Com base na poética dos inutensílios, o espetáculo Inventor de Inutilezas combina poesia, dança e teatro físico na jornada de um menino que redescobre o mundo pela imaginação. Idealizado, dirigido e coreografado por Renata Versiani e interpretado por Guilherme Soifer, o espetáculo ganha uma temporada no Espaço Tápias, no Rio de Janeiro, de 16 a 31 de maio.
Uma cadeira no centro do palco diz tudo: talvez o cotidiano seja mais poético do que se pensa. É sobre essa premissa que a montagem se debruça, tendo a arte de Manoel de Barros como inspiração, o poeta do criançamento das palavras. Mas além da referência poética, o espetáculo teve base nas lembranças da própria infância de Versiani que cresceu em um ambiente em que brincar, contemplar e inventar histórias faziam parte da rotina.
“Me considero privilegiada por ter tido uma infância muito rica de vivências sensoriais”, afirma. “Meus pais nos estimulavam a brincar, correr, contemplar as estrelas, ouvir histórias e até ficar sozinhos para inventar o que fazer.” Dessas experiências nasceram os jogos imaginativos que hoje reaparecem em cena, em que uma cadeira se transforma em abrigo, companhia e guia afetivo para os primeiros passos.
Para Renata, esse exercício de invenção é também uma ferramenta importante para lidar com o mundo contemporâneo. A própria presença da tecnologia no espetáculo surge dessa reflexão. Inicialmente concebida apenas a partir do corpo e do movimento, a montagem passou a incorporar projeções e um drone como forma de dialogar com o universo visual das novas gerações, sem abandonar a proposta contemplativa: “Aprender a viver com pouco, mas com mil possibilidades desse pouco. Aprender a se frustrar e encontrar saídas criativas”, explica. “Ao exercitar a imaginação desde cedo, fica mais fácil transformar, reinventar e ressignificar a vida.”
Entre a defesa da imaginação na infância e a busca pela reinvenção na vida adulta, Inventor de Sutilezas se faz necessário para qualquer um que busca ver a vida de outros modos. E para saber mais sobre as inspirações por trás do projeto, conversei com Renata Versiani, confira a conversa na íntegra:
Você tem uma trajetória muito sólida na dança contemporânea. O que dirigir uma obra voltada ao público infantil despertou como artista? E o que foi mais desafiador?
Em vários momentos da minha carreira eu fiz espetáculos infantis (tanto no ballet clássico, quanto na dança contemporânea) e adorei trocar com essa plateia que se toca genuinamente. Descobri que me divertia nesse lugar e que prendia a atenção deles e conseguia improvisar de acordo com o momento, porque eu virava um deles em cena, eu era uma criança, um espelho sem ser bobo. Entendi que o palco (a arte, o teatro e a dança) cooperam na educação das novas gerações mostrando em ação e sensação situações que elas vivem ou viverão.
Então, sempre que posso, eu gosto de atuar/dançar para crianças. Porém não é fácil, principalmente nos dias de hoje onde as crianças estão dopaminadas pelas telas. Aí se torna um grande desafio sustentar a atenção delas para um espetáculo de 40’. Mas como ninguém falou que seria fácil… eu sigo me desafiando, porque acredito que a arte tem a capacidade de afetar, gerar memórias e estimular a criatividade, e que mesmo que eles não compreendam naquele instante, a sensação vai com eles de alguma forma.
O espetáculo nasce da obra de Manoel de Barros, um poeta que trabalha muito com a ideia da “desimportância”. De onde surgiu essa ideia e como é sua relação com a poesia dele?
Esse é o terceiro trabalho artístico da minha vida que Manoel de Barros é o norteador. Dois são infantis e um não. A obra de Manoel de Barros, resgata sensações corporais da minha infância, a sensação de liberdade, de criatividade, de imaginação onde tudo é possível e tudo se transforma. E mais ainda, seus poemas constroem em mim, uma conexão com o mundo, com as relações e com a natureza. Permitindo criar um mundo possível, mesmo que surreal e estranho, porém orgânico. Para os dias de hoje, diria que é um mundo utópico.
Acho que é isso que me fascina na obra de Manoel de Barros e me faz querer trabalhar com ele sempre. Seus poemas são um refúgio interno, terapêutico, onde a ideia da desimportância me dá força para viver nesse mundo, onde eu acolho a minha criança e a capacidade de sonhar. Tudo que descrevo acima, vira movimento, porque o que ele faz com as palavras eu faço com minha dança.
Em cena, objetos simples ganham múltiplos significados. O que te interessa nessa transformação do cotidiano em fantasia?
Para mim isso é a capacidade de se reinventar, de dar conta do mundo retirando-o do automático e transformando a vida em um ritual criativo. Aprender a viver com pouco porém com mil possibilidades desse pouco. Aprender a se frustrar, e ao ver por outro ângulo, encontrar saídas. Aprender a sorrir e encontrar uma novidade ao “Repetir, repetir e repetir, até ficar diferente” (Manoel de Barros)
Tenho sentido falta disso nessas novas gerações, além de artista e empresária, sou professora universitária e cada vez mais chegam alunos novos que não sabem lidar com a frustração da vida e com a possibilidade de solucionar criativamente problemas. Acredito que ao exercitar a imaginação desde cedo, no cotidiano, é mais fácil se adaptar e lidar com as dificuldades da vida, exercitamos reinventar, transformar, reciclar, ressignificar para vivermos no coletivo.
O trabalho mistura dança, teatro físico, projeções e drone. Qual o sentido por trás disso e como foi encontrar equilíbrio entre tecnologia e poesia?
Foi engraçado porque os estudos para esse trabalho começaram ainda na pandemia. E lá atrás eu falava que queria que as crianças vivessem e sentissem a contemplação, então para mim, no início de tudo, o trabalho era apenas de dança, o corpo do bailarino e suas potências. Aos poucos inseri um elemento cênico – a cadeira – onde o corpo do bailarino ganharia uma extensão de si e ressignificaria sua função, da mesma forma que Manoel faz com suas palavras e seus poemas. Porém, só conseguimos realizar o projeto esse ano, e muita coisa mudou. Eu não sou uma pessoa que desgosto da tecnologia, muito pelo contrário, gosto de games, acompanho as novidades tecnológicas, namoro um doutor em inteligência artificial.
Então me dei conta de que para eu conseguir prender a atenção das novas gerações, eu precisaria entrar no mundo deles de alguma forma, claro, sem perder o objetivo do projeto (que é propor contemplação, leitura e criar/mover o corpo). Assim por último, surgiram as projeções como ambientações e como um game.
A relação com o Drone veio de outra forma, o trabalho é um solo, inclusive para mostrar que às vezes é necessário a solitude para criar. Mas é importante as trocas que surgem com as relações, e isso faz parte do desenvolvimento da criança. Então o drone veio para ser um personagem que dialogasse com o menino de forma divertida.
O que me deixa muito feliz com esse projeto é que estou unindo três vertentes que sempre me interessaram muito e que pretendo ir refinando o diálogo entre eles: a dança, a literatura e a tecnologia.
“Inventor de Inutilezas” defende aquilo que o mundo produtivo costuma considerar perda de tempo: brincar, imaginar, contemplar. Qual o papel você enxerga nisso considerando o público infantil?
A sociedade está ficando cada vez mais anestesiada e engessada com o discurso produtivo do capitalismo e com as distrações midiáticas. Não tem jeito, isso faz parte, mas eu me pergunto como serão os próximos adultos? E como será o mundo? Então com as armas que tenho – minha arte, comprometimento, criatividade, eu tento fazer a minha parte para afetar e construir possibilidades de sensível. Por isso o foco está em reconhecer o tédio, como força criadora. E nesse caso a contemplação, imaginação e brincadeiras são as ferramentas.
Como pesquisadora e criadora da pesquisa de movimento: Movimentação Singular, eu proponho e estimulo para todas as idades que seja disponibilizado um tempo para brincar, imaginar e contemplar, sozinho ou em grupo. Dessa forma o mundo pode ficar mais saudável e amoroso.
E quanto aos pais que também o assistem. O que eles podem absorver da experência?
Acho que eles vão identificar diversas situações, e podem aproveitar para discutir e criar conexões com seus filhos a partir do que é vivido na cena. Talvez eles se vejam nas invencionices, já que fazem parte de uma geração que não tinha acesso a celulares e tecnologias, então tinham brincadeiras imaginativas.
Outro ponto interessante é perceber que criança tem muita energia e precisa ser estimulada a viver e trabalhar o corpo. É saudável movimentar, pular, correr, ficar de ponta-cabeça, se sujar, cair, subir em árvore etc. Para equalizar a energia presa nas telas o corpo éfundamental.
Em um momento em que tantas experiências infantis passam pelas telas, o que o teatro ainda consegue oferecer de único?
“Empatia Kinestesica” – conceito de John Martin sobre a sensação do movimento na comunicação com o outro (plateia), gerando nestas sensações corporais (semelhantes ou não) absorvidas pela cena. Essa conexão contribui para o desenvolvimento de qualidades de movimento para a pessoa.
Além disso, gosto do teatro, porque ele propõe uma visão geral do quadro, que hoje em dia está sempre editado. Com a visão ampliada, o público enxerga diferentes pontos de vista, participa da narrativa e encontra suas afinidades ou não. É vivo, ativo, presente. Ao oferecer a experiência do efêmero como matéria produtiva de sensações, afetos, perceptos as artes cênicas (teatro, dança, circo) nutrem o mundo com diversidade e subjetividades, que para o futuro da humanidade eu desconfio que será um diferencial importante entre homens e máquinas.
Serviço
Inventor de Inutilezas
Quando: 16 a 31 de maio
Dias e horário: sábados e domingos, às 17h
Local: Sala Maria Theresa Tápias – Espaço Tápias
Endereço: Av. Armando Lombardi, 175, Barra da Tijuca (ao lado do metrô Jardim Oceânico)
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Venda online: Sympla
*O espetáculo oferece meia-entrada e ingressos gratuitos para beneficiários de programas sociais do governo, mediante comprovação. As gratuidades estarão disponíveis na bilheteria e serão divulgadas nos canais oficiais do projeto.
Acessibilidade:
Todas as sessões com intérprete de Libras
Audiodescrição: 17, 22, 23, 29 e 30 de maio
Atendimento especializado a PCDs: 17, 22, 24, 29 e 30 de maio
Ficha Técnica
Direção: Renata Versiani
Coreografia: Renata Versiani
Direção Técnica: Carol Dworschak
Criação de imagens audiovisuais: André Grynwask e Pri Argoud (Um_Cafofo)
Intérprete/Criador: Guilherme Soifer
Trilha Sonora: Original: Beto Lemos
Cenografia: Dodô Giovanetti
Figurino: Raquel Theo
Iluminação: Eduardo Dantas
Arte Gráfica: Daniel Debortoli
Fotos e Vídeos de Cena: Daniel Debortoli
Fotos de Divulgação: Aloysio Araripe
Operação de Luz: Tuda Gilla
Operação de Som e Vídeo: Fernando Nicolini
Operação de Drone: Vinicius Paranhos
Gestão Mídias Sociais: Viviane Dias
Assessoria de Imprensa: Lyvia Rodrigues
Intérprete de LIBRAS: Diana Dantas e Taiza Batista
Audiodescrição: Gilson Moreira
Acompanhante PCD: Dhovana Camargo
Produção Executiva: Helena Heyzer
Assistente de Produção: Giovanna Rossi
Coordenação de Projeto: Renata Versiani
Patrocínio: Paineiras e Aqua Rio
Realização: Versiani Cultural