“Urucum: sangue sobre silício”: ficção especulativa afroindígena de Rafael Kapiwara imagina um Brasil que trocou de nome sem alterar as bases do sistema

Um chefão da tecnologia morto em uma sala trancada. Ozzy Chatterton, criador do console de imersão em realidade virtual Scuba Diving, é encontrado sem vida, preso à própria criação. O perito cibernético Alcenio Borges é então chamado para investigar o que parece impossível: um assassinato no maior lançamento tecnológico da história de Nova Pindorama. E ele precisa correr contra o tempo antes que outros jogadores sejam mortos durante uma partida de Battle Royale.

Assim começa Urucum: sangue sobre silício, ficção especulativa cyberpunk e afroindígena futurista de Rafael Kapiwara, na qual o autor imagina um Brasil que trocou de nome sem alterar as bases do sistema. 

Um começo que roça na memória de Eu, Robô, uma adaptação bem afastada do livro homônimo e já também clássico de Asimov. No longa dirigido por Alex Proyas e estrelado por Will Smith, um detetive também é chamado para investigar a morte suspeita de um bambambã da robótica. A aura é de suspense e conspiração. No entanto, essa é só a 1ª impressão, pois a narrativa fica mais complexa conforme o livro de Rafael avança. Vejamos.

O ano é 2087 e o que um dia foi o Brasil é Nova Pindorama, como se ao retornar a um nome originário fosse possível erradicar toda uma história de violência e apagamento. Pindorama é um termo de origem Tupi-Guarani que significa “Terra das Palmeiras” e era o nome dado pelos Tupis ao território que hoje conhecemos como Brasil. A utilização do termo vem acompanhada pela valorização da perspectiva indígena sobre a história, ao reconhecer que a região já possuía cultura e habitantes milhares de anos antes da chegada dos portugueses 

Nesse ex-Brasil, o território foi dividido entre cidades-estado flutuantes: Nova São Paulo, Nova Rio de Janeiro e Nova Brasília; e o Solo. Nas cidades flutuantes estavam os ricos, com seus luxos e seu acesso a bens, serviços e poder. No Solo, um mundo precarizado e empobrecido, uma divisão nos moldes daquele que apresenta o distópico Elysium, filme de 2013 com Wagner Moura e Matt Damon, que critica as desigualdades sociais retratando uma humanidade dividida na qual os ricos viviam em uma luxuosa estação espacial, enquanto os pobres lutavam pela sobrevivência em uma Terra em frangalhos. 

Não é preciso muito para imaginar o tipo de sociedade que reproduz um sistema desses. Em Nova Pindorama, a GovCorp, uma entidade governamental central fundida com corporações e regida por métricas e algoritmos, agia como um Serasa, analisando o “score” de cada um baseado em algoritmos criados por eles mesmos e ditando, assim, quem sobe. 

Uma aproximação possível que podemos fazer é com aquele episódio de Black Mirror com a Bryce Dallas Howard em que as pessoas recebiam notas, como as do Uber, e essa pontuação definia o status social. Não só isso, já que o mesmo algoritmo, segundo seus defensores, deveria ser responsável por antecipar o risco de acordo com esse “score” e, em uma espécie de Minority Report, identificar o “problema” antes que ele aconteça. 

“— O senhor sabia. — Borges começou quebrando a tensão. — que sistemas de segurança com reconhecimento facial nas empresas têm uma taxa de falha menor que um por cento para homens brancos, mas chega a 39% para homens negros e até 41 para mulheres negras?”

É um cenário distópico no qual o avanço tecnológico se desenrola em um meio afundado em corrupção e degeneração da sociedade. Personagens com exoesqueletos, próteses, implantes cibernéticos e diversas modificações corporais completam a aura cyberpunk da obra.

Porém, em meio a tudo isso, ao caos de uma terra devastada, há resistência e ela é encabeçada por movimentos indígenas e movimentos de rediáspora na África.

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Rafael nos apresenta esse mundo alternando a narração entre a eletrizante batalha travada dentro do jogo, a caça ao hacker que invadiu o sistema e deu ao bilionário um game over na vida real, e os flashbacks que mostram como a história culmina na morte de Ozzy e as motivações dos personagens principais. 

Borges, o perito da central de combate a crimes digitais da PolCorp, Polícia Corporativa de Nova Pindorama, é um homem negro que já havia enfrentado um grupo neonazista inspirado no racismo científico do eugenista Nina Rodrigues. Borges venceu a batalha, mas a guerra continuou.

Amana, a outra protagonista de Urucum: sangue sobre silício, é uma indígena especialista em programação que havia estudado com Borges. Originária das Aldeias Multiétnicas, ela é o retrato de uma geração que foi criada para transitar entre os dois mundos. 

“— As Aldeias Multiétnicas estão aqui para manter as mãos do futuro e do passado unidas — disse o Cacique Líder daquela região, na abertura do evento. — Para isso precisamos da manutenção do conhecimento originário e do aprendizado sobre as grandes tecnologias. E para que, através da união das etnias, cresça em silêncio uma resistência antes que o homem-mercadoria engula tudo.”

Após 20 anos, os caminhos dos dois se encontram nesse mundo de jogos e realidades virtuais e imersão cyberneural. Quem assistiu à série Periféricos ou leu o livro homônimo de William Gibson provavelmente irá se associar e entender na hora mais ou menos como a coisa funciona.

O jogo All Your Life é um ecossistema de cyberimersão, algo como a Matrix, mas aqui os humanos entram nela conscientemente. Ele possui vários modos, desde o Life, no qual você constrói uma vida lá dentro, a modos esportivos e gamers como RPGs, caçada de monstros de bolso, MOBA e o mais famoso Battle Royale, chamado Resta1, onde as principais cenas de ação do livro acontecem e que são um deleite para os fãs do gênero e com o plus de serem carregadas de simbolismo, como por exemplo, um personagem evocar uma harpia brasileira no meio de uma luta corpo a corpo enquanto o avatar de outro personagem é um tatu humanoide.

É também em Resta1 que uma batalha de algoritmos se desenrola, o novo contra o velho. Talvez essa seja uma das sacadas mais interessantes de Rafael, que, misturando tecnologia, sociedade e ancestralidade, possibilita uma antropofagia tecnológica na qual há a recusa em ser apenas um dado no algoritmo de outrem e a defesa da escrita do próprio algoritmo. Ele faz isso pensando em uma criptupigrafia criada a partir da sintaxe do Tupi-Guarani, inclusive, expressões da língua Guarani e inspiradas no Tupi-Guarani aparecem ao longo da narrativa.

Outro elemento que merece destaque é que Rafael não joga esse mundo de Urucum: sangue sobre silício no colo do leitor. Ele nos presenteia com um mito de criação que avança pela chegada dos primeiros seres humanos e dos invasores a Pindorama, um país arquipélago, que compreende a extensão do Solo físico, em oposição ao céu das cidades flutuantes, e que historicamente é o nome originário do Brasil.

Ao trazer todos esses elementos e chamar a atenção para o fato de que a tecnologia não é isenta e que o seu avanço sem um processo de conscientização resulta apenas no fortalecimento do status quo, Rafael faz o que a ficção científica faz de melhor, como diria Ursula K. Le Guin, ela descreve. 

Rafael descreve o hoje enquanto imagina o amanhã.

Sobre o autor:

Rafael Kapiwara nasceu no interior de São Paulo e hoje reside no Maranhão. Formou-se em Jornalismo na cidade de Bauru, sempre amou escrever e hoje descobriu que a escrita é o seu ikigai. Mais um pardo tri-racial descendente de nordestinos, ávido por entender o seu lugar no mundo.

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