“A Divina Sarah Bernhardt” (2026) conta por que tudo de importante na arte aconteceu na França

Tudo de mais importante que aconteceu na arte desde o século XIX se passou na França, especialmente em Paris. Por que essa espécie de senso comum severamente ocidentalizado insiste em tomar conta de nós? Em certa altura de A Divina Sarah Bernhardt, (dir. Guillaume Nicloux, 2026) chegamos bem perto de uma resposta. O filme nos entrega três razões, ou, mais precisamente, três instrumentos que os artistas franceses, como Sarah, sabem usar com destreza e paixão.

O filme, distribuído pela Imovision, plataforma com curadoria dedicada a difundir o melhor do cinema mundial na América Latina, é uma cinebiografia da atriz francesa que viveu, de fato, em Paris, em toda a glória decadente do fim do século XIX. Sarah Bernhardt é considerada a primeira estrela mundial não apenas pelo talento singular, mas pela figura midiática e performática que construiu em uma era de muito glamour, mas ainda distante da indústria do entretenimento tal como a conhecemos.

O auge da glória de Sarah se deu na Belle Époque, e o filme é um memorial de sua vida e carreira na virada do século XIX para o XX, quando a atriz, já em avançada maturidade, relembra a extravagância com que viveu seus sucessos, romances e tragédias. Consta, entre os relatos que lhe renderam o título de pessoa mais famosa do mundo, que a artista mantinha uma estratégia de imagem cuidadosamente elaborada: fazia questão de que se soubesse que dormia em um caixão, ritual que, segundo ela, a ajudava a adentrar a alma de suas personagens trágicas.

Hedonista e irreverente, interpretada por Sandrine Kiberlain, Sarah era uma notável guerreira na luta pela liberdade sexual e artística das mulheres. A protagonista é tão dramática e magnética que boa parte do filme se sustenta em sequências do seu rosto expressivo, em primeiríssimo plano.

Nos primeiros minutos, seria válido supor que se tratava de um filme exageradamente teatral, do tipo que se sustenta única e desequilibradamente pelo talento monologal de uma atriz, como A Noiva, com Jessie Buckley. Mas bastam um ou dois encontros de Sarah com personalidades ilustres da arte e da cultura de sua época, como o escritor Émile Zola e o criador da psicanálise Sigmund Freud, para perceber como o filme dialoga bem com o espírito do tempo, oferecendo a perspectiva instigante e provocativa de Sarah sobre as narrativas políticas e filosóficas do seu momento histórico.

É justamente no modo como ela conduz esses diálogos com as figuras que moldariam a intelectualidade ocidental do século XX que o filme revela as três razões, os três instrumentos, pelos quais os acontecimentos mais importantes da arte no mundo pareceriam ter acontecido na França.

O que o filme sugere, no fundo, não é que a França simplesmente tenha mais apreço pelas artes dramáticas, e sim que o país sabe formar devotos capazes de transformar matéria orgânica da existência humana em instrumentos artísticos, como fez Sarah Bernhardt. O primeiro desses instrumentos, ilustrados no filme, é a voz. Em uma das declarações mais emblemáticas do longa, Sarah afirma que a voz é um instrumento do ser humano, e que é dever de todo artista saber empunhá-la, com as entonações adequadas a cada emoção e mensagem que se deseje transmitir ao interlocutor.

O segundo desses instrumento é a emoção. A França, sugere o filme, é palco para artistas de sensibilidade capaz de converter o sentimento em ferramenta de trabalho, e Sarah, mais uma vez, é o maior exemplo disso: um verdadeiro pêndulo emocional. Até na velhice, aparentemente paralisada por uma condição física e pela idade avançada, é pela emoção que ela mantém acesa a mesma alma inquieta da juventude, quando essa inquietação se transformava nas paixões avassaladoras que viveu por seu grande amor e por sua própria arte.

O terceiro instrumento é a dor. Sarah, de novo, é o exemplo perfeito, inclusive, para distinguir a dor da emoção. Porque, quando um sentimento pungente demais a acometia como uma punhalada no peito, ela remediava esse mal com perversidade, causando a si uma dor física capaz de superar o sofrimento do seu ser. Assim, performava tanto no palco quanto na vida, especialmente nos bastidores.

Voz, emoção e dor: os três instrumentos que, pelo que se vê pela Divina Sarah Bernhardt, os franceses dominam com maestria. É um filme belíssimo que, longe de ser uma biopic monumental como as que têm chamado a atenção da Academia nos últimos anos, envolve pela força da protagonista e pelo êxtase de Paris na virada do século XIX para o XX.

Minha nota para A Divina Sarah Bernhardt no Letterboxd: 3 estrelas.

Direção: Guillaume Nicloux

Roteiro: Guillaume Nicloux e Nathalie Nathalie Leuthreau

1h 38 min.

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