma escola e arromba uma sala de aula. No dia seguinte, é encontrado pelos alunos, todos já adultos. Tem nos bolsos uma nota de cem reais amassada e um folheto anunciando um curso sobre Inteligência Artificial. Fica para a aula e depois é convidado para a casa de um colega. Aceita o convite por não ter – ou não saber – aonde ir. Nosso protagonista é batizado de K por causa da forma de uma cicatriz que tem no ombro.

Nas aulas de IA os alunos ficam vendados imaginando cenas descritas por uma espécie de Alexa com luzes multicoloridas. Por vezes, K tem lampejos e se lembra de cenas diversas, todas vistas sob um intenso filtro vermelho. Na escola, um objeto chamado de Oráculo pode ajudá-lo a se lembrar de quem é.

Este é um futuro em que drones distribuem comida racionada. Em que comida e água valem mais que computadores, que podem ser rastreados, por isso os saques nas casas são de víveres e não de eletrônicos. Em que ricos e pobres são duramente segregados. Em que o trabalho é remoto e isso não impede que existam subempregos, como fazer o reconhecimento facial que a IA não conseguiu, profissão batizada de “clickworker”. Mas é um futuro em que ainda há desejo, revolta, resistência.

K passa a ter certeza de que pertence à outra zona da cidade, a dos ricos. Por intermédio da professora de IA, Joana (Carlota Joaquina), ele encontra um homem surdo que pode ajudá-lo a entrar novamente na zona rica, mas nada está como ele se lembrava e uma ameaça paira sobre todos.

Uma cartela de texto logo no começo nos informa que “este filme foi rodado antes e depois da enchente histórica de maio de 2024 em Porto Alegre”. Em “Futuro Futuro”, pode haver uma menção à tragédia quando usam as salas de aula das escolas para abrigar desabrigados pela enchente. De qualquer modo, a chuva é uma constante desoladora no futuro narrado. Talvez culpa do aquecimento global, talvez espelho do ocorrido.

A IA está no centro de muitas discussões no mundo do audiovisual. Permanecemos à espera de um marco regulatório e tememos que nossos trabalhos sejam usurpados por robôs. Vimos com espanto e um quê de desconfiança uma mostra de filmes feitos com IA no Festival de Cinema de Gramado. Mas para alguns ela pode ser salvadora. Após a enchente, foi necessário o uso da IA para minimamente concluir “Futuro Futuro”, como conta o diretor e roteirista Davi Pretto:

“A IA me pareceu então ainda mais central na própria impossibilidade de fazer o filme, pois ao meu ver é justamente isso o que ela promete: um mundo de ilusão, fantasia e supostas infinitas possibilidades enquanto o nosso mundo acaba pouco a pouco diariamente. […] Antes, sempre me mantive longe dessas ferramentas de IA pelo que elas representam politicamente e esteticamente, mas ao fazer um filme sobre a IA, me pareceu necessário investigar que imagens são essas. O risco sempre esteve presente em meu trabalho. Eu precisava me arriscar a usá-las.”

Você sabe a diferença entre utopia e distopia? Utopia é uma visão do futuro positiva, em que as coisas deram certo, enquanto distopia é uma visão negativa, de que tudo deu errado. É bem claro, considerando essas definições, que “Futuro Futuro” fala de uma distopia, em que o abismo social entre as classes ficou ainda maior e a natureza cobra o preço pelo desrespeito.

Voltemos então à neurodeflação súbita. Ela pode causar amnésia, como acontece com K. Estando num mundo, ele anseia pelo outro, incapaz de se decidir. Mais do que propor um quebra-cabeça, “Futuro Futuro”, esse bom exemplo de que temos sci-fi, se espelha numa realidade recente e dá seu recado: todo futuro é futuro do pretérito.

“Futuro Futuro” estreia nos cinemas em 23 de julho. Confira o trailer:

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