Romance de estreia da escritora paulista Verônica Coral Venâncio, Os jardins (Kotter Editorial/selo Goyazes, 2026) – que também é o primeiro livro de uma trilogia que se completa com O espelho e A floresta – traz a instigante e dolorosa jornada de Mia Duram. A protagonista é uma mulher que, após sofrer um acidente de carro gravíssimo, perde grande parte de sua memória e vê sua vida se transformar por completo, mergulhando de cabeça em um denso e claustrofóbico thriller psicológico, onde a própria mente se torna um labirinto.
Casada e em um relacionamento abusivo, Mia vai se aproximando, aos poucos, do introspectivo paisagista Maicon Germano, que a conhece desde a infância, embora ela não se recorde. Além do relacionamento, temática central do romance, a personagem passa por outras intempéries, como o roubo de um filho, uma série de traições familiares e, até mesmo, a separação do ex-marido. Trata-se de uma história onde a personagem vive eternamente em desconfiança, tanto por não se lembrar das coisas, quanto por desconfiar de todos à sua volta.
A obra segue uma linha narrativa pouco convencional, não linear, alternando tempos narrativos (infância, adolescência, vida adulta) e espaços geográficos (Brasil, França, Espanha). A fragmentação da narrativa segue a nebulosidade da memória de Mia, ainda que o romance, em sua maior parte, não seja escrito em primeira pessoa. Assim, o leitor acaba criando intimidade com a mente da personagem, compreendendo seus processos e sua recuperação. Isto se observa no trecho abaixo:
“Do passado vivido, nem fragmentos sobraram.
Com isso não lhe restou outra saída, a não ser submeter-se a uma rotina regrada. Corria todos os dias. Enfrentava o silêncio, a disciplina e a leitura, não de romances românticos, porque lhe causava náuseas; para Mia, essas paixões significavam uma decadência ridícula, a qual não se lembrava e era cobrada por sentir. Não havia mais tempo para que sua mente lhe pregasse armadilhas. A depressão, outrora tão familiar, não teria espaço ali. Decidiu. Sem as memórias, não havia lar, não havia mulher de alguém, não havia luta, amor, rotina… marido… não havia nada.
A contemplação lhe trouxe uma ilusão de cura. O buraco negro orbitava ao seu redor com suas garras escuras.” (p. 6)
Esse processo fragmentado é reforçado pelo uso constante de reticências ao longo de todo o texto. No trecho, elas dão a nítida impressão de que há lapsos recorrentes na história, condizentes não apenas com o estado cognitivo de Mia, mas com as múltiplas pesadas situações emocionais que acaba vivendo. Desta forma, Os jardins propõe uma imersão não apenas pela densidade do conteúdo da história, como se vê em um trecho de seu diário, no capítulo VII – a França:
“Eu estava viciada em fazer limpeza e tampar o buraco da mente com os trabalhos domésticos… porque pensar ou escrever… ou ler… ou ver um filme… ou dirigir… ou correr… ou viajar… me dava crises de pânico nos mesmos horários e eu estava cansada de as ter comigo… de ter esse cansaço… viver era um fardo… sofrer era um fardo… respirar era difícil… comer, tomar banho… tudo automático, quase inútil a meus olhos. Me arrastava pela casa nas horas que escorriam pelo chão… feito uma lesma sem destino.” (p. 24)
Outro aspecto interessante de Os jardins é a forma como os diferentes espaços habitados pela personagem são nomeados: na França, Mia vive o Inferno do casamento violento com Henrique; na Espanha, ela passa um período no Purgatório, isto é, o mosteiro de Armenteira, onde tem de lidar com traumas profundos, depressão e a escuridão da sua própria mente; no Brasil, ela busca construir o seu Paraíso. Esta estrutura é uma referência à obra A Divina Comédia, de Dante Alighieri, que também aparece no livro a partir de citações diretas de trechos, como no capítulo XIV, que cita o Canto I do Inferno de Dante:
“No meio do caminho da minha vida
Por muito errar, entrei numa selva escura
E o rumo certo ficou para trás, perdido.
Ah! Como é difícil descrever como era
Aquela floresta selvagem, densa e terrível.
Apenas pela lembrança, meu medo se renova.” (p. 69)
Os jardins tem uma escrita que, embora fragmentada, narra, em detalhe, a jornada de Mia. Coral descreve, de forma minuciosa, cada acontecimento da vida da protagonista – incluindo também trechos de diários e cartas – o que confere uma qualidade quase cinematográfica à obra:
“’Decidi ir caminhando para a loja de flores e, chegando na porta, um quadrinho me chamou a atenção. Era a foto do Rio de Janeiro, pintada… era o Brasil. Quis chorar, mas decidi engolir porque senão desabaria.
Eu paguei a floricultura e saí dali animada. Decidi fazer minha caminhada pela estrada. Já estava escurecendo e o silêncio da noite me agradava. Prestei atenção no céu… estava muito estrelado e sem luar… olhei… olhei… olhei… Respirei… respirei… respirei. Mas ela estava ali, não era outra crise, era a saudade, e gritava junto com os pequenos brilhos no céu, cintilados pelas cores da Via Láctea. Me senti tão pequena, tão sozinha, tão triste e eu não queria chorar e tampouco admitir que era preciso chorar” (p. 24)
Além disso, o livro é repleto de referências musicais que dão o tom de cada momento (desde As Quatro Estações de Vivaldi e Moonlight de Beethoven, até bandas como Pink Floyd, Linkin Park e Cartola). Isto se vê principalmente em momentos de maior emoção, gerando um impacto maior. A trilha sonora, portanto, é adequada aos momentos da obra, como, por exemplo, no capítulo IV, em que é citada a música “Preciso Me Encontrar” de Cartola, cuja melodia ambienta a atmosfera de caos urbano de São Paulo e o misto de melancolia e aceitação do retorno de Mia à vida real no Brasil.
Leia também: “O impraticável amor dos anos vinte”, de Lívia Quintanilha, e as formas de se relacionar na atualidade
Ainda no que diz respeito à relação de Os jardins com outras artes, a autora, Verônica Coral Venâncio, em um dos vídeos de divulgação da obra, afirma que o romance e seu universo guardam semelhanças com a série Dark (2017), principalmente pelos elementos como a distorção temporal, em que o fim é o começo e a narrativa é contada de forma estilhaçada.
A partir dessa intrincada construção temática, estrutural e sonora, a autora ambienta o leitor com maestria em cada instante da história, provando que, o que parecia ser um simples drama romântico nas primeiras páginas, torna-se rapidamente uma narrativa intensa, sombria e absurdamente envolvente, povoada por personagens ambíguos e complexos. Em suma, trata-se de uma história labiríntica, que se desenvolve de forma densa e profunda, exigindo reflexão, e que sem dúvida alguma merece ser lida aos poucos, com paciência e total atenção aos detalhes.
Verônica Coral Venâncio é formada em Letras, português e inglês, pedagogia e tem especialização em educação especial. Atua na Secretaria de Educação do estado de São Paulo como professora na área de linguagens, na escola de Período de Ensino Integral, Lauro Barreira, situada em Santa Cruz das Palmeiras.
*Laura Redfern Navarro (2000) nasceu em São Paulo. É poeta, jornalista e pesquisadora. Graduada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, é mestranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, onde estuda as intersecções entre a linguagem poética e o fenômeno dos espaços liminares.