“Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta. Não há ninguém que explique e ninguém que não entenda” – Cecília Meireles
Liberdade é condição fundamental para o artista criar, nos diz logo de cara Amelia Toledo. E ela prosperou em seu fazer artístico, apesar de ter vivido num momento histórico conturbado. Multiartista, fez instalações com pedras, colagens com papel, pinturas com tinta, experimentos com água e óleo. Hoje, sua obra figura em museus e faz parte de mostras que atraem multidões.
Discípula de Yoshiya Takaoka – o mestre japonês que veio para o Brasil em 1925 e, além de lecionar, foi pintor, caricaturista e designer de interiores -, Amelia transformou sua própria casa em ateliê, o mesmo que fizeram muitos artistas, mas foi única na diversidade de materiais que usou e nas formas de arte que experimentou.
Seu mestrado foi obtido na recém-nascida UnB, da qual seu marido era professor. Foi a atividade do marido que levou a família para o exílio durante a ditadura civil-militar, primeiro em África, depois em Portugal. Saíram de uma ditadura que se iniciava para caírem em outra, que ruía.
De volta ao Brasil, deu aulas na faculdade Mackenzie, da qual se desligou na época em que se desenhava a animosidade que culminaria na Batalha da Rua Maria Antônia. Mas chega de dados biográficos.
O documentário se apoia sobre uma exposição da obra de Amelia no MUBE, Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia de São Paulo. Trata-se de uma exposição interativa, na qual os visitantes podem recobrar sua energia natural em contato com cristais expostos, ouvir melodias ocultas em pedras de calcário esburacadas, brincar com formas em círculos de água e óleo.
A mulher que tratava o filho como mais uma de suas criações artísticas – ele próprio vem falar que se sentia como uma peça – vivia cercada de amigos e amava dançar. Fazia obras de arte também na cozinha, organizando os pratos em tons de aquarela. E foi também pioneira quando o assunto era comida saudável! Em suma, como diz uma entrevistada, tinha um mundo interno tão rico e colorido quanto a arte que fazia. Sobre a gênese do documentário, o diretor Helio Goldsztejn, também responsável pela deliciosa minissérie sobre Modernismo “Aqueles Dias” da TV Cultura, comenta:
“A partir do convite de Moacir Toledo, filho de Amelia e também artista plástico, decidi realizar um documentário sobre essa artista de primeira grandeza – e ainda pouco conhecida do grande público. Muito antes de o termo ‘sustentabilidade’ existir, Amelia já era precursora dessa prática em sua arte, utilizando materiais reaproveitados e experimentando novas linguagens”
Apesar de nascida em 1926, Amelia abraçou as novas tecnologias. Escaneava pedras e cristais para ver paredes e imperfeições invisíveis a olho nu. Da natureza tirou boa parte de suas inspirações, fosse catando conchinhas na praia, organizando suas coleções de pedras ou, como disse um amigo, transformando sua casa em um sambaqui, amontoado de pedras e outros elementos naturais da era pré-cabralina no Brasil.
A neta de Amelia é sucinta: ela não fez representação de coisa alguma, porque queria mostrar que a coisa em si já podia ser muito bonita. Parafraseando uma declaração abominável de Oliveira Salazar, Amelia afirma que artistas são aqueles que insistem em existir. Rigor no fazer e liberdade conceitual eram suas palavras de honra. Que bom que seu legado vem sendo construído com tanta beleza, como neste novo documentário.
“Amelia Toledo – Lembrar de não esquecer” chega aos cinemas em 20 de agosto. Confira o trailer:
Ajude a manter o Nota vivo! Contribua no Apoia.se!