Quando Caetano Veloso inicia sua canção Língua dizendo “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”, ele estava propondo, sugerindo haver uma relação quase erótica entre os portugueses ditos brasileiros e os de Portugal. Caetano pensava, aliás, mais que isso, ele imaginava não só numa relação entre presente e passado, mas também numa recuperação possível entre um Brasil atual com um Portugal que o próprio Brasil pouco conhece e reconhece.
Projetos utópicos de uma imaginação desejante à parte, o que temos visto na prática são crescentes problemas de crise imigratória entre Brasil e Portugal. Vemos de um lado os “tugas”, como são chamados os portugueses, reagindo à crescente chegada e ocupação nem sempre silenciosa dos “zucas”, como são conhecidos os brasileiros que chegam em terras lusitanas. Além, claro, da chegada dos africanos das ex-colônias de língua portuguesa como Moçambique, Angola, Cabo Verde, entre outras.
Importante salientar que esses tensionamentos não se dão apenas no campo entre a nacionalidade e a colonialidade, afinal, a interseccionalidade é sempre latente quando tais questões entram em jogo. Além das questões imigratórias e dos três séculos de colonização nas costas, brasileiros que sofrem xenofobia passam também por preconceitos de classe e raça. Creio que é este o pano de fundo que norteia, orienta, desorienta, confunde, rompe, irrompe, desarranja e joga o romance Zuca, de Fernanda Hamann.
Zuca conta a história de Bárbara, uma brasileira que, após sofrer um episódio de violência urbana, se muda para Portugal com sua família. Ao lado de seu marido Wagner e seu filho, essa família branca, diga-se de passagem, encontra, a princípio, no país, aquilo que parece ser o seu verdadeiro lar. Um país ordeiro, de boa comida e bons vinhos à disposição, ao lado de pessoas educadas e afastados da violência, sem medo de tiroteio e longe dos grandes escândalos políticos. Um país que eles a princípio diriam ser “limpo” de tudo o que viviam enquanto estavam no Brasil. Uma típica família de classe média que Marilena Chauí desprezaria, por exemplo.
Esse fascínio pela Europa portuguesa aparece na forma de prazer pelo consumo da alta cultura, com passeios a museus, a mosteiros, igrejas, e também, uma cultura que, a princípio, se apresenta também um pouco como nossa: a proximidade com a literatura, com a poesia, com a história, como no momento em que Bárbara relata a visita que faz aos túmulos de Camões e Fernando Pessoa e revê sua escolha profissional no Brasil, caso o país “valorizasse a cultura”, chavão repetido por aqui aos quatro cantos:
“Da beira do Tejo, andamos até o Mosteiro dos Jerônimos (…) onde encontramos outra homenagem a Camões. O túmulo onde descansam os restos mortais do poeta é adornado pela sua imagem esculpida em calcário de lioz, pedra típica da zona de Sintra. (…)
A importância que os portugueses atribuem à literatura foi o que mais me impressionou na visita ao mosteiro, onde está também o túmulo de Fernando Pessoa cercado de honrarias.
Se os escritores fossem tão apreciados no Brasil, talvez a minha escolha profissional tivesse sido diferente.”
Entretanto, o que Bárbara não revela de cara é um dos principais motivadores deles para essa ida a Portugal. É que sua história não estava tão “limpa” assim: Bárbara havia sido acusada e estava sendo processada por racismo após ter insultado uma candidata cotista que havia ficado em sua frente em um concurso público. Como pode? Alguém que, com uma nota inferior à sua, logo ela que havia estudado tanto. Como pode? Insultante, né? Ela não conseguiu se controlar.
No entanto, uma vez em Portugal, o que parece, a princípio, ser um lugar idílico começa a revelar suas contradições. Em meio a passeios a museus, parques e restaurantes, Bárbara percebe que existe uma barreira intransponível: ela não era um deles. E isto não pode ser rompido: embora se sentisse uma “branca europeia”, de uma “cultura superior”, ela não era reconhecida como tal. Não só pelo seu jeito de falar, reconhecido facilmente pelo sotaque, que ela até poderia ocultar ou aprender, mas pelo seu jeito de ser, este sim, que ela não gostaria de se dobrar.
Enquanto isso, ela vê seu marido, um homem notadamente de direita, de pensamento curto e sem reflexões mais densas, automaticamente aderir à cultura. Eis então que ela encontra uma verdadeira dura de enfrentar: ela enfrenta uma situação de xenofobia em uma loja próxima de casa e dificuldades de adaptação que não imaginou que passaria. Aos poucos, o que se passa é um reconhecimento de que não só ela não fazia parte daquele mundo como isto seria apontado para ela até nas pequenas coisas. No mais, ela ia entendendo que para ela as coisas seriam mais difíceis do que para seu marido, Afinal, pra ela, tudo era diferente: ela também é mulher.
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Está então montado um tabuleiro: há a estrutura e há a narrativa. De um lado, um arcabouço de questões socio-históricas que atravessam a narrativa como pano de fundo: racismo, imigração, questões de gênero. De outro, a narrativa, Bárbara e seu passado como racismo, o tiroteio que seu filho passara na pracinha com a babá e sua ida para Portugal com seu marido de direita e machista.
A partir deste tabuleiro, Fernanda vai compondo, passo a passo, um jogo em que ela pode operar sua personagem de modo que ela vá, gradualmente, tomando conhecimento não só do seu entorno, ou seja, ganhando consciência da classe à qual pertence, daquilo que ela é e do que ela representa como mulher, brasileira, imigrante. Bárbara, na busca de um emprego na área de advocacia, e ao estudar para adquirir um visto permanente em Portugal, vai desvelando diante de si um véu em que o mundo que ela descobre não é nada como ela imaginava.
O mundo se revela para ela a tal ponto que ela descobre, inclusive, que sua pele não é tão branca quanto parecia ser. No Brasil, ela era branca, em Portugal, não. E isso ela passa a reconhecer aos poucos. De verdade, ela chega a relatar algumas vezes que sua pele acordava cada vez menos branca:
“E apesar dos cuidados diários para me proteger do sol, não me lembro de ter visto minha pele tão morena, nem quando era adolescente bronzeada de praia, no alto verão carioca”.
É mesmo uma questão de identidade. Enquanto isso, com o racismo crescente em Portugal contra imigrantes brasileiros e africanos, Bárbara vai aprendendo sobre questões de colonização em Portugal que, por lá, vivia um pânico vazio de experienciar uma “colonização reversa”:
“A newsletter do Diário de Notícias trazia uma reportagem sobre o que chamava de colonização reversa: o boom de imigrantes de ex-colónias a viver em Portugal. A matéria incluía uma declaração do primeiro-ministro António Costa de que há dois fenómenos muito perigosos a surgir entre nós: um é a revisão autoflageladora da nossa História, e a outra é a liberação de ações racistas ou xenófobas. A tendência ao revisionismo histórico, que ameaça a autoimagem portuguesa, produz contratendências reacionárias.”
Bárbara, ao ler essa notícia, entende, mas também desentende, uma vez que começa a compreender os efeitos da xenofobia sobre si. É que soa bastante estarrecedor ouvir de um primeiro-ministro que a culpa das ações racistas e xenófobas não é dos racistas e dos xenófobos, mas sim de uma tentativa de uma contracolonização, ou seja, de uma tentativa de rever os efeitos que a colonização causou nas pessoas. Enquanto Bárbara sofre esses efeitos agora, na pele, pela primeira vez, uma vez que sempre havia sido privilegiada no Brasil, soava para ela asfixiante, mas também novo, se sentir culpada por vivenciar o peso do que carregava consigo.
Em termos de linguagem, ou melhor dizendo linguagens, é interessante ressaltar que Fernanda Hamann faz de Zuca uma obra recheada de referências a obras de arte, livros, pinturas, museus, assim como espaços de Portugal, de modo que a obra faz também uma espécie de geografia por Lisboa, principalmente por espaços culturais, que vão contando junto com a personagem essa história.
Além disso, Bárbara adota uma curiosa forma no decorrer do romance que é começar escrevendo à brasileira e, aos poucos, incorporar a forma portuguesa de escrever, de modo que grande parte do romance é todo escrito em português de Portugal. Porém, ao final, diante da decepção e do rompimento desses laços com a esperança desta nova vida, os gerúndios reaparecem, assim como o modo brasileiro de se falar. Isso, porém, não salva a personagem de ser reconhecida pelo seu sotaque que, quase sempre, lhe faz ser pega em flagrante pelas ruas, como se para nós brasileiros, a fala nos tirasse sempre do anonimato: o brasileiro nos apresenta antes.
Diante da consciência de classe, raça e gênero, Bárbara descobre a autonomia. Descobre a possibilidade de recomeçar, de uma liberdade possível, ainda que diante dos destroços. Descobre que é possível o retorno ao Brasil, que é, talvez, possível pensar em voltar. Que não há liberdade, sucesso, dinheiro e autonomia ou não há reconhecimento para fora de si e que meritocracia não existe sem equidade. Que colonização não é uma palavra que se apaga com o fim dela, mas que ela deixa rastros que levarão, no mínimo, séculos para serem apagados. Em um dos momentos finais, Bárbara descobre uma pirâmide social que lhe revela em que lugar está ela no mundo:
Numa vídeo-aula do curso online de Direito português, o professor de fato e gravata compartilhou a tela para apresentar uma ilustração da pirâmide demográfica portuguesa. Na base estão os ciganos, essa ralé marginal, que se recusa a integrar-se à cultura lusitana. Um nível acima, os paquistaneses, indianos e outros imigrantes de pele escura que não falam português, reencarnações dos mouros a serem expulsos da Europa pela Guerra Santa. Outro nível acima, os africanos lusófonos e seus descendentes, espectros dos escravizados que os colonizadores traficavam para o Brasil, ou dos inimigos que combatiam na Guerra Colonial. Logo acima, as zucas-putas, e mais acima, os brasileiros-brejeiros, pouco fiáveis. Ao subir-se um nível, há os refugiados ucranianos, loiros de olhos azuis. E mais um nível, há os próprios portugueses. Acima de todos estão os turistas e imigrantes ingleses, franceses, alemães, no topo da pirâmide, genuinamente branco.
Zuca é um romance sobre essa brasileira comum de classe média para classe média alta. Não é rica, mas morre de medo de ser pobre. Gostaria de ter alguns privilégios, mas já tem alguns o suficiente para ter uma boa vida. Tem medo, morre de medo. E gostaria de ser feliz. Nós, leitores, temos empatia por ela, mas também sentimos raiva por ela ser quem é. Porém, ela é uma mulher em processo de aprendizado.
Uma burguesa que resolve encarar o mundo e aprender. E aprende sofrendo porque lá em Portugal é apenas uma “zuca” e ser uma zuca lá é também ser vista como uma “zuca-puta”, mas ela só aprende isso quando estuda. Mas ela estuda e encara quando precisa encarar. Ao invés de se alienar, descobre suas próprias saídas. Ao invés de fazer como o marido, resolve sair daquele mundo e descobrir como o mundo é. Será mais triste, com certeza, mas mais livre. E dança o seu carnaval.
Fernanda Hamann escreve um livro sobre uma pessoa tão ordinariamente comum, mas tão brutalmente repleta de defeitos que nos faz ficar presos a ela, como se quiséssemos oferecer cuidado, ou ajuda, ou companhia. Bárbara é como uma personagem de Nelson Rodrigues, frágil em todas as pontas da vida. Só que agora, as grandes tragédias não existem mais.