Pela primeira vez na história, a Unicamp outorgará o título de Doutora Honoris Causa a uma mulher negra. Na reunião do Conselho Universitário (Consu), a indicação apresentada pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) em homenagem à escritora, poetisa e professora mineira Conceição Evaristo foi aprovada por unanimidade, seguida de aplausos de pé. Na mesma ocasião, o Consu também aprovou o título de Doutor Honoris Causa ao bioquímico uruguaio Rafael Radi, indicado pelo Instituto de Biologia (IB) por sua relevante contribuição à ciência na América Latina. As cerimônias de entrega ainda não têm data definida.
Durante a discussão da proposta relativa a Conceição Evaristo, ficou claro o amplo apoio de representantes de diversas unidades da universidade. Os conselheiros ressaltaram a importância da autora para a literatura brasileira, seu papel no debate sobre relações raciais e o valor simbólico da homenagem institucional. O reitor Paulo Cesar Montagner classificou o momento como “realmente muito valioso para todos nós”.
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O coordenador-geral Fernando Coelho destacou que a iniciativa do IEL reconhece não só a relevância de Conceição Evaristo para a literatura nacional, mas também sua contribuição para a reflexão sobre as relações raciais no Brasil. Segundo ele, a homenagem adquire especial significado por valorizar uma intelectual negra em um cenário historicamente marcado pelo apagamento da produção intelectual da população negra. Como ilustração, mencionou o processo de embranquecimento da figura de Machado de Assis ao longo do tempo.
O diretor do IEL, professor Petrilson Alan Pinheiro da Silva, enfatizou que a aprovação representa o reconhecimento oficial de uma mulher negra cuja obra transformou a literatura brasileira contemporânea. A indicação foi elaborada de forma coletiva, com o apoio de uma comissão que preparou o parecer técnico. Além disso, o IEL aprovou uma moção de apoio à concessão do título — medida inédita que, segundo Silva, demonstra o consenso em torno da homenageada.
“Conceição Evaristo tornou-se referência para gerações de leitores, especialmente para aqueles que historicamente não se viam representados na literatura brasileira. A escritora recupera e atualiza a tradição oral afro-brasileira ao reivindicar o direito de pessoas negras narrarem suas próprias histórias, ampliando o debate sobre o direito à literatura não apenas como acesso às obras, mas também como direito à produção literária”, afirmou Silva.
Silva também lembrou o reconhecimento nacional e internacional da escritora, citando versos do poema “Da calma e do silêncio”, que inspiraram o título da 36ª Bienal de São Paulo, em 2025:
“Nem todo viandante anda estradas, há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra”.