Dia D pede do espectador um sentimento quase religioso: a crença na palavra, neste caso, com “p” minúsculo mesmo, pois se trata de algo mais mundano, pedindo que acreditemos naquilo que os personagens dizem, mesmo que o elemento esteja ausente na tela.
Veja o momento em que Daniel (Josh O’Connor) relata as consequências das habilidades despertadas pelo contato com uma inteligência extraterrestre, que resultou em um distanciamento das outras pessoas. Ninguém o compreendia, sua visão de mundo era diferente dos demais, logo, se tornou uma pessoa solitária.
Esse é um elemento clássico das obras de Steven Spielberg. Contatos Imediatos de Terceiro Grau lida com questão similar, onde a experiência de Roy (Richard Dreyfuss) com seres de fora do planeta faz seu comportamento ficar cada vez mais errático, assustando sua família e, eventualmente, fazendo com que sua mulher e filhos o abandonem, em nome da própria segurança e bem-estar. O longa dos anos 70 é tanto sobre a ficção científica quanto sobre essa dimensão mais pessoal, o custo de saber algo que ninguém mais sabe.
Se antes esse era um aspecto integral da obra, em 2026, é uma nota de rodapé. Daniel fala de sua solidão, mas a história que acompanhamos envolve ele e sua namorada, Jane (Eve Hewson), uma mulher disposta a bater de frente contra uma poderosa organização paramilitar por Daniel, e cujo amor por ele é tão intenso que supera até mesmo o controle mental.
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Dia D frequentemente se interroga sobre o custo da verdade para o mundo – O longa acompanha os esforços de um grupo de pessoas para divulgar a verdade sobre a presença extraterrestre no planeta – mas parece pouco disposto a fazer com que essas consequências sejam sentidas.
A sensação é que Spielberg pede certa confiança não necessariamente na história que ele conta, mas também no seu jeito de contar essa história. O cineasta é um dos grandes arquitetos do blockbuster moderno, há pouco exagero em afirmar que existe um traço dele em quase todo filme americano produzido pós-Tubarão. Aquilo que é Spielbergiano faz parte de uma percepção comum do que muitos entendem como cinematográfico.
Logo, muito do impacto de Dia D depende do quanto se está disposto a acreditar não naquilo que vemos, mas na própria autoridade do cineasta e nas características do seu cinema. Quando Hugo (Colman Domingo) fala da empatia como um elemento humano de muito interesse dos alienígenas, mas cuja presença na trama é pouco sentida, ele parece contar com a memória de filmes como E.T, Amistad e A Lista de Schindler para fazer valer a força da mensagem.
Para ser justo, há uma maneira onde a empatia é tratada no longa, a partir de Margaret (Emily Blunt), que adquire a habilidade de se “conectar” com as pessoas somente de olhando em seus olhos. Mas soa como um modo cínico de se lidar com a empatia, uma “ferramenta” para se conseguir o que quer, mais do que uma maneira de se conectar com o outro.
Além da fé na figura do cineasta, a narrativa pede também que se acredite em um mundo onde basta que a verdade seja divulgada para que ela produza efeitos imediatos. O clímax do filme se dá por meio da divulgação de imagens reais de alienígenas para que todo o mundo veja, não na internet, mas por meio de uma emissora de televisão.
Vivemos em um mundo de imagens, é difícil algo acontecer sem que seja capturado. Durante a pandemia da COVID-19, as imagens das valas escavadas para as vítimas da doença fizeram parte do nosso cotidiano. O Brasil todo pode acompanhar o colapso do oxigênio em Manaus. Nada disso impediu certos setores da sociedade de minimizarem o impacto da pandemia, o que perdura até hoje. Há pelo menos 3 anos que o genocídio palestino está em nossos feeds ao lado da última trend viral, sem que o mundo se comova diante disso.
Não que tenha algo de errado com sonhar com um mundo melhor – o cinema também é espaço de pensar em possibilidades – mas a esperança que Dia D propõe requer um fechar dos olhos para a realidade que nos cerca, uma fé cega. Como superar as condições que vivemos sem reconhecê-las? Não é trabalho de um filme resolver o mundo, mas é preciso discuti-lo com honestidade e clareza.