“Eu acho que tudo que é muito bonito é um pouco triste”
De formas distintas, três filmes brasileiros recentes trabalham figuras maternas que dividem os encargos do lar com as angústias de uma paisagem em transformação. Eunice Paiva (Fernanda Torres) de “Ainda Estou Aqui” tem cinco filhos e contas com o passado. Já Malu (Yara de Novaes) no filme homônimo se digladia com a filha e a mãe para se alienar do presente. E, por fim, Helena (Carolina Dieckmann) em “Pequenas Criaturas”, cuja estreia está marcada para o próximo 23, paralisa junto com os rebentos frente às promessas do futuro.
Três encenações que também trabalham – como espelho reverso – a ausência de maridos e pais. Seja por amputação, no primeiro caso, a formação de vínculos substitutivos, no segundo, e, a simples indiferença no terceiro. Além de sustentar a edificação, as mulheres precisam se reinventar a nível individual dispondo de pouca ou nenhuma voz sobre o futuro do país. É provável que a ocupação das milícias no Rio de Janeiro, a especulação imobiliária em São Paulo e o circo de horrores em Brasília reduza a resistência delas ao simbólico. Mas a subjetivação política dessas existências “funcionais” é um gesto relevante num país onde tantas mulheres são provedoras solo de suas famílias.
Pessoas e (não) lugares
A proposta conceitual de “Pequenas Criaturas” adquire contornos próprios por trabalhar mais o vagar das mudanças do que a sua rapidez. Alineados no cenário modernista de uma democracia recém-nascida, Helena (Dieckmann) e outros improdutivos – mulheres, estudantes de férias, idosos – vagueiam por um não-lugar enquanto decisões são tomadas fora dali. A construção imagética do condomínio – que dialoga com a despersonalização atual dos espaços onde se habita, porém nunca se mora – produz sufocamento a partir da amplidão, como uma paisagem depois de um fenômeno natural (ou sobrenatural). Se os personagens foram poupados, é mais terem sido esquecidos.
Spoilers abaixo!
Levando em conta a escalação de Dieckmann, intérprete de uma filha de Helena do novelista Manoel Carlos, é curiosa a decisão de não a caracterizar com as virtudes do nome. Na primeira de poucas tentativas de saída – não sabemos para onde nem porque – ela atropela um cachorro, símbolo máximo da inocência, na frente dos filhos. Imbuída da própria tristeza ao ponto de nem tentar se comunicar – ou saber o que os jovens aprontam no condomínio – Helena é uma personagem áspera. Se, em dado momento, a realizadora estetiza sua melancolia – nem Sofia Coppola filmou tanto tabagismo na janela – em outros, ela a entende como produto de seu tempo. A cena que ela fuma em cima da pizza dos filhos é brutal justamente por não partir de uma má intenção.
Uma vez estabelecida a tensão principal – os personagens se sentem presos, mas se recusam a enfrentar o externo – a obra oscila entre filmar a estagnação e padecer dela. Considerando que a divulgação reforça uma mensagem de formação vincular, é irônico que “Pequenas Criaturas” tenha seus melhores momentos na fervura do microcosmos. Uma arma, uma vizinha divorciada, um visitante charmoso e um idoso “amigo” das crianças flertam com a chance de uma ameaça interna. Por mais difundida que seja a ideia de que a classe média brasileira se encastela, mas não se livra dos demônios – mote da série “Os Outros” – é inegável que ela injeta pulsão numa projeção que se esgarça no segundo ato.
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Pequenas simplificações
É na ambiciosa desconstrução dessa expectativa que o filme encontra sua grande fragilidade. Numa obra que se ancora na repetição para caracterizar a espuma dos dias – a máscara, a bicicleta, o telescópio são explorados a exaustão – as resoluções se apressam, flertando com o simplismo. Os personagens de Sabatella e Eiras são apenas solitários, já os adolescentes usam da arma e logo sacam que precisam descartá-la. Por fim, Dieckmann encerra seus cuidados com o cachorro e, de quebra, forma e fortalece elos que passou o filme inteiro evitando. Mesmo os discos voadores trazem uma formulação chapa-branca de que é preciso acolher o novo e o outro antes de se debruçar sobre as grandes questões do futuro.
Sendo assim, “Pequenas Criaturas” tem uma observação menos pungente sobre o tempo do que “Ainda Estou Aqui” e “Malu”. Contudo, distanciando a obra dessa comparação não solicitada, vale reconhecê-la por sua caracterização do mal-estar da modernidade. Uma conjuntura onde o acesso a qualquer parte do mundo prende as pessoas em casa, as possibilidades de comunicação embarreiram até os que se amam, e, por fim, as eminências de colapso geram mais individualismo do que angústia compartilhada. “Se esse é o futuro, o futuro é uma merda” dispara um dos adolescentes, enquanto divaga sobre discos voadores e a frustração de nunca ter beijado na boca.
Veja o trailer de Pequenas Criaturas: