Eddy é um dos espetáculos que ficou mais tempo na minha cabeça. Édouard Louis é, sem dúvida, um dos escritores contemporâneos mais aclamados da atualidade. Suas obras constantemente são adaptadas para o teatro. Em São Paulo, houve 3 montagens, somente em 2026. A última, Eddy – Violência & Metamorfose é uma idealização da Polifônica, um núcleo de pesquisa e criação artística fundado em 2015, no Rio de Janeiro (BR), pelo diretor, dramaturgo e pesquisador Luiz Felipe Reis e pela atriz e performer Julia Lund.
O espetáculo aborda temas delicados e urgentes, como violência de classe e de gênero, homofobia e xenofobia, machismo e dominação masculina. A peça gira em torno de um episódio real de violência sexual vivido pelo escritor Édouard Louis, representado em cena por João Côrtes, no Natal de 2012, em Paris. O episódio traumático, elaborado na obra “História da violência”, dá início a uma jornada reflexiva e de elaboração a respeito das estruturas sociais que viabilizam a produção e a circulação da violência em nossas sociedades. Ao longo do espetáculo, a narrativa de “História da violência” é atravessada por trechos de “O fim de Eddy” e culmina na recriação de fragmentos de “Mudar: método”.
A dramaturgia de Eddy – Violência & Metamorfose é uma experiência completa e notavelmente sofisticada, estruturada a partir de um entrelaçamento de três obras de Édouard Louis — História da violência, O fim de Eddy e Mudar: método, o que confere ao texto uma densidade intertextual que vai muito além do simples relato autobiográfico. Seu principal mérito, contudo, reside na decisão de não circunscrever a narrativa ao episódio traumático do Natal de 2012, mas sim em expandi-la para abarcar as microviolências cotidianas e os julgamentos familiares sofridos em momentos de vulnerabilidade, transformando a violência estrutural, de classe, gênero e orientação sexual, em verdadeira protagonista da cena. Ao conectar o trauma pontual à teia de opressões diárias, a dramaturgia propõe uma reflexão profunda e urgente sobre as engrenagens sociais que produzem e circulam a violência, evitando o sensacionalismo e priorizando a elaboração crítica em vez da mera catarse, o que justifica sua força e permanência na mente do espectador e atesta a completude de sua construção textual, independentemente das escolhas estéticas da encenação.
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O elenco, composto por João Côrtes, Julia Lund e Erom Cordeiro, encontra registros próprios para desenvolver suas personagens, e aqui foi a minha maior dificuldade. Digo isso, pois durante muito tempo fiquei comparando Eddy, com o espetáculo apresentado na 11.ª edição da MITsp, com direção de Thomas Ostermeier e atuação do próprio Édouard Louis, e confesso que acredito ser um erro de julgamento meu. Ao buscar o registro para adaptar a obra para o Brasil, foi trabalhado um tom mais gótico para o Eddy de João Côrtes, e acrescentado um erotismo maior nas encenações. Isso me gerou uma estranheza comparando com a encenação de Ostermeier, mas tendo a concordar que funciona muito bem. João Côrtes é indiscutivelmente um excelente ator, e coloca isso em cena. Além da sua aparência próxima à de Édouard Louis, seria muito fácil apresentar um registro mais frágil, porém ele busca uma atuação mais potente e que exige uma tensão maior para colocar sua angústia e dor em cena. Julia Lund e Erom Cordeiro têm mais liberdade para apresentar ao público sua versatilidade em cena, seja pelo registro vocal ou pela expressão corporal em cena, mas é Erom que se desnuda totalmente, colocando não apenas sua qualidade técnica à disposição da obra, mas sua vulnerabilidade, trabalhando a dualidade do affair de Eddy.
A direção de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky é audaciosa e conscientemente contrastante com a abordagem de Thomas Ostermeier, optando por amplificar a potência da atuação em detrimento de uma delicadeza tecnológica mais contida. Ao imprimir um tom gótico à figura de Eddy e intensificar o erotismo nas encenações, a dupla provoca uma estranheza inicial no espectador, mas essa escolha se mostra acertada ao exigir dos atores registros mais extremos e tensos, permitindo que João Côrtes abandone a fragilidade óbvia em favor de uma angústia pungente, e que Erom Cordeiro explore sua vulnerabilidade e versatilidade de forma visceral. Além disso, o uso pontual da iluminação e do audiovisual não como muletas narrativas, mas como elementos de impacto, demonstra um domínio cênico que valoriza o hibridismo sem subjugar o texto à tecnologia. Dessa forma, a direção não apenas traduz com vigor a violência estrutural proposta por Édouard Louis para a realidade brasileira, mas também consolida sua própria assinatura, transformando a comparação inevitável com Ostermeier em um mérito, já que a montagem encontra força justamente em sua diferença e na entrega integral do elenco.
Eddy – Violência & Metamorfose é um espetáculo teatral realizado com rara coerência, no qual dramaturgia, atuação e direção se retroalimentam para transformar a dor autobiográfica de Édouard Louis em um potente dispositivo de reflexão social. Se a sofisticação intertextual do texto expande o trauma pontual para um retrato abrangente das microviolências estruturais, a direção audaciosa de Reis e Grabowsky potencializa essa crítica ao traduzi-la em corpos em tensão extrema, substituindo a delicadeza tecnológica de Ostermeier por uma visceralidade gótica e erótica que exige do elenco, destacando-se a entrega crua de Erom Cordeiro e a angústia pungente de João Côrtes, uma entrega integral e sem rede. Longe de ser uma mera repetição da montagem europeia, a encenação brasileira assume com coragem suas diferenças, provando que a violência abordada por Louis não é um fenômeno estrangeiro, mas uma chaga universal que ressoa com particular intensidade no contexto nacional. Assim, mais do que uma adaptação bem-sucedida, o espetáculo afirma-se como uma obra autônoma e necessária, que permanece na mente do espectador exatamente por recusar o conforto da catarse e insistir na inquietação da crítica, consolidando-se como um dos eventos teatrais mais marcantes de 2026.
Ficha Técnica:
Idealização, Produção e Realização: POLIFÔNICA (Luiz Felipe Reis e Julia Lund)
Direção e dramaturgia: Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky
com João Côrtes, Julia Lund, Igor Fortunato
A partir da obra de Édouard Louis — “O fim de Eddy”, “História da violência”, “Mudar: método”
Direção de movimento: Lavínia Bizzotto
Preparação corporal: Alexandre Maia
Cenografia: André Sanches
Assistente de Cenografia: Débora Cancio e Nicole Suzana Santos da Silva
Direção de tecnologia: Julio Parente (Para Raio)
Iluminação: Julio Parente (Para Raio)
Figurino: Antônio Guedes
Assistente de figurino: Mari Ribeiro
Criação de vídeo: Daniel Wierman
Trilha sonora: Luiz Felipe Reis
Direção musical: Carol Mathias
Produção musical: Pedro Sodré
Técnico de luz: Rodrigo Lopes e Gabriel Lagoas
Operador de luz e vídeo: Rodrigo Lopes
Técnico-operador de som: Daniel Vetuani
Hair stylist: Amadeu Marins (Salão Ará)
Make: Sabrina Sanm
Fotografia de estúdio: Renato Pagliacci
Identidade Visual: Clara Seleme (Paspatur)
Assessoria de comunicação: Dobbs Scarpa
Direção de Produção: Luiz Felipe Reis e Julia Lund (Polifônica)
Produtor Associado: Sérgio Saboya (Galharufa)
Produção executiva: Roberta Dias (Caroteno Produções)