O teatro é sagrado? Alguns artistas que eu conheço cunham uma ideia de que o teatro, o palco e o camarim são sagrados, mas eu sempre tive as minhas dúvidas sobre esse “sagrado”. Ao assistir Sete Minutos, espetáculo escrito e dirigido por Antonio Fagundes, e idealizado por Natália Beukers, eu acredito que o sagrado não é teatro em si, mas talvez experiência coletiva.
Na comédia Sete Minutos, acompanhamos um ator veterano que abandona o palco no meio de uma apresentação de Macbeth, irritado com celulares e distrações da plateia. Nos bastidores, o episódio desencadeia um embate sobre o pacto entre palco e público e os limites dessa convivência.
A dramaturgia de Antonio Fagundes em Sete Minutos possui alta qualidade ao ultrapassar a simples crítica de costumes e transformar o conflito entre palco e plateia em uma reflexão madura sobre a solidão do artista e os paradoxos da experiência coletiva. Longe de se reduzir a uma peça-manifesto, o texto surpreende por sua atualidade e inteligência, utilizando elementos contemporâneos para expor as frustrações de um ator diante de uma audiência desatenta, mas sem jamais perder o humor refinado e as referências culturais que alinhavam a narrativa.
A habilidade do autor em equilibrar o tom cômico com a crítica pungente à “punição” do ator, que cumpre seu ofício em meio a distrações e egoísmos individuais, evidencia uma estrutura dramatúrgica consistente, que dialoga com a tradição teatral enquanto aborda questões contemporâneas sobre o pacto de convivência entre público e palco. Assim, o texto se destaca não por didatismo, mas por sua capacidade de provocar identificação e estranhamento, consolidando uma obra que é ao mesmo tempo uma celebração da arte e um lamento pela sua fragilidade diante do descaso coletivo.
O elenco de Sete Minutos possui uma qualidade que reside na homogeneidade técnica e na capacidade de transitar entre registros opostos com clareza. Norival Rizzo, no papel do ator veterano, se destaca por traduzir com humildade e consciência os conflitos do dramaturgo: sua atuação ajuda o público a compreender a tensão entre a democratização das decisões cênicas e o impacto único de cada sessão sobre o espectador, especialmente aquele que assiste a teatro pela primeira vez. Os demais intérpretes — Walter Breda, Fábio Esposito, Ana Andreatta, Conrado Sardinha e Natália Beukers — sustentam o espetáculo com igual competência, navegando com fluidez entre o humor refinado e os momentos dramáticos exigidos pelo texto. Essa coesão evita que a montagem se torne um veículo unipessoal para o protagonista, fortalecendo o embate coletivo sobre o pacto entre palco e plateia. Assim, o elenco não apenas cumpre sua função narrativa, mas potencializa a reflexão sobre a solidão do artista e a fragilidade da experiência teatral, confirmando o alto nível da produção.
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A direção de Antonio Fagundes em Sete Minutos é marcante pela precisão e funcionalidade: embora simples em sua execução, ela é altamente eficiente ao alinhar uma cenografia de poucos elementos, mas significativos, que não competem com o texto e, ao contrário, ampliam sua contemplação. O grande diferencial, contudo, está na direção de elenco, na qual Fagundes emprega com propriedade um recurso cada vez mais raro no teatro paulistano – o distanciamento brechtiano –, orientando os atores a atuar deliberadamente “um tom acima” do naturalismo. Essa escolha gera uma interpretação consciente, energética e levemente estilizada que, longe de quebrar a empatia, potencializa o debate sobre o pacto entre palco e plateia, a solidão do artista e os paradoxos da experiência coletiva. Assim, a direção não apenas organiza os elementos cênicos com clareza, mas também eleva o espetáculo ao conferir à comédia uma camada crítica e reflexiva, demonstrando que a força do trabalho reside exatamente na sintonia entre contenção visual e ousadia interpretativa.
Sete Minutos é um espetáculo que reinstaura um teatro de diálogo claro e conciso com o público. Ao casar a inteligência dramatúrgica, a coesão do elenco e a direção que privilegia o distanciamento crítico, a montagem prova que o sagrado não está no palco ou no camarim, mas na experiência partilhada entre quem se entrega em cena e quem se dispõe a escutar. O rito só se completa quando ambos aceitam o pacto — e a peça, com humor e lucidez, nos lembra disso sem nunca perder a leveza.
Ficha Técnica:
TEXTO E DIREÇÃO: Antonio Fagundes
ASSISTENTE DE DIREÇÃO: Patricia Gasppar
ELENCO: Norival Rizzo, Walter Breda, Fábio Esposito, Ana Andreatta, Conrado Sardinha e Natália Beukers
FIGURINOS E CENÁRIOS: Fábio Namatame
DESENHO DE LUZ: Domingos Quintiliano
TRILHA SONORA: Jonatan Harold
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Sonia Kavantan
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Jess Rezende
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: José Pessoa
ADMINISTRAÇÃO: Madu Arakaki e Gabriela de Sá
CENOTÉCNICO: Rafa Boese
PRODUÇÃO DE FIGURINOS: Adilson de Faria
MODELISTA: Juliano Lopes
COSTURAS: Lenilda Moura e Fernando Reinert
ILUMINADOR ASSISTENTE: Tiê Fabiano e Vinicius Rocha Requena
ASSISTÊNCIA DE ILUMINAÇÃO: Lucas Aspesi, Luis Henrique Santos e Rafaela Maciel
OPERAÇÃO DE LUZ: Luis Henrique Santos
ENGENHARIA DE SOM: Kleber Marques
OPERAÇÃO DE SOM: Weslei Bonfim Ribeiro
MÍDIAS SOCIAIS E IDENTIDADE VISUAL: Nathalia Duarte e Saul Salles
FOTOS: Ronaldo Gutierrez
MAQUIAGEM PARA AS FOTOS: Beto França
STYLING PARA AS FOTOS: Juliana Beukers Ruiz
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Adriana Balsanelli
PRODUÇÃO DE CAMARIM: Lidiane Rosa e Jess Rezende
INVESTIDORES INICIAIS: André Aliperti, Antonio Ruiz Filho, Fábio Esposito, Henrique Stroeter, João Otavio Martins Ribeiro, Leonardo Cesário e Maria Helena Beukers Ruiz.
IDEALIZAÇÃO: Natália Beukers
REALIZAÇÃO: INFOTEATRO
COPRODUÇÃO: BEIJO PRODUÇÕES ARTÍSTICA
NÃO É PERMITIDA A ENTRADA APÓS O INÍCIO DO ESPETÁCULO.
Planeje sua chegada ao teatro com antecedência. O espetáculo começa RIGOROSAMENTE no horário marcado.
Não haverá troca do ingresso e/ou reembolso dos valores pagos.
Não haverá espetáculo nos dias 14/6, 21/6 e 3/7.