Descoberta em Córdoba a biblioteca romana mais antiga da Península Ibérica

Uma equipe de investigação demonstrou a verdadeira função de uma sala na villa romana de Fuente Álamo, em Córdoba, na Espanha. Antes considerada um templo subterrâneo, o local foi identificado como uma biblioteca, o que a torna a mais antiga da Península Ibérica.

O trabalho foi realizado por pesquisadores da Universidade de Granada (UGR) e a descoberta foi publicada na última edição do Journal of Mediterranean Archaeology, uma das principais revistas britânicas na área da arqueologia.

A descoberta foi possível graças a uma metodologia que analisa a combinação de elementos arquitetônicos no espaço. O principal desafio foi superar a dificuldade de identificar arqueologicamente espaços como as bibliotecas romanas, cujos livros e estantes de madeira praticamente desapareceram com o tempo.

Para resolver esse problema, os pesquisadores utilizaram uma técnica conhecida como “gramática de formas”. Essa metodologia permite analisar como os diferentes elementos arquitetônicos de um cômodo se combinam.

Um modelo fotogramétrico da Biblioteca Fuente Álamo (Puente Genil), mostrando a abside, os nichos retangulares e semicirculares e os vestíbulos adjacentes. Crédito: Antonio López García

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No caso de Fuente Álamo, no sul da Espanha, a divisão analisada apresenta uma planta que se enquadra no estilo construtivo das bibliotecas romanas: uma abside, nichos retangulares para abrigar estantes, outros nichos semicirculares, um pódio e salas auxiliares adjacentes que provavelmente serviam como espaços de trabalho ou armazenamento.

A combinação desses elementos foi fundamental para descartar a interpretação anterior do espaço como um possível templo e confirmar sua utilização como local de leitura, estudo e exibição cultural.

Essa descoberta é especialmente relevante porque, ao contrário de outros casos, a arquitetura de Fuente Álamo preserva uma combinação excepcional de indícios que permitem ir além das meras hipóteses.

Biblioteca de Fuente Álamo

A biblioteca de Fuente Álamo torna-se não apenas a mais antiga da Península Ibérica, mas também de todo o Império Romano.

Além disso, os pesquisadores a consideram a biblioteca privada mais bem preservada do mundo romano conhecido, com exceção da Villa dos Papiros, em Herculano, cujo conteúdo (os papiros) foi conservado, mas não a estrutura física que os abrigava.

O estudo incorpora ainda uma hipótese que aumenta o interesse sobre a descoberta. Os autores sugerem uma possível ligação entre essa biblioteca e um sarcófago encontrado no século XIX no sítio arqueológico de Villares del Carril, nas proximidades.

Essa peça, conhecida como o “Sarcófago da Declamação” e que se encontra no Museu de Málaga, apresenta cenas relacionadas à leitura e ao ensino.

A cronologia e a iconografia desse sarcófago coincidem com as da segunda fase da aldeia de Fuente Álamo. Uma das figuras representadas — um homem barbudo com um pergaminho e um códice — apresenta semelhanças com uma figura em um mosaico local que estudos anteriores identificaram como o proprietário da aldeia.

Embora essa relação não possa ser comprovada de forma definitiva, sugere-se que o sarcófago poderia representar o dono da biblioteca, oferecendo provas únicas de como as elites rurais da Bética, na Antiguidade Tardia, estavam ligadas à cultura escrita e à identidade intelectual.

Comparação do mosaico Triunfo de Baco da vila romana de Fuente Álamo (superior) e do sarcófago Declamatio de Villares del Carril (inferior), que os pesquisadores sugerem compartilhar ligações cronológicas e iconográficas.

Crédito: Antonio López García /M. Rodríguez de Berlanga (1903)

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