O cenário é uma cidade da Inglaterra em 1759, mas “O Céu Fora Daquela Janela”, que esteve em cartaz no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, poderia espelhar qualquer sociedade contemporânea. Na trama, 12 mulheres formam um júri para deliberar se Sally Poppy, vivida por Aysha Nascimento e condenada por participação no assassinato de uma criança, está grávida.
A decisão do grupo vai determinar se Sally será enforcada ou não.
Num primeiro momento, a comparação com “12 Homens e uma Sentença”, clássico do cinema americano dirigido por Sidney Lumet, pode até se estabelecer como um duplo, uma visão diferente para uma história conhecida.
Só que ao dimensionar a peça a partir disso — de um duplo — do ponto de vista feminino, como a injustiça e a sentença dialogam ou se sufocam?
O inteligente texto de Lucy Kirkwood, evidentemente, brinca com o contexto de 12 mulheres presas em uma sala para analisar os fatos e julgar outra mulher, ferindo essa figura do duplo de maneira artaudiana. Isso porque, em “O Teatro e Seu Duplo”, Antonin Artaud diz que “o teatro, como a peste, é uma crise que se resolve pela morte ou pela cura”, impondo ao corpo do artista em cena o lugar do próprio ato.
Transformar o corpo de Sally em um tribunal, portanto, aprofunda a “linguagem do espaço” nas ideias de Artaud, ao ir além das palavras, e pode ser visto como um dos alicerces da encenação de Johana Albuquerque.
Logo na primeira cena, um telão exibe uma imagem intrigante: um cometa se transformando em espermatozoide. A imagem poética criada por Johana para contextualizar a passagem do cometa Halley, presente no texto de Kirkwood, é genial.
Durante a peça, o espectador vê essas 12 mulheres preocupadas com seus maridos, autorreduzindo-se a ventres ambulantes. E Sally Poppy, como se vê, terá a morte decidida a partir da constatação de sua gravidez.
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De algum modo, é como se a diretora compreendesse a mulher como um corpo celeste, cujos desejos, voz e gestos são reconhecidos de modo tão raro quanto a passagem do Halley. É irônico, mas encenado de maneira sofisticada.
Novamente trazendo a figura do duplo para “O Céu Fora Daquela Janela”, Artaud idealizava a participação do público. Johana brinca com isso. Constantemente, as atrizes olham para a plateia, à espera de algo — quem sabe de algum grito, de algum sinal de que Sally e aquelas 12 mulheres não estão exercendo um direito, mas apenas sendo manobradas. Ninguém vai fazer nada?
Daniel Alvim, um “atleta em cena”, dada a intensa movimentação e gestos super pontuados, como quando o ator diz algo relacionado a “liberdade”, enquanto suas mãos enformam um útero, é responsável por vigiar o julgamento. Quando ele começa, o ator não abre mais a boca. Mas sua presença é tão incômoda que não há, de fato, necessidade de fala.
Por sua vez, a “linguagem do espaço” é muito bem desenhada pela luz de Wagner Pinto e Carina Tavares, pelo visagismo de Leopoldo Pacheco e pela cenografia de Simone Mina, que materializam este ambiente propositalmente oco, de poucos móveis. Desse lugar infértil, Johana Albuquerque trabalha os elementos com exatidão, como as 12 cadeiras penduradas no início do espetáculo, que depois se convertem em uma espécie de lápide, além das fantasmagoria das projeções de mapping.
Essa riqueza na montagem cria paralelos temporais que não precisam gritar para serem compreendidos.
Em um reality show da Sérvia, no dia 22 de abril, um homem tentou enforcar uma mulher diante das câmeras. No Piauí, em março deste ano, um marido matou a esposa, estrangulada com um fio de carregador. Em dezembro de 2025, uma mulher foi enforcada no meio da rua.
Desse modo, em “O Céu Fora Daquela Janela”, o enforcamento de Sally não tem espaço sequer para ser metáfora. Ainda assim, Johana evita naturalizar a violência. Sua proposta transforma o crime da protagonista em uma expiação cheia de becos.
Se, na teoria de Artaud, o corpo é o instrumento do artista, a fisicalidade de todo o elenco trabalha em sintonia. Os olhos e a voz esgarçada de Ester Laccava, a graça melancólica de Fernanda D’Umbra, a aspereza de Agnes Zuliani e o som e a fúria de Aysha Nascimento e Nilcéia Vicente contornam “O Céu Fora Daquela Janela” como se o público estivesse dentro daquela sala, preso com elas, enclausurados por seus corpos. Como as paredes da sala do júri são representadas por panos, o lugar onde o júri está se mostra frágil. Um lugar sem firmeza.
No original, “The Welkin”, título da peça de Lucy Kirkwood, pode ser traduzido como “o firmamento”. A tradução brasileira, talvez mais poética, esboça outro tipo de violência para uma mulher se tornar mulher. Para além das janelas das instituições políticas, das casas das famílias tradicionais e das igrejas, a esperança de que elas tenham seu espaço validado, ao que parece, está no céu.
E talvez essa seja a força cósmica de “O Céu Fora Daquela Janela”: a passagem de um cometa ser mais rara do que a criação de uma civilidade igualitária é a justiça que aceitamos ou sentença que não pode ser quebrada?
FICHA TÉCNICA
Texto: Lucy Kirkwood
Tradução e Dramatur-Guia: Cacá Toledo
Idealização e Direção: Johana Albuquerque
Elenco:
Aysha Nascimento
Nilcéia Vicente
Ester Laccava
Vera Bonilha
Fernanda D’Umbra
Daniel Alvim
Pedro Birenbaum
Cris Lozano
Maria Bia
Thais Dias
Jefferson Matias
Clodd Dias
Sofia Botelho
Claudia Missura
Cris Rocha
Agnes Zuliani
Raul Vicente
Cenografia: Simone Mina
Figurinos: Silvana Marcondes
Direção Musical e Teclados: Pedro Birenbaum
Trilha Original: Artioli&Birenbaum
Desenho de Luz: Wagner Pinto e Carina Tavares
Orientação Corporal: Renata Melo
Preparação Vocal: Sonia Goussinsky
Adereços: Julio Dojcar
Visagismo: Leopoldo Pacheco
Desenhos: Werner Schulz
Vídeo: Peterson Almeida e Diego Arvate
Mapping: Ana Lopes
Assistente de Direção: Luiza Valio
Assistente de Cenografia: Graziella Cavalcanti
Assistente de Figurinos: Rud Fiamini
Assistente de Luz: Lelo Cardoso
Assistentes de Foto: Rafael Sá e Wes Barba
Costureiras: Judite de Lima e Zezé de Castro
Cenógrafo assistente: Vinicius Cardoso
Cenotécnicos: Paulo Miguel de Sousa Filho e Carlos Roberto Ávila
Marceneiro: Márcio Lima
Equipe Montagem do Cenário: Paulo Victor Pereira de Souza e Igor Mota Paula
Costureiro Telas: Enrique Casas, Ayrton Jacó Meneses Casas
Produção Musical: Felipe Artioli
Equipe Montagem de Luz: Alex Nogueira e Nicolas Manfredini
Maquiagem no studio de fotos: Jéssica Inamura
Operador de som: Felipe Artioli
Operador de Luz: Lelo Cardoso
Operador de Videomapping: Ana Lopes
Camareira: Vera Lucia Honório
Rigger e Maquinista: Wellington Silva
Contrarregra: Eduardo Portella
Microfonistas: Felipe Moraes, John di Lallo e Julia Ávila
Direção de Arte Programa: Simone Mina
Design Gráfico: Werner Schulz
Fotos de Divulgação: Alê Catan
Assessoria de Imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques, Daniele Valério e Carina Bordalo
Mídias Sociais: Valio Comunicação
Produção Executiva: Marcelo Leão e Iza Marie Miceli
Administração e Direção de Produção: Stella Marini
Coordenação Geral: Johana Albuquerque
Produção: Bendita Trupe