Entre cantos e travessias: uma leitura de “Cancioneiro Sertanês”, de José Manoel Ribeiro

Publicado em 2026, Cancioneiro Sertanês, de José Manoel Ribeiro — autor de Ressurgências (Patuá), obra semifinalista do Prêmio Oceanos em 2024 —, convida o leitor a percorrer múltiplos caminhos de memória, dor e imaginação por meio da poesia. Em diálogo com a tradição do cordel, o livro se estrutura em uma sequência de cantos interligados, que delineiam uma espécie de jornada marcada por vozes diversas e experiências intensas.

Dividido em “Pré-Cantos”, “Entre Cantos” e “Pós-Cantos”, o livro já começa sugerindo que aquilo que será narrado não pertence a um único lugar ou a uma única realidade. Logo nos primeiros versos, o autor escreve:

“Um sertão real e outro imaginário
Se açoitaram no rancho dos papéis”

A partir daí, o leitor entende que está diante de um espaço construído tanto pela experiência quanto pela invenção. Esse “sertão” não é fixo — ele muda, se amplia e se transforma ao longo dos poemas. Ainda na abertura, um verso chama a atenção por sua repetição:

“E entraremos na fronteira do medo…”

Esse refrão aparece várias vezes nos poemas iniciais e ajuda a criar uma sensação de expectativa. Aos poucos, é como se o leitor estivesse sendo conduzido para dentro desse universo, atravessando uma espécie de limite simbólico onde o medo, a violência e a incerteza passam a fazer parte da experiência.

Ao longo do livro, outro verso se repete com frequência:

“Meu Deus, por que tamanha judiação?”

O lamento mencionado atravessa diferentes histórias e personagens, funcionando quase como um eco constante da dor vivida ao longo dos cantos. Além disso, o verso dialoga diretamente com a canção “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, uma referência importante dentro da cultura brasileira. Em um dos trechos, essa ligação aparece de forma explícita:

“E o resto de beleza a vida arranca
Para pôr na tristeza de Asa Branca”

Essa aproximação com a música reforça o caráter afetivo da obra e amplia seus sentidos, conectando o texto a uma memória coletiva. A narrativa do livro é construída a partir de diferentes personagens e situações. Em poemas como “O velho catingueiro”, por exemplo, acompanhamos figuras que carregam histórias de vida marcadas por perdas, trabalho e resistência:

“Dizem que foi poeta e sanfoneiro,
Mas ele se apresenta: — Sou vaqueiro”

Tais personagens aparecem ao longo dos cantos como vozes que ajudam a compor o universo do livro. Em muitos momentos, eles parecem representar experiências mais amplas, mas também mantêm traços individuais que os tornam únicos. Além disso, o autor incorpora diversas referências culturais e históricas ao longo da obra. Figuras como Lampião surgem em meio aos versos:

“— Já vi um desses com compadre Lampião!”

Assim como também aparecem menções a episódios como o de Canudos, trazendo à tona temas como religiosidade, conflito e violência. Essas referências ajudam a construir um cenário rico e cheio de camadas. Outro ponto interessante é a forma como o livro mistura diferentes elementos em sua linguagem. Em meio a imagens do cotidiano, surgem referências à mitologia, como Caronte:

“O livro está aberto e o tempo narra
[…] Faz às vezes de Caronte”

Essa combinação cria contrastes curiosos e mostra como o autor aproxima universos distintos dentro de um mesmo poema. A escrita de José Manoel Ribeiro mantém o ritmo e as rimas característicos da tradição do cordel, mas também apresenta momentos mais densos e imagéticos. Em vários trechos, o leitor encontra descrições marcantes, como:

“O rio era um Estige sem barqueiro,
Com Caronte afogado em seu abeiro.”

Ao longo da leitura, temas como fé, violência, deslocamento e memória aparecem de forma recorrente, muitas vezes sobrepostos. Os refrões ajudam a dar unidade à obra, enquanto as diferentes histórias e imagens constroem um percurso que não é linear, mas que se conecta pela repetição e pela atmosfera criada.

Mais do que reunir poemas, Cancioneiro Sertanês parece propor uma escuta. Ao longo dos cantos, somos levados a acompanhar vozes que narram perdas, violências e deslocamentos, mas também insistem em lembrar, cantar e resistir. Os refrões que se repetem — especialmente “Meu Deus, por que tamanha judiação?” — acabam ficando na memória do leitor como ecos de uma dor que não é apenas individual, mas compartilhada. 

Ao mesmo tempo, o livro mostra como a linguagem, o canto e a memória podem funcionar como formas de atravessar essas experiências. No fim, a leitura deixa a sensação de que, mesmo diante de um cenário duro, há algo que permanece: a necessidade de contar, de cantar e de dar sentido ao que foi vivido.

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