Filmes têm mais chance de ter um homem chamado Chris ou um animal falante do que uma mulher com mais de 60 anos, revela estudo

Uma pesquisa feita pelo Center for Ageing Better revela uma descoberta absurda, mas chamativa, que expõe o apagamento sistêmico das mulheres mais velhas na sétima arte.

De acordo com a pesquisa, nos últimos três anos, Hollywood lançou mais filmes estrelados por atores chamados Chris, do que produções protagonizadas por mulheres com mais de 60 anos.

O que está em jogo aqui não é uma curiosidade divertida para happy hour. É um raio-X de como a sociedade encara, ou melhor, deixa de encarar as mulheres mais velhas.

A invisibilidade que começa na tela e termina na vida

A indústria cinematográfica nunca foi um modelo de diversidade, mas quando se trata de idade, o problema é ainda maior. A pesquisa escancara que mulheres com mais de 60 anos são sistematicamente excluídas de papéis principais. Enquanto isso, homens da mesma faixa etária — vide Liam Neeson, Robert De Niro e Anthony Hopkins — continuam a salvar o mundo, seduzir parceiras décadas mais jovens e estrelar franquias.

O recado implícito? O homem envelhecido é distinto, experiente, ainda potente. A mulher envelhecida é… descartável, invisível.

O termo em inglês “double whammy” resume bem: as mulheres mais velhas sofrem um golpe duplo — primeiro pelo gênero, depois pela idade. E quando a cultura pop, que molda imaginários e naturaliza preconceitos, simplesmente apaga essas mulheres, o estrago vai muito além das salas de cinema.

Oscar 2026: um termômetro gelado da representatividade

Se o estudo parece distante, olhemos para a última edição do Oscar. Das dez indicações somadas entre Melhor Ator e Melhor Atriz, apenas duas foram para artistas com mais de 50 anos, e ambas eram homens  — Ethan Hawke e Leonardo DiCaprio. Ou seja, nenhuma atriz acima dos 50 foi indicada na categoria principal.

Nas categorias coadjuvantes, o cenário é ligeiramente melhor: metade dos indicados tinha mais de 50 anos, mas apenas uma mulher, Amy Madigan, ganhadora do Oscar. A conclusão é amarga, pessoas mais velhas até aparecem, mas em papéis secundários. Mulheres mais velhas, mesmo ali, seguem escassas, e quando não são, só estão ali para perpetuar um estereótipo. 

O Center for Ageing Better convoca a indústria cinematográfica a ter uma melhor representação das mulheres mais velhas no cinema. Sugerindo cinco razões para a indústria reavaliar o comportamento:

1. O que não é visto não é valorizado

Quando a única imagem que se tem de uma mulher idosa é a da avó gagá, da bruxa caricata ou da figura decorativa em segundo plano, a sociedade aprende a reduzir essas mulheres a estereótipos. O preconceito etário não nasce do nada, ele é ensaiado, repetido e consolidado.

2. Representação afeta saúde mental e autoestima

Mulheres mais velhas relatam repetidamente a sensação de se tornarem invisíveis com o passar dos anos. E como não se sentir assim se os espelhos culturais simplesmente devolvem um vazio? Estudos mostram que a falta de representação positiva ou realista alimenta ansiedade em relação ao envelhecimento, baixa autoestima e até o abandono de atividades que seriam benéficas — tudo por internalizar a mensagem de que “já passou da hora”.

3. Público mais velho enche cinema e movimenta bilhões

No Reino Unido, pessoas com mais de 55 anos representam uma em cada cinco entradas de cinema. Elas movimentam centenas de milhões de libras. E ainda assim a indústria age como se esse público não quisesse ver rostos como os seus em cena.

A pesquisa é clara: uma em cada três pessoas acredita que há poucos filmes com protagonistas femininas acima dos 60. Entre as mulheres, esse índice sobe para 39%. O apetite existe. Falta visão dos estúdios.

4. Personagens mais velhos enriquecem a narrativa

Gente com 60, 70, 80 anos não é feita de uma nota só. São complexas, contraditórias, engraçadas, raivosas, ambiciosas, apaixonadas. Quando o cinema reduz essa faixa etária a clichês — ou a trata como coadjuvante decorativo —, empobrece a própria arte.

Pense em Evelyn Wang em Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (Michelle Yeoh, Oscar merecidíssimo). Ou Diana Nyad, nadadora de longa distância vivida por Annette Bening. Ou o que Meryl Streep promete fazer novamente com Miranda Priestly. Essas personagens funcionam porque são inteiras, não apesar da idade.

5. Emma Thompson tem a palavra final

Aos 64 anos, com mais de 100 papéis em quatro décadas, Dame Emma Thompson não está para brincadeira. Quando procurada sobre a pesquisa, disparou:

“Mulheres são metade da população e nós envelhecemos. Então, onde estão as histórias sobre nós? Quanto mais velhas ficamos, mais interessantes somos. Quero ver mais filmes centrados em mulheres envelhecendo. Somos atraentes, relacionáveis e estamos atrasadas para o centro do palco. Mulheres mais velhas não precisam de permissão para existir na tela. Já existimos no mundo. Basta o cinema colocar o papo em dia.”

Não dá pra discordar.

Cinema nacional: onde estão as protagonistas 50+? Dados e desabafos mostram um vácuo incômodo

Apesar de termos produções recentes como O Último Azul (205), Vitória (2025) e Velhos Bandidos (2026), temos que concordar que são exceções, e não regra. Não temos produções nacionais com protagonismos de pessoas mais velhas e com foco em narrativas femininas.

A atriz Claudia Raia, 59, em 2024 durante uma entrevista ao programa Mulheres Positivas, da Record News reclamou da ausência de mulheres acima dos 50 anos nos papéis de protagonismo nas produções. Na conversa, a artista citou o exemplo da atriz Jane Fonda, 88, que, assim como ela, precisou trabalhar também como produtora para garantir que seria escalada para personagens centrais.

“Mesmo com a carreira que construí, vejo como mulheres de 50 ou 60 anos desaparecem dos papéis de protagonismo. Onde estão as protagonistas 50+? Na TV internacional, há exemplos como Jane Fonda, que se tornou produtora para manter-se em destaque. E eu sempre fiz isso, sou produtora desde os 19 anos”, afirmou.

Em 2024 a Globo apresentou uma pesquisa sobre quem é o público conectado ao universo cinematográfico, na qual aponta que 55% do público são mulheres e 23% estão acima de 50 anos. Ou seja, temos um público expressivo que precisa de representatividade no cinema nacional.

O etarismo não fica no cinema – ele transborda. E está na hora de enfrentá-lo.

Os clichês repetidos ou a ausência de personagens mais velhos realistas e bem resolvidos não ficam nos filmes, se derramam na vida real e influenciam nas atitudes. É hora de mudar.

As mulheres mais velhas merecem ser vistas em protagonismos nas telas, e em maior número, refletindo o quanto estamos presentes na sociedade. E mais do que as pessoas chamadas Chris.

A boa notícia? O etarismo pode ser combatido. Quando questionamos o etarismo, desafiamos. E quanto mais a desafiamos, mais começamos a mudá-l0.

Center for Ageing Better

O Center for Ageing Better é um centro independente de excelência em envelhecimento e mudanças demográficas, que trabalha com governos, empresas e comunidades para melhorar a forma como vivemos o envelhecimento — combatendo o preconceito etário e a desigualdade.

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