“A palavra que resta”: entre o silêncio, a palavra e a dor de existir

O que resta de nós depois dos anos vividos, dos silêncios guardados e dos sonhos não vividos? Para alguns, sobrarão apenas as palavras. Caneta na mão, um pequeno bloco de anotações e vamos reescrevendo a vida com “a palavra que resta” ou o que sobrou da gente.

Em A palavra que resta (2021), Stênio Gardel nos apresenta uma personagem querida e complexa, o Raimundo Gaudêncio, que nos conta por meio de diversas vozes a sua história em fluxos de pensamento poético e fluido, repleto de sofrimento e angústia.

A palavra que resta, de Stênio Gardel/ Fonte: Reprodução da Internet

Ao longo das 150 páginas, em pequenos capítulos, vamos acompanhando a história de Gaudêncio e seu amor, que se iniciou aos 17 anos, como é descrito no trecho: “num forró na quadra do grupo, que os olhos cor de terra de Cícero lavraram Raimundo” (p. 13). 

A partir da citação deste pequeno trecho, é possível vislumbrar um pouco do que é ler o texto do Stênio Gardel. Não é possível largar estas páginas por muito tempo, porque sua narrativa gruda na gente e a gente quer saber mais, quer entender mais.

Raimundo é impedido de viver seu amor com Cícero, após ser descoberto por seu pai e sua família. É castigado com a dureza das mãos de seu pai, que não entende esse amor e não aceita que o filho seja quem é. Ele não pode contar com o apoio de ninguém , nem mesmo da mãe, que lhe pediu que fosse embora dali, e assim, ele o fez.

Entre cartas não lidas, afetos interrompidos e violências cotidianas

Partiu sem rumo certo para ser quem quisesse ser e ainda assim, não pode viver sua vida livremente, fazer as escolhas com leveza, porque sentia uma culpa por ser quem é, mesmo não precisando ter culpa alguma. Saiu com uma carta de Cícero nas mãos, que poderia ser lida, pois Raimundo não sabia ler.

A vontade de saber o conteúdo da carta de Cícero para Raimundo nos conduz pelas páginas. Ao descobrir que ela existe, persistimos na leitura enquanto tentamos adivinhar o que Cícero tinha a dizer e por que não disse pessoalmente. 

Viveu quase a vida inteira sob a capa de um homem hétero que vivia em busca de um gozo sem prazer pelos cinemas da capital. Foi lá que descobriu seus desejos e sustentou sua culpa, mas nada duraria para sempre, exceto aquela carta em suas mãos que o acompanhava sem ser lida.

Muito embora Gaudêncio siga contando sobre seu amor por Cícero, o romance não se encerra nessa história, antes apresenta a importância das relações sociais e da sua própria história na construção de quem ele se tornou ao longo da vida e como isso modificou suas escolhas e caminhos.

Humanidade, identidade e pertencimento

Seja na saída da sua cidade no interior para a cidade grande até o momento em que consegue escrever seu nome em uma folha de papel aos mais de 70 anos, Gaudêncio é atravessado pelas histórias da família e pelos encontros ora conturbados, ora apaziguadores, como foi aquele com Suzzanný.

O encontro com Cícero na adolescência parece definir muito quem Raimundo seria ao longo da vida. Entretanto, após tantos anos longe de seu passado e desse amor, é Suzzanný quem segura na mão de Raimundo para acompanhá-lo neste mundo que não respeita quem ele e ela são, por não se encaixarem nos padrões sociais pré-estabelecidos.

“Quando a gente sai na rua é desse jeito, fica segurando minha mão, ainda hoje tem gente que estranha, homem velho de mão dada com travesti velha, uns cochichando de um lado, uns olhando atravessado de outro, deixa estranhar, um dia eles aprendem, eu aprendi, eles aprendem, mas tem que querer, querer sair da ignorância, é quase como eu querendo aprender a ler e escrever, tomei a decisão de ver o mundo de outro jeito, me sentir mais dentro dele, porque a ignorância faz é isso, exclui, isola, e não era isolado que eu vivia? (p. 97)

A minha primeira impressão sobre este livro é que o romance entre Cícero e Raimundo é um pano de fundo para que a pessoa leitora compreenda as nuances da carga emocional, da rejeição social e da falta de suporte emocional para quem diz não à heteronormatividade.

StÊnio Gardel/ Fonte: Reprodução da Internet

Assim, podemos pensar nas diversas discussões a serem levantadas após a leitura: educação de jovens e adultos, assistência médica, social e psicológica para pessoas LGBTQIAPN+, políticas públicas, dissidências de gênero, migração, criminalização da homofobia e da transfobia, entre outros assuntos de suma relevância. 

Como o próprio autor nos traz em seu texto poético, podemos ler e compreender o que a palavra nos diz para além do horizonte:

“Esticador de horizontes, a professora Ana  explicou que na poesia uma palavra diz muito  mais do que diz, é a palavra que estica então, isso sim, onde a palavra sozinha não vai, com a poesia vai, voa, que nem os passarinhos, passarinho que escuta de longe o silêncio que é tão alto, silêncio alto, abrir amanhecer, encolher rio, esticador de horizontes, só a palavra mesmo!” (p. 59).

E é por meio da palavra que eu me estico para reconhecer esses horizontes que se apresentam a mim nas leituras que me atravessam. Persisto em dizer que esta é apenas uma primeira impressão, porque desejo ler este livro muitas outras vezes, esticar ainda mais esses horizontes.

Related posts

“As cidades”, de Caetano W. Galindo: um passeio poético – recreativo pelo Brasil

O Malandro Não Aprende as Regras – Ele Aprende a Dobrar Elas

Luanda, Lisboa e Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida: a imigração em contexto familiar