Faz total sentido que Alpha tenha sido divulgado no Brasil nos trailers das sessões de Backrooms. Assim como o lançamento da A24, o mais recente filme de Julia Ducournau pode ser definido como um horror existencial. Mas, se aquele consolida o subgênero, este é uma tentativa que não funciona tão bem.
A cineasta francesa é conhecida por filmes cujas mensagens provocam tamanho desconforto visual que os fãs acabam inventando categorias próprias para catalogá-los. Titane (2021), o maior sucesso da diretora, deu origem a listas no Letterboxd como “Titane Cinematic Universe” e encabeça outras como “be gay, do crime“, esta última reunindo filmes que exploram a homossexualidade como forma de rebeldia e irreverência.
Embora essas atitudes cinéfilas sejam positivas, é curioso como os próprios fãs tendem a colocar as obras de Ducournau em caixinhas. Ainda que sejam exemplos icônicos do horror corporal feminista, Raw (2016) e Titane (2021) provaram, cada um à sua maneira, que a cineasta sempre fez questão de não caber em gêneros. Seus personagens resistem à espécie a que foram atribuídos, e os filmes fazem o mesmo.
Alpha, lançado no Brasil em 2026, portanto, parecia ser o movimento seguinte dessa fuga: a cineasta migra do horror corporal para o horror existencial. Só que, desta vez, ao tentar escapar de uma caixa, Ducournau acabou entrando em outra.
A protagonista é uma garota de 13 anos (Mélissa Boros) que, certa madrugada em uma festa, aceita ser tatuada com uma agulha compartilhada: uma letra A horrenda no braço. A maior tragédia dessa tatuagem não é o mau gosto, mas o fato de que um vírus de transmissão sanguínea se espalha pelo mundo e condena suas vítimas a uma enfermidade que gradualmente as transforma em mármore e, no estágio final, em pó. A mãe de Alpha (Golshifteh Farahani) trabalha em um hospital, onde assiste os pacientes ao longo do funesto processo de marmorização, enquanto vive a angústia da espera pelo resultado do teste da filha para a doença.
A imagem de uma condição que estigmatiza e petrifica os humanos é poderosa, e oferece os visuais mais arrebatadores da carreira de Ducournau. A poética de uma terra árida em que a própria humanidade se transforma em ruínas tem uma beleza triste e única. Contudo, dessa vez, a diretora parece não ir muito além dessa superfície que, apesar de desconcertante, serve como uma metáfora bastante simples. É o fim do mundo, é uma pandemia, e o grande terror não é o desconhecido, e sim a constatação da finitude e da insignificância. O problema é que tudo é muito óbvio em um tom quase moralístico.
Ducournau é uma diretora de excessos, mas aqui esses exageros servem apenas como decoração. Com uma linha do tempo embaralhada, que busca confundir o espectador entre o presente da adolescente Alpha e os flashbacks de sua infância, o filme avança boa parte tentando oferecer as peças de um quebra-cabeça que, quando finalmente montado, não revela nada compensador.
E depois de tanto resistir a se encaixar em definições, o mais recente longa da cineasta acaba por ser apenas mais um filme de pandemia, com a óbvia alusão à Aids sobreposta à recente experiência da Covid. Diferentemente dos filmes anteriores, a mensagem e o mistério provavelmente não devem se prender na mente do espectador por muitos dias. O que resta, sobretudo aos admiradores de Ducournau, é pensar o quanto esse filme não faz pensar muito em nada.
Minha nota para Alpha no Letterboxd: 2 ½ estrelas.
Alpha (2026).
Direção e roteiro: Julia Ducournau