Há uma expressão comum, quando falamos sobre poesia, que é o fazer poético: essa relação entre as palavras e o trabalho do poeta, cuja essência remete às origens gregas da palavra poesia. Poíesis significa produzir, fabricar, no sentido manufaturado da coisa, ou seja, fazer poesia vem exatamente da lida do poeta com a palavra ao transformá-la em arte, criando, assim, uma experiência estética através de ritmos e imagens.
Em “Pá-lavra”, reunião de poemas do poeta e professor de Filosofia Mathias de Alencar, publicada pela editora Mondru, o fazer poético consiste em jogar com referências poéticas e filosóficas, brincando e trazendo para o mundo contemporâneo a escrita poética sob os seus termos.
No título, em um uso bastante incomum da palavra “palavra”, Mathias desloca-a de paroxítona para proparoxítona, tira a palavra para ser uma palavra que não é: ela é paroxítona e, assim, ela vira duas coisas, pá e lavra, o terreno da escrita. Ou seja, ela é realmente uma construção, algo telúrico, aquilo que se torna relativo à terra. O poeta cavou a palavra em seus detalhes. São construções que se arranjam solitárias, mas que se juntam pelas rimas, uma vez que seus fins de verso são átonos.
Chico Buarque explora muito bem essa “Construção” em uma canção com exatamente esse título:
“Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido…”
O compositor faz um uso sistemático de paroxítonas como rima de final dos versos, construindo uma sequência de versos terminados nesse padrão, algo que não fica apenas no título do livro de Mathias e avança por alguns de seus poemas.
Indo para os poemas em si, logo no primeiro, um soneto que funciona como introdução e abertura do livro, o autor em um diálogo bem irônico direcionado “Ao leitor”, título do poema dá o tom que atravessará todos os demais:
“Você que caiu de paraquedas
como quem abre um livro e espera a sorte
não ter gastado em vão suas moedas
sugiro: não espere o que conforte.
Se ainda assim insiste em ter na mão
lê duas ou três folhas, já não gosta
devolve à prateleira, dou razão
mais vale o tiktok que essa bosta.
Ainda aqui? Já vi, devo-lhe um corte:
poema é artesanato, é construção
palavra não diz só amor e morte;
não diga não avisei minha proposta
se achar algo profundo qual os Vedas
vai ver é só impressão de dor nas costas.”
Além da ironia, reflexões contemporâneas, como o uso do tiktok, evidenciam a busca do autor por atualizar a escrita poética. Ao longo dos poemas, o autor recupera outras referências dos anos 90 e 2000, como o DJ David Guetta e o clássico filme norte-americano American Pie, sempre fazendo uso de uma ironia que beira o deboche.
Essas apropriações, partindo de tradições poéticas e filosóficas, são utilizadas por Mathias também para simular e prestar homenagens a autores que compuseram a sua formação como leitor e autor. No decorrer do livro, Mathias não se poupa de fagocitar essas formas para engendrá-las em sua escrita, sejam elas de autores clássicos, sejam elas de autores contemporâneos.
Em “Baladas Líquidas”, por exemplo, poema em seis partes, o poeta faz referência ao filósofo Zygmunt Bauman, conhecido pelo conceito da modernidade líquida, escreve sobre amores líquidos, aquelas relações passageiras que não deram certo.
“… te amei,mas foi antes
de quinta-feira, pois sexta
não visualizava as mensagens
ao celular, que em transe
tremia e tremia e tremia
e nada de ouvires o chamado
xamânico das fantasias
a que dei livre fluxo pelo pavor
de que tremesses em outro terreiro
sem endereço nem adereço.”
Já em conversa com Ferreira Gullar, no poema “Luta Corporal”, o autor elabora um texto que dialoga com “Poema Sujo” e que sintetiza tanto a obra que o poema de Mathias compõe quanto a arte da capa e contracapa de “Pá-lavra”. O texto de Ferreira Gullar começa assim:
“turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? Como pluma? Claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas”
Mathias segue uma linha, uma estrutura, parecida, tanto na rima quanto na escolha vocabular, além de também trazer o corpo e a efemeridade da vida para o centro do poema. Vejam:
“LUTA CORPORAL
a Ferreira Gullar
Madura palavra dura
bem mais do que afunda, fura
a dura seca vida
tanto pedra até que cura
fato de haver amargura
feito pedra, rachadura
dobra-se o torso da vida
aposta quem nunca dura.
Nessa clausura que seca
verso, se não mata, abunda
muda de lábios, ranhura
de solo, ao ouvir secura:
fome não cura, enrijece
a crua carne da vida.”
Friedrich Nietzsche é outro autor citado, não tão explicitamente, mas Mathias brinca com a expressão Ecce homo, que já havia sido referida de forma irônica pelo filósofo ao utilizá-la no título de seu livro: “Ecce homo: como alguém se torna o que é”, de 1888.
Nele, Nietzsche elabora uma espécie de autobiografia recheada de filosofia e crítica, inclusive aos ideais cristãos. “Ecce homo” significa “Eis o homem” em latim e teria sido a frase dita por Pôncio Pilatos ao mostrar Jesus ao povo antes da crucificação. Mathias, então, faz uma versão que trabalha ao mesmo tempo essa apresentação de Jesus e a autobiografia. Reproduzo parte do poema abaixo:
“ECCE HOMO
I
Se tu és numinoso
eu sou numeroso, vario desde os púberes gemidos
à flor da pele, daquela pele terna sabor de pêssego
sempre disposta a tornar agradável
qualquer ar rarefeito à Ceia de Natal. Ou, antes
[reascendendo à inveja
dos olhares foscos, só ante[s]vistos por
[retinas acostumadas
às cenas cruéis de uma alma dilacerada
[entre agora e nunca.”
E entre sonetos, poesia livre e concreta, a diversidade de estilos e formas também é uma das marcas dessa reunião de poemas, seguimos por esse mar de referências, nessa história pessoal do autor com a filosofia e a poesia.
T.S.Eliot e William Blake são outros nomes canônicos que aparecem, mas também há dedicatórias ao pai, talvez a única realmente íntima, e a nomes tradicionais da literatura brasileira como Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, mas ao invés de ir para Pasárgada, Mathias vai para o Jalapão.
“VOU-ME EMBORA
a Manuel Bandeira
Vou-me embora daqui
talvez para o Jalapão
lá a terra tem cheiro de chuva
e as pessoas são menos secas quando há pessoas
os abraços duram, os olhares duram
porque são rio, não pedra; porque riso, sem deboche
e as primaveras realmente afloram em cada canto
a saudade de quem precisa viver sem chorar
o todo tempo.”
Nomes contemporâneos também são citados, como o poeta paraibano Sérgio de Castro Pinto, Paulo Henriques Britto, Geraldo Carneiro e Aline Bei.
Falando em tradição, um dos poemas, “Antropofágicos”, carrega no título algo que perpassa toda a obra. Mathias faz ao longo do livro exatamente essa antropofagia ao devorar as referências e deglutí-las em algo novo, irônico, debochado e provocativo, honrando também as escolas de Gregório de Matos e Machado de Assis.
Não há uma tentativa de negar essa tradição e muito menos quebrá-la, mas sim uma integração do autor ao cânone ao qual pretende pertencer, um legado do fazer poético latino-americano, brasileiro, feito através da pá-lavra, escavada em solo pessoal e nacional, fazendo jus ao título do seu livro, alguém que quer mesmo chafurdar na própria história da literatura, conhecer e reconhecê-la através da palavra.
Ao fim, percebo o livro de Mathias de Alencar como uma homenagem aos que vieram antes, aos que compartilham o ofício e aqueles que virão.
Sobre o autor:
Mathias de Alencar é poeta e professor de Filosofia. Carioca radicado às margens do Amazonas, é autor de três livros de poesia (Ninguém há de doar-se a dois amores ou Julieta, 2023; Poem(a)limpo, 2014/2024; Pá-Lavra, 2025), de uma tradução de poemas de T. S. Eliot (Dois poemas, 2025) e de um romance (Bárbara, 2015/2025), além de outros dois livros na área de Filosofia. Escreve mensalmente para o Substack e para a Revista O Zezeu.