Quando estamos próximos de pegar no sono, o pensamento linear começa a se dissolver em impressões sensoriais aleatórias e surgem flashes de cores, formas geométricas e fragmentos de conversas sem muito sentido. Dessa sopa de cenas hipnagógicas, Laura Redfern Navarro cria poemas que ora parecem sonhos estranhos, ora refletem angústias comuns, como o medo do fracasso e a quase vã tentativa de compreender o amor e escrevê-lo.
“Um sonho lúcido” de Laura Redfern Navarro é uma obra que desloca o leitor para um espaço-tempo entre o sono e a vigília. O material poético da poeta é aquilo que é conhecido e ao mesmo tempo desconhecido e fica no limiar entre a consciência, a inconsciência e o nada. Acompanhar seus versos é experimentar tomar conhecimento daquilo que acontece todo dia quando a gente fecha os olhos e perde o controle.
Existe no texto uma disputa entre lucidez e delírio que evoca a sensação de sonhar, perceber que está sonhando e, por isso, tentar controlar para onde o sonho vai, sabendo que você provavelmente não vai conseguir tomar suas rédeas. Escrever poemas para Laura me parece uma tentativa de alcançar esse lugar-momento e optar por simplesmente captar esse caudal de imagens e sons sem controlar nada. Mas essa torrente, apesar de significar um universo inteiro no momento do sonho, é breve, apenas um lapso de um corpo-mente que busca descansar. Logo, “Um sonho lúcido” como projeto também precisa parecer fugaz, meio transitório, passível de ser lido numa sentada rápida e, por isso, tem como suporte o formato plaquete.
É um exercício de imaginação individual e, ao mesmo tempo, coletivo. Não tem mais ninguém ali, além daquilo que compõe o eu-lírico, e, talvez justamente por isso, é perceptível que naquele espaço cabe um mundo inteiro. Há no texto um desejo de fuga, mas também uma vontade de continuar ali, desbravando o que está oculto pela consciência no dia a dia.
Repleto de símbolos, como espelhos e relógios que não marcam o tempo, “Um sonho lúcido” nos propõe uma viagem a um mundo interior composto por EVA, gramas pegajosas, cadernos, uma máquina Olivetti caríssima e linguagem, enquanto nos lembra a sensação de queda que acomete todo o corpo cansado quando ele finalmente consegue cair
…no sono.
Thaís Campolina (Divinópolis/MG) é escritora, poeta e mediadora de leitura nos clubes Cidade Solitária, Leia Mulheres Divinópolis e Casa das Poetas. Publicou os livros de poesia “eu investigo qualquer coisa sem registro” (um dos vencedores do Prêmio Poesia InCrível de 2021, organizado pela Crivo Editorial) e “estado febril” (Macabéa, 2024), além de plaquetes e zines. Em 2026, seu livro “enxame” será lançado pela Editora Orlando.