Em “Língua”, um taxista surdo é surpreendido por uma festa de aniversário preparada por sua mãe. Alguns amigos participam. Mas um deles não fala LIBRAS — a Língua Brasileira de Sinais — e depende dos outros para entender o que está acontecendo.
O extraordinário dessa dramaturgia de Pedro Emanuel e Vinicius Arneiro, vencedora do prêmio Shell, está no quanto ela é simples: um grupo de pessoas tentando conversar e se entender, apesar da surdez, não por causa dela. O efeito disso em cena é a criação de um elo diferente com o público, já que as palavras, seus sons e seus sentidos estão exilados para boa parte de quem assiste. A incompreensão faz parte da peça.
O cenário criado por Julia Deccache dá forma a essa confusão. O palco está praticamente nu. Há poucas cadeiras sobre um tablado inclinado e uma tela, usada para traduzir algumas falas dos personagens em momentos distintos. A direção musical de Felipe Storino também cria esse desconforto, como se existisse algo ali que nós (ou os personagens) não quiséssemos ouvir. Um tipo de segredo. Vinicius Arneiro, que também assina a direção, usa o vazio, os ruídos, a luz e, sobretudo, as próprias mãos dos atores como alfabeto para compor a história.
Isso não significa que as palavras percam peso em “Língua”. Ao contrário, o jogo se fundamenta no quanto elas são uma das formas de diagramar a comunicação. Mas a fala, ou seja, aquilo que alguém tem para dizer, não depende desse mecanismo; a “fala” não é apenas um conjunto de símbolos, vogais e consoantes. É um tipo de estrutura em que um indivíduo encontra espaço para ser compreendido.
É aí que “Língua” transforma essa posição em poesia: o teatro é lugar de escuta, inclusive para si mesmo. O tablado se transforma em um aparelho auditivo para o público, e alguns temas ganham som, como a falta de diálogo entre as pessoas, a incapacidade de ouvir uns aos outros — cada vez mais potencializada por estes tempos extremos — e a falta de espaço para determinados grupos. Isso está no entorno. O centro da montagem se forma pela necessidade de parar para ouvir. Durante 2h nós vamos ficar sentados, sem usar o celular, ouvindo uma história.
Não por acaso, Arneiro deixa audíveis os barulhos das engrenagens que movem uma peça, por exemplo quando Félix — o personagem que não entende LIBRAS — lê no telão a tradução e diz: “Parece que tô num filme”. E a tela responde: “Não, você está em um teatro”.
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Esse tipo de elemento impede que a representatividade de ter um ator surdo em cena entre em conflito com a representação. “Língua” não é uma biografia encenada, nem uma masterclass sobre inclusão. É uma peça!
Parece óbvio lembrar, só que o teatro contemporâneo tem usado a representatividade como ruído. Os personagens encampam causas, não sentimentos. As histórias se montam por meio de discursos, não de tramas. E a comunicação cênica perde canais de acesso.
“Língua” tapa os ouvidos para isso porque a linguagem, como escreve Pedro Emanuel, “pede gírias, dialetos, velocidades, erros, quebras, torções. Já a palavra viva pede corpo, delírios, dúvidas, suor, saliva e carne”.
Em um dos momentos mais inspirados do espetáculo, Tom (interpretado por Jhonatas Narciso, ótimo), amigo de infância de Matias (Ricardo Boaretto), o taxista aniversariante, pergunta se há intérprete na plateia. Na minha sessão, uma mulher com um sotaque carioca maravilhoso assumiu a função e fez muita diferença ouvir a cena pela boca dela. A experiência me lembrou duas coisas: o final do filme “Drive My Car”, quando uma das personagens diz o texto de “Tio Vânia” usando a língua de sinais japonesa, e a teoria de Ferdinand de Saussure.
Para esse linguista, os sons sempre existiram. A humanidade só encontrou uma maneira de apreendê-los em símbolos, chamados de palavras. Uma palavra é significante. O sentido dado a ela é o significado. Juntando tudo, temos o signo. A palavra une conceito a uma imagem acústica: quando alguém diz “árvore”, cada pessoa tem uma “imagem” particular projetada na mente. Mas, por ser aleatório, um gringo não vai entender nada ao ouvir “árvore”. O que é bárbaro na teoria e que, de alguma maneira, se encaixa na peça é que o teatro faz a mesma coisa com os gestos. Eles existem. Estão por aí. E mesmo eu não sabendo nada de LIBRAS, diante da atuação de Ricardo Boaretto, alguma coisa se fez compreensível.
Se a língua é um fato social coletivo, com teorizou Saussure, como idioma, o teatro organizou o clown, a mímico, o clássico, o monólogo e a performance, permitindo que esses e outros incontáveis códigos fossem compreendidos por meio das palavras, de gestos e dos silêncios.
Sim, “o resto é silêncio” sempre foi (e será) a linha de partida no teatro.
E talvez seja por isso que os artistas, mesmo constatando a insuficiência da linguagem para traduzir algo tão particular, instável e único quanto os sentimentos humanos, continuem contando histórias: há gente para ouvir.
O espetáculo está em cartaz no Sesc Consolação, em São Paulo.
Ficha Técnica
Direção: Vinicius Arneiro
Dramaturgia: Pedro Emanuel e Vinicius Arneiro
Elenco: Erika Rettl, Filipe Codeço, Jhonatas Narciso, Luize Mendes Dias (Caju Ribeiro/Stand-in) e Ricardo Boaretto.
Direção de Produção: Juracy de Oliveira
Intérprete LIBRAS/Português e Transcriação: Lorraine Mayer
Interlocução Dramatúrgica: Catharine Moreira
Interlocução Gestual: Laura Samy
Assistência de Direção: Dominique Arantes
Cenário: Julia Deccache
Direção Musical: Felipe Storino
Iluminação: Daniela Sanchez
Figurino: Julia Vicente
Arte Gráfica: Pedro Colombo
Produção Executiva: Híbrida Arte e Cultura – Lindsay Castro Lima e Mariana Mantovani
Assistente de Produção: Laura La Padula
VJ: Dominique Arantes
Operação de Luz: Felipe Antello e Matheus Espessoto
Operação de Som: Stephanye Correa e Lays Somogyi
Cenotecnia: Djavan Costa
Assistência de Cenotecnia: Giovanna Guadanholi
Assessoria de Imprensa: Canal Aberto Comunicação
Fotografia: Renato Mangolin
Idealização: Filipe Codeço e Vinicius Arneiro