Luanda, Lisboa e Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida: a imigração em contexto familiar

Em 2018, a escritora angolana Djaimilia Pereira de Almeida publica o premiado romance — Luanda, Lisboa, Paraíso —no qual podemos identificar uma tentativa de investigar, por meio de um texto ficcional, as marcas coloniais portuguesas. Por meio de uma escrita sensível, acompanhamos a trajetória de Cartola e seu filho Aquiles. Ambos deixam Luanda, capital de Angola, em busca de um tratamento médico para a perna do filho em Lisboa. No entanto, o que era, inicialmente, esperança e recomeço, logo cede lugar a uma vivência transumante marcada pelo severo desraizamento na capital portuguesa.

Três cenários distintos servem como pano de fundo para o romance, conforme evidenciado pelo próprio título da obra: Luanda, a cidade de origem dos protagonistas; Lisboa, o espaço de trânsito; e Paraíso, o bairro suburbano fictício onde fixam residência. Somado a isso, o andamento da narrativa sofre frequentes interrupções com o envio de cartas emitidas de Luanda pela companheira de Cartola.

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Constata-se, no decorrer da narrativa, que a capital portuguesa não se configura como um ambiente acolhedor e promissor para Cartola e Aquiles. Afinal, quais perspectivas Lisboa reserva a imigrantes negros vindos da África? Compartilhar o idioma não anula o distanciamento imposto pela diferença de sotaque. A obra de Djaimilia torna evidente que, embora sob novas roupagens, as dinâmicas coloniais persistem e continuam a moldar a existência das pessoas no cenário pós-colonial. A herança do império marítimo e do regime salazarista permanece viva na capital, sobretudo em sua configuração urbana, onde os monumentos históricos parecem reafirmar visões de mundo ancoradas em glórias e grandezas de outrora.

O Padrão do Descobrimento é um ponto turístico na cidade de Lisboa, que homenagear o período de expedição marítima. O monumento foi idealizado durante o Estado Novo português, comandado pelo ditador Salazar. Imagem: reprodução da internet.

Uma cena específica chama o meu olhar: a relação de Aquiles, o filho, com a cidade lisboeta. Ele a atravessa, muitas vezes, em busca de sentido existencial, porém esse espaço urbano nega que ele seja, de fato, integrado naquela sociedade:

“[…] A sua adolescência foi uma brisa que percorreu Lisboa ao fim da tarde. Quando deu por si, era um homem e tinha o pai às costas. Fala-se da luz de Lisboa, mas ela não iluminou Aquiles. Penou, sonhou e, num dia como outro qualquer, secou antes de dar flor

Cartola, o pai, também parece compartilhar, de alguma forma, esse sentimento de desenraizamento de Lisboa. Deseja tanto inserir-se no espaço lisboeta que anseia por comprar um lote no Cemitério dos Prazeres. Ele e sua família poderiam compartilhar, mesmo que debaixo da terra, o mesmo espaço que outras figuras de Portugal – como Mário Cesariny. 

“De Portugal, a cidadania dos mortos foi o seu único visto de residência.” 

Paralelamente à escrita deste texto, o desembarque de inúmeros marroquinos — entre jovens e núcleos familiares — em Ceuta, cidade autônoma espanhola, acionou um sinal de alerta na União Europeia. Essa crise migratória entre Marrocos e Espanha, combinada com a narrativa descrita no romance de Djaimilia, evoca a premissa de Hall sobre o colonialismo como uma via de mão dupla: as próprias culturas dominantes acabam sendo transformadas e perpassadas por aquelas que tentaram subjugar.

Desse modo, mesmo causando desconforto ao cidadão português branco, os imigrantes oriundos das ex-colônias ocuparão os espaços urbanos, consumindo batata frita nas calçadas das cidades. Eles permanecerão ali, ainda que em situação irregular, desprovidos de documentação e sujeitos a olhares e julgamentos preconceituosos:

Mas não saberia dizer quem observava, pois os outros, ao passarem de raspão, também os viam e eram aos olhos deles três pobres diabos sem destino, uma família de chimpanzés vestidos de gente. 

A presença de destaque das obras de Djaimilia Pereira de Almeida nas principais prateleiras das livrarias, com ênfase em Luanda, Lisboa e Paraíso, reveste-se de grande relevância. Essa centralidade nos permite colocar em questão as dinâmicas contemporâneas entre Portugal e suas antigas colônias, além de tensionar as memórias de um remoto passado marítimo ativamente construído pela nação portuguesa.

Referências:

JORGE, Silvio Renato. Heranças coloniais no imaginário das cidades: a literaturainterroga o colonialismo português. In: JOBIM, José Luís et alii (Orgs.). Circulações transculturais: territórios, representações, imaginários. Rio deJaneiro: Makunaima; Boa Vista: EdUFRR, 2021, p. 126-141.

FRANCO, Roberta Guimarães. A “inseparabilidade” dos trânsitos na obra de Djaimilia Pereira de Almeida. Abril: Revista do Núcleo de Estudos deLiteratura Portuguesa e Africana da UFF, Niterói, vol. 13, n. 27, p.109-124, 2021.

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