“Dias Felizes” mostra uma mulher enterrada em uma ruína eterna: a violência

Uma mulher enterrada até a cintura repete o quanto o dia pode ser maravilhoso. A premissa de “Dias Felizes”, escrita por Samuel Beckett em 1961, guarda essa imagem como prima daquela que deve ser a sua peça mais conhecida, “Esperando Godot”. Winnie também espera por algo. Mas, no caso dela, espera apenas que o dia passe. Essa agonia, que não se materializa na figura de algo concreto, joga “Dias Felizes” para um campo mais ordinário e rotineiro. O dia nasce e morre, apesar do horror do mundo, das guerras, dos genocídios e dos governos vigentes.

Em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo, esta montagem de “Dias Felizes” tem direção de Paulo de Moraes, com adaptação e tradução de Jopa Moraes, ambos membros da Companhia Armazém. Entre o sino estridente que castiga sua rotina e o calor do sol, Winnie (Patrícia Selonk) usa alguns objetos — como uma escova de dentes, uma lupa e um guarda-chuva — para marcar o tempo.

Direitos autorais: © João Gabriel Moraes Monteiro

O texto de Beckett é encenado de maneira quase integral. Trata-se, porém, de uma dramaturgia esponjosa, que absorve as angústias do momento. No espelho criado por Paulo de Moraes, Winnie está enterrada no topo de uma colina íngreme, remetendo ao mito de Sísifo. É um trabalho maiúsculo de cenografia, criado por Paulo de Moraes e Carla Berri. Não por acaso, o diretor afirma, no texto de apresentação, que “Dias Felizes” é um trabalho sobre resistência.

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No mito, Sísifo empurra uma pedra monte acima, mas ela sempre rola de volta, obrigando-o a repetir o mesmo processo eternamente.

As pedras, inclusive, são elementos muito presentes na costura da tradução, que inclui trechos de “No Meio do Caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, e “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos, deflacionando a figura de Sísifo em razão da agonia de Winnie.

Sim, porque o que vemos é uma mulher enterrada até a cintura conversando com um marido que não lhe estende a mão, não responde e não se incomoda com a situação evidente. Na assombrosa interpretação de Felipe Bustamante, Willie, o marido de Winnie, é uma espécie de guardião daquela situação, um vigia para que nada mude. Essa instância da resistência, por assim dizer, abre os poros do texto de Beckett para uma das maiores pedras do Brasil neste momento: o feminicídio.

Em 2025, o Brasil registrou um recorde de 1.568 vítimas de feminicídio, representando uma alta de 4,7% em relação ao ano anterior. Em 80% dos casos, o assassino foi o parceiro ou ex-companheiro da vítima, e 66% dos crimes ocorreram dentro de casa. Não é uma realidade que pareça mudar.

Direitos autorais: © João Gabriel Moraes Monteiro

Mas um texto como “Dias Felizes” é um buraco negro que suga dores, agonias e ironias – quem disse que viver o horror não é viver um dia feliz? – e a direção de Moraes não distorce a poderosa imagem poética criada pelo dramaturgo. Ao contrário, tal imagem ultrapassa a década em que foi criada, contaminando nosso presente. Na peça, Winnie repete algumas vezes a história de um casal que a vê enterrada e nada faz. O modo genial como o diretor usa uma arma durante e ao final da peça, além da turbinada no papel de Willie, concentram essa leitura sobre a montagem e até a brincadeira que a tradução faz com “win” (vencer, em inglês, e também as iniciais do nome da personagem), não passa despercebida da plateia. Há uma violência que se tornou cotidiana, que não incomoda e não agride. Então resistir seria um modo de perpetuá-la?

Tudo o que está posto, contudo, se agarra à interpretação de Patrícia Selonk no papel da personagem principal. Seu tom, suas expressões, seu humor estranhíssimo e, sobretudo, sua interação com Willie apedrejam a percepção do público, desorientam e criam uma fissura temporária de tantas violências que seguem dia após dias, de formas multiplas, já que Isabel Pacheco e Jopa Moraes se revezam no papel de Willie, criando outros machucados.

Ainda sob esse guarda-chuva, no texto de Beckett, uma das falas mais corrosivas de Winnie é: “Que maldição é a mobilidade!”. Não me lembro se essa frase foi dita na encenação. Não importa. Em um país onde 1.568 mulheres foram enterradas sem isso provocar um rebuliço, onde tantos “Willies” e “Winnies” são igualmente ignorados à luz do dia e debaixo de um sol esmagador, a imobilidade parece mesmo ser maravilhosa.

Ficha Técnica:

Autor: Samuel Beckett

Direção: Paulo de Moraes

Elenco: Patrícia Selonk como Winnie e Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e Jopa Moraes (revezando em dias alternados a personagem Willie)

Tradução: Jopa Moraes

Iluminação: Maneco Quinderé

Cenografia: Carla Berri e Paulo de Moraes

Figurinos: Carol Lobato

Música Original: Ricco Viana

Designer Gráfico: Jopa Moraes

Fotografias: João Gabriel Monteiro

Pedras Cenográficas: Alex Grilli

Efeito Sombrinha: Paulo Denizot

Videografismo: João Gabriel Monteiro e Paulo de Moraes

Assessoria para Videografismo: Rico Vilarouca

Colaboração Artística: Lorena Lima

Assessoria de Imprensa: Ney Motta

Assistente de Produção: Flora Menezes e Malu Selonk

Produção São Paulo: Pedro de Freitas e Laís Machado | Périplo

Produção: Armazém Companhia de Teatro

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