Há artistas que simplesmente passam pela cultura. E há aqueles que a reconfiguram por inteiro, deixando uma marca tão profunda que ultrapassa o palco, o disco, a imagem. Ney Matogrosso, sem dúvida, pertence a esta segunda linhagem. E uma exposição que acaba de estrear no Rio de Janeiro, conforme noticiou o Jornal Globo, vem nos lembrar exatamente disso.
Trata-se de “Eu prefiro ser”, em cartaz no Solar, que reúne obras de mais de 50 artistas para celebrar os 85 anos que Ney completa em agosto. O que me chamou a atenção, logo de início, é que a mostra não se propõe a ser uma mera biografia cronológica — e isso, confesso, é um alívio. Como bem observou Bernardo Mosqueira, diretor artístico do Solar e um dos curadores, a história de Ney se tornou mais conhecida a partir de 2017, o que, nas palavras dele, “libertou” a equipe da “necessidade e da responsabilidade de ter que contá-la de maneira linear”.
E que história, meus caros. O cantor que já foi enredo de escola de samba, tema de livros e filmes, agora é celebrado em sua dimensão mais ampla: não apenas o intérprete de “Fala” e “Homem com H”, mas o símbolo vivo de uma força libertária que atravessa gerações.
O que torna a exposição particularmente emocionante para mim é a curadoria sensível, que conseguiu costurar diferentes tempos e linguagens. Nomes como José Leonilson, Manauara Clandestina, Rafa Bqueer e UÝRA dividem espaço com dois stills raríssimos de Keith Haring pintando o retrato de Ney durante o Montreux Jazz Festival, em 1983, cedidos pela fundação do artista. Há ainda um conjunto precioso de imagens de arquivo — algumas mostrando performances, outras flagrando momentos íntimos de lazer com amigos. E é aí que a emoção aperta: ao lembrar que muitos desses registros foram feitos em plena ditadura militar, percebe-se, como destacou o curador, a “força e a coragem” daqueles que ousaram ser.
Mas o que mais me tocou, ao ler a reportagem do Jornal Globo, foi a descoberta dos curadores ao longo da pesquisa: para além das obras que retratam Ney diretamente, eles encontraram dezenas de trabalhos que, de alguma forma, foram por ele influenciados. A artista UÝRA, por exemplo, contou que sua primeira performance no palco foi com um medley de músicas dele. E disse mais: “Devo todo o meu trabalho a ele. Para mim, é muito emocionante participar da exposição. Sinto que estou prestando uma homenagem que era muito devida”.
E é exatamente isso que uma figura como Ney Matogrosso provoca: não admiração passiva, mas transformação ativa.
A mostra, que faz parte de um biênio temático do Solar dedicado à investigação da liberdade, é descrita por Mosqueira como “a melhor exposição” que já fizeram — um agradecimento ao intérprete e, ao mesmo tempo, um desejo de “amplificar sua força libertária” num mundo que ainda enfrenta ondas conservadoras. Nas palavras dele: “A exposição é um convite para as pessoas participarem de uma nova virada contracultural. É para perceberem como não devemos aceitar a repressão, seja ela de Estado ou de mídias sociais, que controlam a maneira como podemos existir”.
Ney, que nunca pediu autorização para nada, figura como um “exemplo perfeito” de alguém que atravessa mais de cinco décadas com “inteligência visual e capacidade de controle performático” únicas, sempre em prol de ser quem se é.
E é isso, no fim das contas, o que ele nos ensina. Como concluiu Mosqueira, e o Jornal Globo registrou: “O Ney Matogrosso nos mostra que nós podemos ser outros, que podemos ser mais do que imaginávamos”.
Num tempo em que tantas forças parecem querer nos enquadrar, nos diminuir, nos dizer o que devemos ser, a obra e a vida de Ney Matogrosso seguem como um farol. A exposição “Eu prefiro ser” não é apenas uma homenagem justíssima a um dos maiores artistas brasileiros. É, acima de tudo, um convite para que cada um de nós ouse, também, preferir ser.
Programe-se: ‘Eu prefiro ser’
Onde: Solar, Mercado Central (Rua do Senado 48, Centro)
Quando: Quarta a sábado, das 10h às 18h (até 17 de outubro)
Quanto: Grátis
Classificação: Livre