“No Limiar do Horizonte”: a força da voz coletiva feminina que engole as narrativas patriarcais

Num mundo que insiste em nos conectar por telas, eu me sinto sozinho. Sinto falta da discussão ao vivo, do papel rabiscado na mesa do bar, da coletividade que não precisa de like. Foi com essa ausência no peito que entrei no teatro.

Lá dentro, papéis amassados cobrem o chão. Três jovens mulheres os pisam, mas não os ignoram. Aqueles papéis são histórias: Nannerl Mozart, que compunha nas sombras do irmão; Nísia Floresta, escrita para fora dos livros didáticos; Eva, que mordeu o fruto e paga a conta até hoje. Todas esperam. Dessa vez, querem narrar a si mesmas.

No Limiar do Horizonte não tem pressa de concluir cada biografia. A dramaturgia de Mário Goes a atravessa como um rio que não respeita margens – afinal, o silenciamento feminino também nunca foi um ato único, mas uma corrente de séculos. As três atrizes – Priscilla Lopo, Stephani Ferreira e Taís Moreira – formam um jovem coletivo que entrega ao público uma chave: a de calar ou deixar falar.

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O elenco, confesso, estreia tímido. Há momentos em que a força do texto fica órfã de corpo, como se as atrizes ainda não tivessem feito a travessia completa para dentro das personagens. Mas a timidez na estreia tem remédio. A coletividade. Quando elas se juntam – nos olhares, nos silêncios compartilhados, na respiração que acelera junto com o desenho cênico de Natália Quadros – ali o espetáculo cresce. A diretora usa o som e a luz como uma pinça: aperta nos momentos de angústia, alivia quando elas se encontram.

Descobrimos, então, que Nannerl Mozart era tão grande quanto o irmão – só que a história preferiu um só gênio por família. Que Nísia Floresta foi pioneira do feminismo brasileiro, mas os livros didáticos demoraram a convidá-la para a festa. Que Eva, coitada, virou bode expiatório da curiosidade feminina. O espetáculo não prega; ele mostra o papel amassado e pergunta: quem amassou?

No fim, as três mulheres juntam os papéis do chão. Não os rasgam. Guardam. Saio do teatro menos sozinho – não porque o espetáculo resolve o silêncio de séculos, mas porque, por uma hora, aquelas vozes foram mais altas que a chave na fechadura.

A Cia. Morangos Mofados chega ao circuito paulistano com identidade de quem sabe a pesquisa que quer fazer. E essa pesquisa, agora, tem donas.

Ficha Técnica:
Texto: Mário Goes
Direção: Natália Quadros
Elenco: Priscilla Lopo, Stephani Ferreira e Tais Moreira
Produção: Cia. Morangos Mofados (Elle Vieira e Isabela Moreno)
Cenário e Figurino: Cia. Morangos Mofados, Ana Vaz e Thaís Ribeiro
Adereços: Leon Miyamoto
Iluminação: Luis Henrique
Som: Gabriel Hernandes
Direção de Arte: Thaís Ribeiro
Apoio: Cia. da Revista e BRAAPA Escola de Atores
Assessoria de Imprensa: Tadeu Ramos | Canal Tadeu Ramos

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