Sempre que eu vou escrever uma crítica, a minha maior dificuldade está no começo. Eu fico pensando em como iniciar a análise da peça, e existem espetáculos sobre os quais eu fico na dúvida do que eu posso ou não falar. Mas, para A Solidão do Feio, quero me dar o direito de, talvez, falar demais.
O espetáculo apresenta um ator em um estúdio improvisado, onde, junto a uma equipe, realizam o exercício ficcional de recriar fragmentos da trajetória da vida e obra do escritor Afonso Henrique de Lima Barreto. O personagem é contado em primeira pessoa, com suas certezas, contradições e sonhos de futuro.
Partindo de um velório na parte externa da unidade, a história é contada em fragmentos não cronológicos da vida de Lima e passeia por diferentes gêneros teatrais. Sob a perspectiva performática do teatro panfletário – resultado da pesquisa continuada da Cia Os Crespos – Lima Barreto ganha, de acordo com Sidney Santiago, face do herói nacional.
O velório é um dos atos mais simbólicos do espetáculo, ao entrar com um caixão na sala de espera, é instaurada uma atmosfera com silêncio e apreensão dos comentários, que somente é sentida em velórios. Essa homenagem de corpo presente torna-se importante não apenas pelo choque ou por uma questão estética, mas para um reconhecimento. Lima Barreto, foi um escritor que falou muito sobre o racismo em suas obras, mas foi completamente rejeitado por uma elite conservadora e racista durante a sua vida. Ter uma homenagem de corpo presente toca cada espectador que conhece a vida e obra de Lima Barreto, permitindo assim, em apenas 10 minutos de espetáculo, um grande atravessamento no público.
Avaliar a dramaturgia de Sidney Santiago Kuanza para A Solidão do Feio, é intrigante tanto na abordagem narrativa quanto nas escolhas dos temas. Ao optar por uma narrativa pós-dramática, sem linearidade, mas com o foco na experiência sensorial do público, o espetáculo ganha potência e dinamismo, mantendo o público ligado em cada cena. Mas como contar a história de um escritor que foi embranquecido por uma sociedade que o rejeitava? Ao mesclar fatos históricos, com seus contos – totalmente justificados, pois, conforme mencionado por Lilia Schwarcz numa entrevista ao jornal El País, Lima escreveu a partir de sua própria experiência. Sua obra, nesse sentido, é extremamente autobiográfica – conseguimos montar um quebra-cabeça sobre Lima Barreto e o racismo sofrido por ele, como no conto Apologética do Feio, que ao mesmo tempo, é utilizado como um fato histórico para gerar uma perspectiva biográfica sobre o racismo sofrido. Essas escolhas mostram um trabalho minucioso de pesquisa sobre o autor e um olhar afiado ao abordar os grandes acontecimentos da vida do escritor.
A atuação de Sidney Santiago Kuanza em A Solidão do Feio é algo que transcende a própria noção de atuação, elevando-se a uma performance de profunda verdade cênica e domínio absoluto do espaço. Kuanza não apenas interpreta um personagem, mas opera em camada meta-teatral, quebrando a encenação dentro da encenação com uma consciência que amplifica a potência política e emocional do espetáculo. Sua força interpretativa se manifesta na alternância controlada entre angústia e euforia, modulada por um timbre de voz que envolve e atravessa o público, criando um impacto imediato e visceral. Ao assumir a face do herói nacional, o ator entrega uma performance que é, ao mesmo tempo, homenagem, denúncia e experiência transformadora, transformando-se no elemento central para o sucesso da abordagem pós-dramática e fragmentada da dramaturgia.
A direção de Gabi Costa não se limita a organizar bloqueios ou coordenar luzes, mas atua como agente ativa na construção da experiência teatral, intervindo na dramaturgia do espaço e no fluxo emocional da performance. Ao tornar-se “personagem”, Gabi Costa dissolve as fronteiras tradicionais entre criação e execução, direção e encenação, sugerindo uma encenação que respira em tempo real, em diálogo constante com o ator e com o público. Essa escolha potencializa o caráter panfletário e político do espetáculo, já que a direção, ao invés de ocultar seus mecanismos, os expõe como parte da homenagem e da denúncia. A qualidade da direção, portanto, reside em sua ousadia conceitual e em sua presença performática, que sustenta e amplifica a abordagem pós-dramática e a verdade cênica do ator, sem jamais se sobrepor a elas.
A Solidão do Feio não é apenas um espetáculo bem executado, mas um acontecimento teatral em que todos os elementos — dramaturgia, atuação e direção — se encontram em raro equilíbrio de potência e sentido. A narrativa pós-dramática e fragmentada de Sidney Santiago Kuanza não se perde em experimentalismo vazio: ela serve à urgência de reconstruir, como um quebra-cabeça, a vida e a obra de Lima Barreto, devolvendo-lhe a face de herói nacional que a elite racista lhe negou. A performance do próprio Kuanza transcende a atuação convencional, ancorando essa estrutura em uma verdade visceral que alterna angústia e euforia com domínio absoluto. O resultado é um trabalho que atravessa o público não apenas pela emoção imediata, mas pela coerência política e estética. Como apaixonado por teatro, posso afirmar: são raras as obras que, como esta, convertem A Solidão do Feio em uma experiência coletiva tão indispensável quanto inesquecível.
Ficha técnica:
Concepção, dramaturgia e atuação: Sidney Santiago Kuanza
Direção: Gabi Costa e Sidney Santiago Kuanza.
Direção de produção: Rafael Ferro e Sidney Santiago Kuanza.
Direção de arte e produção executiva: Jandilson Vieira.
Dramaturgia de imagens e desenho de som: Eduardo Alves.
Iluminação: Denilson Marques.
Cenografia: Wanderley Wagner.
Figurino e trilha sonora: Sidney Santiago Kuanza.
Figurino especial Lima Barreto: Zebu.
Fotografia: Pedro Jackson e Fredo Peixoto.
Adereços e desenho de traje: Thiago Figueira.
Vozes off: Darília Ferreira, Heitor Goldflus e Pedrão Guimarães.