Victor Hugo escreveu Os Miseráveis ao longo de décadas, publicou-o em 1862 e, com ele, garantiu sua imortalidade — mas seria um desperdício considerável deixar que essa imortalidade obscurecesse o resto. Hugo foi um escritor de uma prolificidade e de uma ambição que poucos da sua geração, com a exceção de Dumas, igualaram, e a sombra que Os Miseráveis projeta sobre sua obra completa é, ao mesmo tempo, o maior tributo que se pode fazer ao livro e uma injustiça pequena mas real para com os outros.
Ele escreveu sobre arquitetura e sobre o mar, sobre tiranos e sobre condenados, sobre a Revolução e sobre o que ela deixou para trás; cada um desses livros carrega a marca inconfundível de alguém que nunca soube — e nunca quis — separar a literatura da política, a beleza da indignação, o romance da tese.
Abaixo, uma lista para conhecer Victor Hugo para além de sua maior obra:
O Corcunda de Notre Dame (1831)
Publicado originalmente como Notre-Dame de Paris, o romance se passa em Paris no século XV e acompanha Quasímodo, o sineiro deformado da catedral de Notre-Dame, e Esmeralda, uma jovem cigana por quem ele desenvolve uma devoção silenciosa e absoluta. Ao redor dos dois orbita um triângulo de obsessão e destruição: o arquidiácono Frollo, que deseja Esmeralda com uma intensidade que a sua fé não consegue suprimir, e o capitão Phoebus, por quem ela se apaixona sem saber que ele não a merece.
Hugo usa a história para construir um retrato denso e sombrio do Paris medieval — suas ruas, seus marginalizados, sua Corte dos Milagres — e para fazer da própria catedral um personagem tão central quanto qualquer um dos humanos que vivem à sua sombra.
Por que ler? Porque é o romance que estabeleceu o modelo do que Hugo faria durante toda a carreira: usar a ficção histórica para falar do presente, transformar figuras marginalizadas em protagonistas de tragédias de escala épica, e construir ambientes físicos com uma densidade que poucos escritores conseguiram igualar. É também um dos grandes romances sobre a compaixão, e sobre o que acontece quando a sociedade recusa concedê-la.
O Último Dia de Um Condenado (1829)
Escrito antes de Notre-Dame de Paris e de Os Miseráveis, este é um dos textos mais radicais da carreira de Hugo — um monólogo interior de um homem condenado à morte pela guilhotina, narrado nos dias e horas que antecedem a execução, sem que o crime pelo qual foi condenado seja jamais revelado. Hugo, não está interessado no crime, mas sim no que a pena de morte faz com um ser humano, e no que faz com a sociedade que a pratica. O livro é um argumento abolicionista construído inteiramente como ficção, sem nenhum discurso explícito — o que o torna, paradoxalmente, mais eficaz do que qualquer panfleto. O livro reflete muito bem a forte opinião de Hugo contra a pena de morte, também feita explícita no início de Os Miseráveis.
Por que ler? Porque é curto, devastador, e surpreendentemente moderno — lê-se como um texto do século XX, não do XIX. A obra mostra Hugo antes de Hugo se tornar o monumento que o século acabou fazendo dele: jovem, furioso e já disposto a usar a literatura como arma.
Os Trabalhadores do Mar (1866)
Publicado quando Hugo estava exilado na ilha de Guernsey, o romance acompanha Gilliatt, um homem solitário e excêntrico que vive à margem de uma pequena comunidade de pescadores e que, para conquistar o amor de Déruchette, aceita a missão aparentemente impossível de recuperar a máquina de um navio naufragado num recife perigoso no meio do mar.
O que se segue é um dos mais extraordinários duelos entre um homem e a natureza já escritos em prosa — Gilliatt contra as rochas, contra as marés, contra o frio, contra um polvo gigante numa cena que ficou famosa muito além do romance em si. Hugo usa o mar de Guernsey, que conhecia intimamente do exílio, com uma precisão e uma grandiosidade que transformam a paisagem em algo simultaneamente físico e mítico.
Por que ler? Porque é Hugo em modo puramente narrativo, sem os longos desvios históricos e filosóficos que estruturam Os Miseráveis — mais concentrado, mais brutal, com uma das histórias de sacrifício silencioso mais perturbadoras que ele escreveu. A descrição do trabalho solitário de Gilliatt no recife, semana após semana, é uma das coisas mais hipnóticas da literatura francesa do século XIX.
O Homem que Ri (1869)
Gwynplaine é um jovem inglês desfigurado na infância por uma operação clandestina que lhe esculpiu no rosto um sorriso permanente e grotesco — transformado em aberração de circo, ele se torna famoso por fazer as multidões rirem de um sofrimento que elas não reconhecem como sofrimento. Ao lado de Dea, uma menina cega que o ama sem nunca ter visto o que todos os outros veem, e do velho Ursus, o filósofo ambulante que os criou, Gwynplaine atravessa uma Inglaterra do século XVII que Hugo usa como espelho para criticar a aristocracia, a exploração e a hipocrisia social do seu próprio tempo. O título é, como quase sempre em Hugo, uma ironia de múltiplas camadas: quem ri é o mundo, não Gwynplaine.
Por que ler? Porque é o romance de Hugo mais explicitamente político depois de Os Miseráveis, com um discurso no parlamento inglês que está entre os seus momentos mais eletrizantes, e porque Gwynplaine é um dos personagens mais perturbadores que ele criou — uma figura cuja tragédia está precisamente no fato de que o mundo nunca consegue vê-lo como ele é, apenas como parece. Vale notar que o personagem inspirou diretamente a criação do Coringa, da DC Comics.
Noventa e Três (1874)
O último romance de Hugo se passa em 1793, no auge do Terror revolucionário, e acompanha três homens cujos destinos se entrelaçam na Vendeia, região do oeste da França onde a guerra civil entre republicanos e realistas atingiu uma brutalidade particular. Cimourdain é um padre que abandonou a Igreja para se tornar um dos homens mais implacáveis da Revolução; Gauvain é o seu antigo pupilo, agora general republicano, que não perdeu a capacidade de compaixão; e o Marquês de Lantenac é o aristocrata realista que os enfrenta, velho e feroz, convicto de uma causa que já perdeu.
Hugo usa os três para formular uma das perguntas que o obcecou durante toda a vida: quando a revolução exige crueldade para sobreviver, o que se perde no processo? Pode a justiça sobreviver à violência que a tornou possível?
Por que ler? Porque é Hugo finalmente escrevendo sobre um tema do qual sempre fugiu – o Terror, período mais mortífero da Revolução Francesa – e tratando a Revolução Francesa com a complexidade moral que só um homem de oitenta anos, que viveu sob monarquias, repúblicas e impérios, poderia ter — sem romantizar nenhum lado, sem condenar nenhum lado de maneira simples, construindo personagens que são simultaneamente produtos do seu tempo e pessoas capazes de escolhas que o transcendem. É um dos grandes romances sobre a contradição entre princípios e consequências, e uma despedida à altura de uma carreira extraordinária.