É invertendo o ponto de vista de sua própria experiência ao receber e acompanhar o diagnóstico do avô com o mal de Parkinson que a escritora Ana Victoria Almeida subverte o drama iminente para uma história deliciosamente agridoce em “Me abrace antes da queda”, publicado pela Editora Oficina Raquel.
Neste romance curto, é a própria doença que narra sua chegada entre um casal amoroso e seu modo degenerativo de agir. É pela perspectiva da doença que conhecemos a história desse casal e de sua neta que precisam lidar com a progressão de um distúrbio neurodegenerativo em suas vidas. Com sua presença transformando quedas, tremores e limitações em realidade, as relações precisam mudar. E o próprio Parkinson vai descobrir que não está imune aos afetos humanos dessa família.
Não posso chegar assim. Não posso. De jeito nenhum. Seria falta de educação. Seria muito prepotente e narcísico da minha parte adentrar em uma relação a dois desse jeito. Do nada. Pá. Tiro, porrada e bomba. O pior é que não tenho escolha. Eu vou ter que entrar. Só não sei se bato na porta antes. Solto uns sussurros. Será que eu dou aqueles sinais que muitas pessoas chamam de sinal de deus? Ao longo dos anos, aperfeiçoei meu trabalho. Antes de me acoplar a qualquer corpo, eu o observo de longe. Nesse caso, já havia me dedicado ao estado de observação por algumas semanas.
Mirtes e Zé vivem uma plácida velhice a dois, quando um visitante inesperado chega às suas vidas mudando tudo e se colocando entre eles menos como um muro e mais como uma substância. Neste livro inspirado em uma família como tantas outras no mundo, acompanhamos um personagem inédito e singular. É o Parkinson que narra e conduz a história de sua própria chegada e descobertas na vida deste casal e de sua neta bailarina.
Uma doença cheia de alma e personalidade encara sua vocação, estigmas e talentos com humor e sensibilidade.
Expresso por um ritmo ágil e doce, o romance de estreia de Ana Victoria Almeida imagina um drama familiar de ponta a cabeça, onde acompanhamos avós, filhos e neta não só a partir do impacto de um diagnóstico difícil, mas também pela própria marcha de transformações da vida.
Nosso protagonista se implica e se afeta, numa bela metáfora de que a evolução de uma doença não se restringe à progressão de sintomas, e sim aos vínculos que ela ressalta em nossa natureza mais humana. Resiliência, coragem, memória e amor. Seríamos o quê sem eles?
Sem um contorno antropomórfico, o narrador se ocupa da liberdade de ser quem se é, olhando para as situações que provoca,e em que é provocado, com transparência, humor e desfaçatez.
Sobre a autora:
Ana Victoria Almeida é escritora, roteirista e pesquisadora de conteúdo. Em 2024, lançou seu primeiro livro de poesia, “Lascas” (7Letras). Participou do desenvolvimento de diversos programas de TV como “Os Homens são de Marte” (GNT), “Quintal TV” (Futura), “Prazer, Luísa” (Multishow), “Que Marravilha!” (GNT), “Quem Salva Quem” (GNT e Globoplay), “Deixa Ela” (GNT, Globoplay e SporTV), a audiosérie “Clube das Impostoras” (Audible Br.) e o videocast “Muito além do esporte”. Já fez pesquisas de conteúdo para Ana Abreu, Susana Garcia, Mônica Martelli e Paulo Gustavo. No cinema, é roteirista do documentário “Todas as vidas de Ruy Castro”, em produção. Em 2026, participa da sala de roteiro da cinebiografia de Nelson Motta, inspirada em seu livro “De Cu pra Lua”. “Me abrace antes da queda” é seu 1º romance.