7 séries espanholas para conhecer a história da Espanha

Há uma tendência, quando o assunto é série europeia de qualidade, de olhar imediatamente para o norte — para a Escandinávia, para o Reino Unido, para a produção alemã que ganhou visibilidade internacional com Dark. A Espanha, nesse contexto, costuma aparecer representada por La Casa de Papel e por romances novelescas e melodramáticas. É uma injustiça considerável, e uma que esta lista pretende, ao menos em parte, corrigir.

A Espanha tem uma das histórias mais cinematograficamente ricas da Europa — séculos de convivência e conflito entre cristãos, judeus e mouros, impérios que se construíram e desmoronaram, rainhas que unificaram nações e inquisições que as aterrorizaram, exploradores que circunavegaram o globo e conquistadores que destruíram civilizações inteiras —, e tem produzido, especialmente na última década, séries históricas que tratam esse material com a ambição e o rigor que ele merece. As sete séries que se seguem são um convite a entrar nesse mundo; todas estão disponíveis em plataformas de streaming, todas têm legendas em português, e nenhuma delas exige conhecimento prévio de história espanhola para funcionar — embora seja provável que, ao terminar qualquer uma delas, o espectador queira saber consideravelmente mais.

La Catedral del Mar (2018)

Baseada no romance homônimo de Ildefonso Falcones — um dos maiores sucessos editoriais espanhóis dos anos 2000 —, esta minissérie em oito episódios acompanha Arnau Estanyol, filho de um servo fugitivo que nasce livre em Barcelona e sobe lentamente na hierarquia social da cidade ao longo do século XIV, de bastaixo que carregava pedras para a construção da Basílica de Santa Maria del Mar a cambista respeitado, enquanto navega pelas traições da nobreza, a violência da Inquisição e as epidemias que dizimaram a Europa medieval.

É uma série de escala épica com um coração essencialmente humano — a ascensão de Arnau não é contada como um conto de triunfo individual, mas como uma história sobre o preço que a dignidade cobra de quem nasce sem ela, e sobre o quanto uma cidade inteira pode tornar-se personagem numa narrativa; a Basílica de Santa Maria del Mar, que o povo de Barcelona construiu com as próprias mãos, funciona ao longo de toda a série como símbolo de uma identidade coletiva que nenhuma nobreza corrupta consegue inteiramente destruir. A produção é ambiciosa e visualmente cuidadosa, e a atuação de Aitor Luna no papel principal sustenta o peso de uma história que exige presença constante.

Herederos de la Tierra (2022)

Sequência direta de La Catedral del Mar, também baseada em Falcones, Herederos de la Tierra acompanha Hugo Llor, um jovem da Barcelona do século XIV que cresce à sombra da família Estanyol e se vê arrastado para as guerras de poder, traições e vinganças que definem a política catalã da época — com particular atenção às disputas comerciais no Mediterrâneo, às tensões entre cristãos, judeus e mouros numa cidade em transformação, e à ascensão de uma nova geração de personagens tão complexos moralmente quanto os da série anterior.

Apesar de ser, talvez, inferior à sua predecessora – como com frequência acontece -, funciona bem como continuação, mas tem vida própria o suficiente para ser assistida de forma independente, e tem a vantagem de ser mais ágil narrativamente do que a primeira série — os roteiristas claramente aprenderam com o ritmo do projeto anterior e distribuem as revelações com mais precisão. Para quem chegou a amar Barcelona como cenário histórico em La Catedral del Mar, é essencialmente um convite a continuar vivendo naquele mundo por mais oito episódios.

Sin Límites (2022)

Produzida pelo Amazon Prime Video em parceria com a RTVE e dirigida pelo britânico Simon West, esta minissérie em seis episódios conta a história da primeira circunavegação do globo — 239 marinheiros que partiram de Sevilha em agosto de 1519 sob o comando do português Fernão de Magalhães, e dos 18 que voltaram três anos depois, esqueléticos e doentes, liderados pelo basco Juan Sebastián Elcano.

A série tem o mérito considerável de tratar com seriedade um episódio que a história escolar costuma resumir em meia página. A tensão entre Magalhães e Elcano, interpretados respectivamente por Rodrigo Santoro e Álvaro Morte, é o motor dramático central, e os dois atores sustentam com consistência uma dinâmica que é simultaneamente uma disputa de poder e uma história de respeito relutante entre dois homens convictos de que o outro está errado sobre quase tudo; o orçamento de vinte milhões de euros é visível em cada cena no mar, e as locações entre o País Basco, Navarra e a República Dominicana dão ao projeto uma escala visual raramente vista em produções televisivas espanholas.

Isabel (2012–2014)

Uma das melhores séries históricas já produzidas na Espanha — e uma das mais injustamente pouco conhecidas fora dela —, Isabel acompanha a vida de Isabel I de Castela desde a sua infância na corte até à consolidação do que viria a ser o império espanhol, passando pela Guerra de Sucessão Castelhana, o casamento com Fernando de Aragão e a unificação dos reinos ibéricos.

O que distingue a série da maioria das produções históricas do gênero é a recusa em simplificar a protagonista: a Isabel de Michelle Jenner é inteligente, pragmática, genuinamente religiosa e capaz de uma crueldade fria quando considera que o poder ou a fé o exigem — uma mulher que foi simultaneamente uma das governantes mais eficazes da Europa do século XV e a patrocinadora da Inquisição espanhola, e que a série não tem nenhuma pressa em absolver. As três temporadas constroem um retrato de uma época e de uma corte com uma densidade e uma consistência que poucas séries históricas de qualquer país conseguem sustentar por tanto tempo.

Hernán (2019)

Minissérie em seis episódios que reconstrói a conquista do Império Asteca por Hernán Cortés, Hernán tem a ambição — e a coragem — de contar a história a partir de múltiplas perspectivas simultaneamente: a dos conquistadores espanhóis, a dos aztecas de Tenochtitlán, e a das tribos aliadas que viram em Cortés uma oportunidade para se libertar do domínio de Montezuma.

O resultado é uma série que recusa o esquema simples de heróis e vilões que o material poderia facilmente ter produzido, e que trata a queda de um dos maiores impérios pré-colombianos com a seriedade histórica e moral que o assunto exige — incluindo uma representação de Montezuma que lhe devolve a dimensão política e estratégica que as narrativas europeias da conquista sistematicamente apagaram. Destaque especial deve ser dado para a figura de La Malinche, hoje vista como símbolo da traição nacional no México, que é aqui apresentada sob uma luz mais positiva, ambígua e, podemos dizer, justa.

É uma coprodução de sete países e foi rodada no México, com um elenco misto de atores espanhóis e latinoamericanos que dá à série uma autenticidade geográfica e linguística que produções anteriores sobre o mesmo tema raramente tiveram a disposição de buscar.

El Cid (2020–2021)

Produzida pelo Amazon Prime Video em duas temporadas de cinco episódios cada, El Cid conta a origem da lenda — não o herói consagrado da épica medieval espanhola, mas Ruy Díaz de Vivar antes de se tornar quem a história registrou, um jovem pajem da corte de Fernando I de Castela que navega as conspirações, traições e guerras de sucessão que agitaram a Península Ibérica do século XI, enquanto aprende que num mundo dividido entre reinos cristãos em conflito permanente e taifas muçulmanas igualmente fragmentadas, a lealdade é sempre uma questão mais complicada do que parece.

Jaime Lorente, conhecido internacionalmente pelo papel de Denver em La Casa de Papel, carrega a série com uma presença física convincente e uma contenção emocional que serve bem ao personagem — Ruy é mostrado como alguém que aprende mais do que declama, que observa mais do que age, e que a série tem a paciência de deixar amadurecer ao longo dos episódios em vez de entregá-lo pronto. Outro destaque de atuação vai para Alicia Sanz, excelente na interpretação mais humana já feita da princesa Urraca.

Um dos pontos mais interessantes da produção é a recusa em tratar o confronto entre cristãos e mouros como uma guerra de civilizações com lados claramente definidos — as alianças atravessam fronteiras religiosas com uma fluidez que é historicamente mais honesta do que a maior parte das representações medievais no cinema e na televisão, e que dá à série uma dimensão política mais rica do que o formato de aventura épica poderia sugerir.

Marrocos — Tempos de Guerra (2017)

Ambientada em 1921, na cidade espanhola de Melilla, encravada no norte de África, esta série de treze episódios acompanha um grupo de jovens enfermeiras voluntárias da alta sociedade de Madri que são enviadas pela Rainha Victoria Eugenia para abrir um hospital da Cruz Vermelha durante a Guerra do Rife — o conflito em que o exército espanhol tentava manter o controle do seu protetorado marroquino contra a resistência das tribos rifenhas, e que culminaria, em 1921, na Batalha de Annual, uma das maiores derrotas militares da história espanhola moderna.

A série foi criada pelos mesmos roteiristas responsáveis por Velvet e Gran Hotel, e carrega algumas das marcas do gênero — o romance, as rivalidades, as distinções de classe que o front nivela de maneiras inesperadas —, mas tem a inteligência de usá-las como veículo para algo mais denso: um retrato de mulheres que chegam à guerra como figuras decorativas e descobrem, num ambiente que não foi concebido para recebê-las, que têm mais capacidade, coragem e determinação do que o mundo que deixaram para trás jamais precisou delas para demonstrar. Amaia Salamanca como Julia, a protagonista, e Alicia Borrachero como a Duquesa Carmen de Angoloti — personagem histórica real, inspetora-geral dos hospitais espanhóis no protetorado — sustentam uma série que equilibra com razoável habilidade o melodrama de época e a seriedade histórica, e que tem o mérito adicional de iluminar um episódio da história espanhola que raramente encontra espaço na ficção.

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