Aos 84 anos, Ney Matogrosso ganha exposição inédita que celebra seu legado de vida e arte

Há artistas que simplesmente passam pela cultura. E há aqueles que a reconfiguram por inteiro, deixando uma marca tão profunda que ultrapassa o palco, o disco, a imagem. Ney Matogrosso, sem dúvida, pertence a esta segunda linhagem. E uma exposição que acaba de estrear no Rio de Janeiro, conforme noticiou o Jornal Globo, vem nos lembrar exatamente disso.

Trata-se de “Eu prefiro ser”, em cartaz no Solar, que reúne obras de mais de 50 artistas para celebrar os 85 anos que Ney completa em agosto. O que me chamou a atenção, logo de início, é que a mostra não se propõe a ser uma mera biografia cronológica — e isso, confesso, é um alívio. Como bem observou Bernardo Mosqueira, diretor artístico do Solar e um dos curadores, a história de Ney se tornou mais conhecida a partir de 2017, o que, nas palavras dele, “libertou” a equipe da “necessidade e da responsabilidade de ter que contá-la de maneira linear”.

E que história, meus caros. O cantor que já foi enredo de escola de samba, tema de livros e filmes, agora é celebrado em sua dimensão mais ampla: não apenas o intérprete de “Fala” e “Homem com H”, mas o símbolo vivo de uma força libertária que atravessa gerações.

O que torna a exposição particularmente emocionante para mim é a curadoria sensível, que conseguiu costurar diferentes tempos e linguagens. Nomes como José Leonilson, Manauara Clandestina, Rafa Bqueer e UÝRA dividem espaço com dois stills raríssimos de Keith Haring pintando o retrato de Ney durante o Montreux Jazz Festival, em 1983, cedidos pela fundação do artista. Há ainda um conjunto precioso de imagens de arquivo — algumas mostrando performances, outras flagrando momentos íntimos de lazer com amigos. E é aí que a emoção aperta: ao lembrar que muitos desses registros foram feitos em plena ditadura militar, percebe-se, como destacou o curador, a “força e a coragem” daqueles que ousaram ser.

Leia também: “Funambule”: Livraria de Petrópolis é reconhecida internacionalmente como uma das mais bonitas do mundo

Mas o que mais me tocou, ao ler a reportagem do Jornal Globo, foi a descoberta dos curadores ao longo da pesquisa: para além das obras que retratam Ney diretamente, eles encontraram dezenas de trabalhos que, de alguma forma, foram por ele influenciados. A artista UÝRA, por exemplo, contou que sua primeira performance no palco foi com um medley de músicas dele. E disse mais: “Devo todo o meu trabalho a ele. Para mim, é muito emocionante participar da exposição. Sinto que estou prestando uma homenagem que era muito devida”.

E é exatamente isso que uma figura como Ney Matogrosso provoca: não admiração passiva, mas transformação ativa.

A mostra, que faz parte de um biênio temático do Solar dedicado à investigação da liberdade, é descrita por Mosqueira como “a melhor exposição” que já fizeram — um agradecimento ao intérprete e, ao mesmo tempo, um desejo de “amplificar sua força libertária” num mundo que ainda enfrenta ondas conservadoras. Nas palavras dele: “A exposição é um convite para as pessoas participarem de uma nova virada contracultural. É para perceberem como não devemos aceitar a repressão, seja ela de Estado ou de mídias sociais, que controlam a maneira como podemos existir”.

Ney, que nunca pediu autorização para nada, figura como um “exemplo perfeito” de alguém que atravessa mais de cinco décadas com “inteligência visual e capacidade de controle performático” únicas, sempre em prol de ser quem se é.

E é isso, no fim das contas, o que ele nos ensina. Como concluiu Mosqueira, e o Jornal Globo registrou: “O Ney Matogrosso nos mostra que nós podemos ser outros, que podemos ser mais do que imaginávamos”.

Num tempo em que tantas forças parecem querer nos enquadrar, nos diminuir, nos dizer o que devemos ser, a obra e a vida de Ney Matogrosso seguem como um farol. A exposição “Eu prefiro ser” não é apenas uma homenagem justíssima a um dos maiores artistas brasileiros. É, acima de tudo, um convite para que cada um de nós ouse, também, preferir ser.

Programe-se: ‘Eu prefiro ser’
Onde: Solar, Mercado Central (Rua do Senado 48, Centro)
Quando: Quarta a sábado, das 10h às 18h (até 17 de outubro)
Quanto: Grátis
Classificação: Livre

Fonte

Related posts

Cantora Björk compõe música inspirada em ‘A paixão segundo G.H’ de Clarice Lispector

Antigo prédio do DOPS pode se transformar em Centro de Memória da Ditadura Militar

Nova lei inclui educação política e cidadania no currículo da educação básica