Na manhã do dia 19 de abril, Masa Hathaleen, de cinco anos, parou diante de um arame farpado e pediu, numa voz pequena e trêmula, que abrissem o caminho. “Eu sou Masa. Por favor, abram a estrada para a gente. Queremos ir para a escola. Não estamos fazendo nada de errado. Só temos nossos livros. Amamos nossa escola.” Do outro lado da cerca, soldados israelenses assistiam em silêncio.
Masa é uma das dezenas de crianças da comunidade beduína de Umm al-Khair, na Cisjordânia ocupada, que chegaram ao fim de um cessar-fogo de mais de quarenta dias esperando voltar às aulas — e encontraram o caminho que usam há décadas para chegar à escola bloqueado por uma cerca de arame farpado erguida por colonos israelenses durante a madrugada, capturada em imagens de câmeras de segurança da comunidade. A escola fica a cerca de um quilômetro da aldeia. A rota está registrada tanto nos mapas da Administração Civil israelense quanto nos mapas palestinos como caminho pedestre designado para estudantes desde 1980. Isso não impediu que os colonos a bloqueassem, nem que o exército israelense se recusasse a remover a barreira.
Forças israelenses bloqueiam acesso de crianças à escola com violência
Quando, na semana anterior, as crianças tentaram contornar a cerca, soldados israelenses responderam com gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral contra crianças de cinco anos de idade. “Foi uma situação muito violenta”, disse Khalil Hathaleen, chefe do conselho da aldeia, cujos próprios filhos estão entre os afetados. “Até agora, algumas crianças não voltaram ao local por causa do medo. Elas não conseguem dormir.”
Ao todo, pelo menos 55 crianças foram impedidas de ir à escola por mais de cinquenta dias — primeiro pelo fechamento de todas as escolas palestinas na região durante a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, e depois, quando o cessar-fogo permitiu a reabertura, pela cerca que apareceu durante a noite. Quando as escolas reabririam, já era apenas três dias por semana — resultado dos cortes no orçamento da Autoridade Palestina após Israel reter receitas fiscais da Cisjordânia. “A educação na Palestina se tornou basicamente nada”, disse Hanady Hathaleen, moradora da aldeia e mãe de uma das estudantes.
Escola da Liberdade
A comunidade respondeu com o que chamou de “Escola da Liberdade de Umm al-Khair”. Na manhã do domingo, às 7h, pais, professores e moradores marcharam ao lado das crianças em direção à cerca. Os alunos carregavam cartazes, batiam em tambores e cantavam músicas em inglês para os soldados do outro lado: “Abram a estrada!” Por horas, as crianças se sentaram sobre pedras ao lado do arame farpado e abriram seus livros, fazendo as tarefas de que foram privadas por mais de cinquenta dias. Professores ensinaram ao ar livre, com o arame e os soldados como pano de fundo.
Do outro lado da cerca, soldados israelenses assistiam — alguns, segundo testemunhas, acenando de forma zombeteira e imitando as músicas das crianças ao lado de um guarda de segurança do assentamento ilegal israelense de Carmel, que os moradores apontam como responsável pela instalação da barreira. Uma estrela de Davi foi construída com pedras pelos colonos no lado da cerca que as crianças não podem mais acessar.
Uma rota alternativa?
Israel ofereceu uma rota alternativa, de aproximadamente três quilômetros, que os moradores rejeitaram unanimemente: o trajeto obrigaria as crianças a passar por novos postos avançados de colonos instalados nas proximidades da comunidade desde o verão passado. É o mesmo trecho onde, em julho de 2025, Awdah Hathaleen foi assassinado a tiros por Yinon Levy, colono com sanções internacionais que havia sido filmado durante o crime e mesmo assim continuou retornando à aldeia para concluir o trabalho de desocupação de terras que preparava a chegada das caravanas de colonos. Levy foi preso e indiciado pelo assassinato. As caravanas ficaram.
Desde então, os riscos na área só cresceram. Colonos espalharam tábuas com pregos na beira das estradas, danificando carros. Veículos de colonos — às vezes dirigidos por adolescentes em alta velocidade — circulam de forma imprevisível pela região. No mês passado, a menina Siwar Hathaleen, de cinco anos, foi atropelada por um carro de colono ao atravessar Umm al-Khair. Ela sobreviveu, mas precisou ser internada com traumatismo craniano. “Não posso colocar uma criança de seis anos para caminhar perto das caravanas”, disse Eid Hathaleen, pai de três filhos em idade escolar. “Colonos dirigem em alta velocidade, dirigem ATVs sem controle, alguns sem habilitação. Não vou colocar nenhuma criança em risco passando por ali porque é perigoso.”
A cerca não foi construída com autorização legal. Ainda assim, as autoridades israelenses se recusam a removê-la — numa assimetria que define a lógica do controle colonial na região: casas palestinas construídas sem licença, licenças que na prática nunca são concedidas a palestinos na Área C da Cisjordânia, enfrentam demolição imediata. Uma cerca de colonos construída ilegalmente em terra palestina privada não enfrenta nada. Umm al-Khair, aliás, está sob ordens de demolição israelenses que cobrem quase toda a aldeia, previstas para este mês.
“Somos crianças como as crianças do resto do mundo”
“Somos crianças como as crianças do resto do mundo. Elas vão para a escola, e nós não. Por quê?”, perguntou Mira Hathaleen, de dez anos, filha de Khalil, no protesto de domingo. Mira quer ser médica. Sara Hathaleen, de treze anos, começou a tremer quando os soldados se aproximaram durante o protesto — mas se recompôs. “É um desafio vir aqui porque temos que vencer o medo só para ir até nossa escola”, disse ela, enxugando as lágrimas. Sara quer ser advogada um dia, para defender a causa palestina e especificamente a causa de Umm al-Khair.
O bloqueio de Umm al-Khair não é um episódio isolado. Segundo a organização Save the Children, que acompanha o caso, o padrão se insere num contexto mais amplo de ataque sistemático à educação palestina na Cisjordânia, em Gaza e em Jerusalém Oriental — com 84 escolas na Cisjordânia sob ordens de demolição desde junho de 2025, ataques de colonos, invasões militares e restrições de movimento que impedem tanto alunos quanto professores de chegar às salas de aula. O professor Tareq Hathaleen, que leciona do quarto ao oitavo ano na escola bloqueada, resumiu a situação de maneira direta: “Educação é um direito para todos, incluindo as crianças de Umm al-Khair. Não é certo bloquear a estrada delas.”
Na manhã seguinte ao protesto de domingo, as crianças voltaram à cerca. Com planos de continuar sua peregrinação diária.
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Baseado em reportagem do Al Jazeera