Em alguns momentos da nossa vida, a surpresa vem de onde menos esperamos. Recentemente tive a oportunidade de assistir o último espetáculo montado por Mario Bortolotto, em seu lendário Cemitério de Automóveis, e para minha surpresa é seu espetáculo mais político que tive a oportunidade de conhecer.
Brutal, narra a trajetória da seita “Legião do Amor”, sob a liderança de Estevão, um homem que prega estar em permanente contato com Deus por meio das forças da natureza. Ele atrai para seu grupo jovens sem perspectivas de vida que buscam um sentido. No princípio, tudo parece inocente, mas Estevão é bem mais perigoso do que pode parecer.
Logo de início, devo anunciar que a qualidade da dramaturgia de Bortolotto em Brutal está precisamente em se recusar a oferecer didatismo e respostas fáceis, optando por um mecanismo de suspense investigativo que potencializa a complexidade política do tema. Ao estruturar a peça por meio de interrogatórios, o autor não apenas conduz o público a um processo ativo de elucidação, mas expõe as fraturas e dualidades das personagens, evidenciando a contradição gritante entre suas narrativas idealizadas e os atos violentos que cometem — uma ressonância perturbadora com episódios como o de 8 de janeiro, onde a clareza do que é correto se choca com o desejo coletivo do extremismo.
Longe de ser um mero thriller, a dramaturgia aprofunda o debate ao diagnosticar a solidão e o desamparo como combustíveis para a adesão ao grupo, mostrando que a captação para a seita não decorre de uma maldade inata, mas da ausência de perspectivas e de um lugar social a que pertencer. Essa abordagem, que entrelaça o suspense político à análise psicológica e sociológica, exige do espectador uma postura crítica e reflexiva, transformando a ambiguidade e a inquietação em ferramentas estéticas de alta potência, o que consolida o texto como uma obra artisticamente madura e politicamente incisiva.
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O elenco de Brutal é notavelmente elevado, impulsionado pela densidade dramatúrgica que exige dos intérpretes um mergulho profundo nas dualidades e contradições de seus personagens, e a montagem se beneficia da própria presença de Mario Bortolotto em cena, que utiliza sua vasta experiência para construir uma atuação de tom ácido e domínio absoluto sobre os tempos cênicos, transitando entre o drama e o humor. No entanto, é Bruna Martins quem emerge como a grande surpresa, pois sua impressionante incorporação vocal do texto, fundida a uma presença cênica impactante, amplifica significativamente a tensão dramática e a atmosfera opressiva do espetáculo, enquanto Debora Sttér demonstra sua notável versatilidade ao se afastar radicalmente de registros anteriores e entregar uma composição vulnerável e delicada como a adepta grávida, conferindo maior potência emocional e fragilidade ao seu monólogo. Walter Figueiredo, com atuação multifacetada, desenvolve um antagonista de extrema dualidade, escapando do maniqueísmo para expor interesses próprios, e Carcarah apresenta um registro mais contemplativo, equilibrando o grupo com uma guia silenciosa. Completando o conjunto com solidez, os demais atores demonstram segurança e sintonia ao encontrar o registro adequado para seus respectivos papéis, garantindo a coesão e a força interpretativa que sustentam a narrativa política e perturbadora da peça, o que revela um trabalho de direção de atores afinado que extrai o melhor de cada intérprete em cena.
Analisar a parte técnica de Brutal é reconhecer a eficiência e o olhar preciso de Mario Bortolotto, que comanda com maestria a concepção de luz e sombra ao assinar a iluminação e a trilha sonora em uma estética noir que potencializa a dramaticidade e a atmosfera opressiva do texto. A cenografia de Regis Santos, marcada pela simplicidade, revela-se um acerto inteligente ao permitir que os poucos elementos em cena sejam constantemente ressignificados ao longo da narrativa, acompanhando a evolução do suspense e as revelações dos personagens sem jamais poluir o espaço cênico.
Complementando o conjunto técnico com igual precisão, o figurino de Mariana Cypriano busca um olhar individualizado e narrativo para cada personagem, conferindo camadas de sentido às suas personalidades, como as roupas de Trolha, que remetem a um faz-tudo subalterno, e a camisa de banda de Bimba, que insere uma pegada mais contestadora e jovem ao grupo , o que evidencia um cuidado minucioso com a caracterização psicológica via vestimenta. Dessa forma, todos os aspectos técnicos atuam em perfeita sintonia, não como meros adornos, mas como extensões orgânicas da dramaturgia que amplificam a brutalidade política e a solidão existencial retratadas em cena, consolidando a montagem em um patamar de excelência formal.
A direção de Brutal revela-se o elemento articulador que orquestra todas as demais camadas do espetáculo com uma precisão cirúrgica e uma visão estética coesa, demonstrando o controle absoluto de Mario Bortolotto não apenas sobre a condução dos atores, mas também sobre o ritmo e a respiração da cena. Ao garantir que todos os aspectos técnicos e interpretativos atuem em perfeita sintonia, Bortolotto não apenas coordena, mas assina uma direção que transforma a brutalidade política e a solidão existencial do texto em uma experiência imersiva e inquietante, consolidando sua função como o verdadeiro arquiteto de uma montagem em que cada escolha cênica serve a um propósito dramático inequívoco, o que eleva a direção a um patamar de excelência conceitual e formal.
Em suma, apesar de alguns ruídos e interpretações equivocadas que eventualmente circulam nas redes sociais, Brutal não se reduz a um espetáculo sobre racismo ou a uma abordagem unilateral da violência, mas antes se impõe como um retrato cru e multifacetado da sociedade contemporânea, que parte para uma exposição extrema da brutalidade justamente para escancarar o quanto nossa estrutura coletiva está adoecida, pela falta de pertencimento, pela fragilidade dos vínculos humanos e pela vulnerabilidade que torna tantos jovens presas fáceis de discursos extremistas. Ao articular com rara coerência uma dramaturgia provocativa que recusa respostas simplistas, um elenco em estado de entrega total, uma concepção técnica que potencializa a atmosfera opressiva e uma direção que costura todas essas camadas com visão cirúrgica, Bortolotto entrega muito mais do que uma crítica política: entrega um espelho inquietante que reflete nossas próprias contradições e silêncios. A obra não pretende confortar, mas incomodar profundamente, e é exatamente nesse incômodo, na recusa em apontar vilões ou oferecer respostas fáceis, que reside sua força e sua urgência, confirmando-se como um marco no teatro político brasileiro contemporâneo e um chamado à reflexão sobre os rumos de uma humanidade cada vez mais fragmentada.
Ficha Técnica:
Texto e Direção: Mário Bortolotto
Iluminação e Trilha Sonora: Mário Bortolotto
Elenco: Bruna Martins, Carcarah, Debora Sttér, Gabriela Pimenta, Marina Massaneiro, Mário Bortolotto, Rebecca Leão e Walter Figueiredo. Operação Técnica: Davi Puga e Isabela Bortolotto
Figurino: Mariana Cypriano
Ilustração: Carcarah
Programação Visual: Vanessa Deborah Hüdepoh
Cenário: Regis Santos
Produção Executiva: Cemitério de Automóveis e Produção: Isabela Bortolotto