Vimos, com Aqui Não Entra Luz, que a arquitetura pode ajudar a contar a História – seja ela local, municipal, estadual, regional, nacional ou universal. Mas um prédio também contém muitas histórias, inclusive a dele próprio, como vimos em Pele de Vidro. É a partir de um edifício, o Master no Rio de Janeiro, que Eduardo Coutinho foi descobrindo histórias e fazendo um de seus mais famosos documentários. Um dos mais famosos, quiçá o mais famoso, prédios de São Paulo também merecia um documentário. E ele veio, na forma do premiado filme cujo título é curto e direto ao ponto: Copan.
Projetado por Oscar Niemeyer em 1966 e formado por mais de mil apartamentos de 30 metros quadrados cada, o Copan abriga hoje mais de cinco mil moradores – mais do que muito município do interior. Por sete anos a diretora Carine Wallauer foi uma das moradoras do Copan, e sobre ele fez seu filme.
O começo é moroso. Primeiro vemos um texto passando por uma parede, sequência que dura quase cinco minutos. O mesmo tempo é gasto se aproximando do prédio, de uma tomada aérea, com vozes de habitantes com efeitos de eco. Em seguida cessam as vozes, mas somos apresentados, através de imagens, a um DJ, a uma cam girl, a um homem com deficiência, a um mágico cuidando de seus passarinhos: figuras que mereciam seu próprio documentário. Mas Copan não é sobre elas. É sobre algo mais geral.
Somos informados por uma conversa de vigias que o síndico do prédio pode estar em seu último ano na função. São duas eleições que acompanharemos, portanto: para síndico e para presidente. No caso do síndico, os moradores do Copan podem se ver livres do despótico Affonso. Na eleição presidencial, é chegada a hora de derrotar o aspirante a ditador Jair Bolsonaro.
Feita por videochamada – porque estávamos na pandemia, lembra? -, a eleição para síndico é caótica. Mesmo com um único candidato, o próprio Affonso, há reclamações sobre a falta de lisura na votação. Quem reclama tem seu microfone mutado. Mas será que o processo é desde o começo democrático? Afinal, menos de 90 pessoas estão na assembleia online, decidindo por cinco mil. Já sabemos por experiência própria que se isentar não é permanecer neutro, é também tomar uma posição.
Na eleição presidencial, nada do que não vimos antes. Pessoas alegres de megafones e zoando da ideia de serem chamadas de comunistas gritando apoio a Lula. Do outro lado, um homem com camisa da seleção dizendo “Bolsonaro, yes. Wonderful Brasil”. É tão bizarro que nos perguntamos se não é uma cena inventada no meio de um documentário. Mas já sabemos a resposta: são tão chucros que desafiam a realidade com seus absurdos.
Em outra sequência, além da abertura, as vozes se fazem onipresentes, com as portas de alguns apartamentos sendo mostradas em vez de seus moradores. Deles, ouvimos só a voz. Falam de planos de viagem, mas também em terríveis constatações políticas. Mas o mais contundente depoimento vem de uma mulher que narra, enquanto faz as unhas, o dia em que foi levada ao DOPS “por causa de um comentário que fiz na fila do cafezinho”.
Enquanto conversam, funcionários do prédio comentam sobre suas férias em seus estados natais, como Alagoas e Ceará. O êxodo nordestino para o Sudeste e Sul, mais comumente São Paulo, foi muito forte em meados do século passado, mas ainda existe em escala bem menor. Hoje muitos filhos e netos dos imigrantes escolhem voltar para o Nordeste, fazendo o caminho inverso de seus antepassados, aproveitando o desenvolvimento da região.
Foi bom ver o documentário com legendas em inglês, que sempre ajudam com nosso cinema, no qual por vezes a captação de som é precária. Mas uma adaptação soou estranha. Quando Luiz, o homem do “Wonderful Brasil”, comenta o resultado das eleições, ele o faz através de uma metáfora do futebol: “eu joguei dentro das quatro linhas”. A legenda fala em seguir a lei e a Constituição, o que não saiu da boca dele, que talvez sequer esteja disposto a seguir nossa Carta Magna. Também não fica claro se a diretora foi praticamente expulsa do prédio por conta de política.
Ao filmar cenas do cotidiano, como um senhor fazendo exercícios físicos ou um auxiliar surdo retirando o lixo das lixeiras, a diretora procura injetar um pouco de poesia naqueles gestos repetidos diariamente. Por suas escolhas estéticas, Carine Wallauer – já uma conhecida artista visual, fotógrafa e diretora de fotografia – levou o prêmio de Melhor Filme no festival de documentários É Tudo Verdade.
Um locutor ouvido no celular cita Winston Churchill, que disse que ninguém finge que a democracia é perfeita. Mas é ela que nos mantém longe da barbárie. É por isso que devemos lutar por ela em todas as instâncias. E fazer o que sabemos de melhor: usar o cinema como arma para defender a democracia.
Copan estreia nos cinemas em 28 de maio. Confira o trailer:
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