João Saldanha, conhecido como João Sem Medo, entrou para a história do futebol brasileiro não só por classificar a Seleção para a Copa do Mundo de 1970 de forma invicta, mas por ter enfrentado diretamente o regime militar nos anos de chumbo.
Jornalista, cronista esportivo, ex-técnico do Botafogo e militante político, Saldanha foi escolhido para comandar a Seleção Brasileira que se preparava para o Mundial do México. Inteligente e articulado, ele montou o time-base que mais tarde seria campeão com Zagallo.
No entanto, ao perceber que o presidente Emílio Garrastazu Médici queria usar a Seleção como propaganda do regime, Saldanha resistiu às interferências políticas. A crise se agravou quando o Planalto pressionou pela convocação do atacante Dário (Dadá Maravilha).
Diante da tentativa de intervenção, Saldanha respondeu com ironia afiada:
“Eu e o presidente, ou o presidente e eu, temos muita coisa em comum… Somos gaúchos, somos gremistas, gostamos de futebol… e nem eu escalo ministério, nem o presidente escala time. Você está vendo que nos entendemos muito bem.”
Poucas semanas depois dessa declaração, em 17 de março de 1970, João Saldanha foi afastado do comando da Seleção – a cerca de três meses do início da Copa. Apesar de ter feito todo o trabalho de classificação e preparação inicial, não participou do torneio.
O homem que nunca se calou
Mesmo fora da Seleção, Saldanha não se intimidou. Durante a Copa do Mundo no México, ele atuou como jornalista e levou documentos denunciando as violações de direitos humanos praticadas pela ditadura. Em entrevistas a veículos internacionais, como o jornal francês Le Monde, ele afirmou que havia no Brasil “cerca de três mil presos políticos, centenas de torturados e não sei quantos mortos”.
Sua coragem lhe rendeu o apelido João Sem Medo, dado por Nelson Rodrigues, e fez dele um dos maiores símbolos de resistência civil durante o período mais repressivo do regime militar.
Hoje, mais de 50 anos depois, a história de João Saldanha continua viva como exemplo de integridade: o homem que lembrou a todos que o futebol pertence ao povo – e não aos ditadores. ✊