“Os armários vazios” e a possibilidade de conhecer Annie Ernaux sem as arestas aparadas

Em 1974, quase cinquenta anos antes de ser laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, Annie Ernaux publicava seu primeiro romance, Os armários vazios (Fósforo, 2026), uma incursão visceral pela ficção e espécie de gérmen literário de uma escrita que ficaria cada vez mais contida, se transformando no novo gênero que a consagrou.

Neste livro, uma jovem de vinte anos, Denise Lesur, acaba de realizar um aborto e rememora a trajetória de sua ascensão de classe, escrevendo cada detalhe com as tintas da bile. Filha de donos de um café-mercearia, Ninise, como é chamada pelos pais, se vê dividida entre dois mundos e teme que a gravidez indesejada tenha posto tudo a perder.

Para além da crise pessoal, o aborto representa uma mancha no mundo burguês, limpo, ordenado e elegante, no qual Denise conseguira ingressar depois de muitos anos de escolarização e controle de suas maneiras; é um resquício do meio onde cresceu, um cenário repleto de desejo e vulgaridade. Acreditando ter chegado longe, a protagonista disseca o ambiente popular, as palavras, os modos, as diferenças de uma classe e de outra, além da vergonha que sente por seus pais.

“[Em] Os armários vazios […] faço uma análise da minha própria dilaceração social: filha de donos de um café-mercearia, frequentando a escola particular, cursando a faculdade. Também vivi o aborto que serve de moldura para essa volta no tempo. No conteúdo não transformo a realidade e, aliás, também não a transfiguro! Em vez disso, mergulho dentro dela, e com muita audácia.” — Annie Ernaux

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E se os temas podem parecer semelhantes aos de obras posteriores, como O acontecimentoO lugar, A vergonha, o que impressiona em Os armários vazios é a linguagem rápida, entrecortada e pulsante, livre de autocensura e que urge em captar todo o vivido para que não seja esquecido, para que a verdade não seja postergada. Nele, tem-se a possibilidade de conhecer Ernaux sem as arestas aparadas. Trata-se da obra que revelou para o mundo o trabalho da autora, o qual, desde então, segue impressionando com todas as suas facetas.

Sobre a autora:

Annie Ernaux nasceu em 1940, em Lillebonne, na França. Estudou na Universidade de Rouen e foi professora do Centre National d’Enseignement par Correspondance por mais de trinta anos. Seus livros são considerados clássicos modernos na França. Em 2022, Ernaux recebeu o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra.

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