Enquanto numa cidade brasileira centenas de livros são descartados, (fato que ocorreu recentemente na Biblioteca Pública Municipal Monteiro Lobato, em Osasco (SP)), Cecília Mate, mais conhecida como avó Cecília, de 77 anos, carrega os livros num carrinho de mão para que todos tenham acesso à leitura e ao conhecimento em Moçambique. O contraste entre os dois casos é impactante – para alguns, eles são tratados como lixo; para outros, são preciosos.
Com o objetivo de estimular o hábito da leitura, principalmente em crianças, ela criou uma espécie de biblioteca móvel, percorrendo o bairro da Mafalala, em Maputo: “Vejo que é necessário, porque a maior parte das crianças e jovens já não têm o gosto pela leitura. Então, estou a incentivar o gosto das crianças”, disse em entrevista.
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A ideia surgiu em 2013, mas o projeto só foi colocado em prática dois anos depois. No começo, comprou cinquenta livros com recursos próprios e, após, conseguiu doações com várias instituições.
“A maior parte é oferta da biblioteca nacional, do Ministério da Educação e outras entidades, a Fundação Fernando Leite Couto também fez uma angariação durante um mês para me oferecer alguns livros, mas no princípio os livros eram meus, eu comprava, bastava receber comprava um ou dois”, disse.
No período colonial, foi professora do ensino primário nas escolas missionárias, trabalhou como bibliotecária na Biblioteca Nacional e concluiu a licenciatura em Gestão e Estudos Culturais aos 65 anos, e, sem perder a disposição, passou anos transportando os livros pelas ruas da cidade e ensinando crianças em locais improvisados para a leitura.
“Em 2013 estava a trabalhar numa escola, estava a ensinar a fazer trabalho técnico de uma biblioteca, então propriamente dito, comecei em 2015, andando de rua em rua e, chegando nos sítios, com o meu carrinho e a minha mesa, e nessa altura tinha bancos (…) eu instalava ali e punha os meus livros em exposição e as crianças começavam a ler”, contou.
O projeto, que teve resistência da comunidade no início, hoje é bem-sucedido, chegando a atender mais de 80 crianças por dia. Na época, foi chamada de “maluca”, mas agora são os pais que levam as crianças para aprender com a avó Cecília.
Com o tempo, algumas limitações surgiram e a biblioteca tornou-se menos itinerante, permanecendo em lugares fixos. Ela mantém parte do acervo na casa que era de seus pais, local que funciona como um depósito. Na mesma rua, ao ar livre, coloca cadeiras e bancos reunindo as crianças da região. Além da leitura, também oferece jogos de algarismos e alfabeto, ensinando a construir palavras e frases.
Dispõe de mais de mil livros, desde o infantojuvenil até livros didáticos da 1.ª até à 12.ª classe do ensino geral, mas necessita de um espaço maior para armazená-los, porque a infiltração já danificou uma parte. Atualmente, a proposta, que busca financiamento para a construção de uma biblioteca comunitária em Mafalala, conta com o apoio da Universidade Eduardo Mondlane, por meio da Escola de Comunicação e Artes (ECA), do projeto Utopia e da colaboração de seis escolas do bairro que oferecem oficinas e outras atividades para crianças e jovens. Enquanto a criação do espaço não se concretiza, o trabalho e a determinação da avó Cecília seguem auxiliando na formação de leitores e inspirando novas gerações.
Confira mais detalhes dessa história no podcast Não é só comigo postado em abril de 2026: