Como dizia Ray Bradbury, autor do clássico Fahrenheit 451: “ficção científica é qualquer ideia que surge na mente e ainda não existe, mas em breve existirá. É sempre a arte do possível, nunca do impossível”. É na seara do possível que Fabiano da Mata constrói a sua história futurista, situada no ano de 2520, pois ela é um reflexo do agora, como o boom da inteligência artificial (IA) e de outros aspectos do nosso mundo.
Inspirado na obra O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett, Fogo no jardim tem como protagonista um grupo de adolescentes. Na dinâmica das relações entre eles é que se movimenta a história. Paralelamente a um mundo adulto, que não vê além da aparente normalidade, os juvenis começam a estranhar os eventos da Vila — ou melhor, da cidade futurista denominada Vila Feiloz —, “onde tudo está a um estalar de dedos”, onde há “carros autoguiados, seres eletronicamente domesticados, autômatos e tudo o mais”.
Tudo no estrito “padrão feiloz”; ou poderíamos dizer “feliz”, “feio”, “feroz” ou “veloz”, como dito pelo escritor Samuel Medina no prefácio do livro? Há aí um dos pontos de encontro com Fahrenheit 451, pois há uma felicidade como discurso ideológico em prol do status quo, um controle do que se lê, do que se assiste e dos ritos sociais, ou seja, dos meandros da vida cotidiana. Também de Ray Bradbury, há pontes com o livro O Homem Ilustrado, ao pensarmos na “Casa Vida Feliz” presente no conto “A Savana”; com o conto “O Foguete”, ao lermos o último capítulo; e com as bruxas do conto “Os Exilados”, ao nos depararmos com os corujos, também chamados de bruxos marcianos no livro (“não havia essa de surgir e sumir quando se tratava de um corujo, que eram como baratas ultramodernas, ou tardígrados, ou, no pior dos casos, bruxos marcianos”).
“Tudo na Vila Feiloz parece artificial. Não apenas o ar-condicionado que regula a temperatura de todo o ambiente, ou os alimentos sintéticos, as pedras, os bichos e plantas”, afirma Samuel Medina. Os habitantes dessa Vila vivem imersos numa artificialidade sem estranhamento, e poucos questionam, mesmo diante de eventos quase mágicos, como o aparecimento de famílias “cultivadas” pelo Tríptico, algo traduzido tão bem no seguinte trecho: “havia uma compreensão estranha de que as pessoas poderiam ser plantadas, depois de cultivadas em outro lugar, como se não houvesse nenhum antecedente em suas vidas, plantadas como sujeitos a-históricos”.
Há uma artificialidade tamanha, de uma rotina mecanizada, que poderíamos imaginar os feilozes no filme O Show de Truman, do roteirista Andrew Niccol. Esse controle excessivo é percebido também na presença do Falt, “o único aero a passar por cima da Vila Feiloz” ou “o herói de asas largas que acenava para os virtuosos meninos e meninas”, o que nos remete ao panóptico de Foucault, pois são os olhos do Tríptico, a IA que controla tudo e todos; e também à “teletela” e ao “Grande Irmão” do distópico livro 1984, de George Orwell.
A obra também estabelece relações com o livro Piquenique na estrada, de Arkadi e Boris Strugatski, já que no romance há um curioso capítulo intitulado “Piquenique corujo”, onde um dos personagens parece estar na “Zona”, a misteriosa área visitada por alienígenas; e também não podemos esquecer da clássica frase de Redrick: “Felicidade para todos, de graça, e que ninguém seja injustiçado!”. Outra influência é a obra Solaris, de Stanislaw Lem, muito presente no capítulo final e também encontrada na ideia das maravilhas cruéis superando o idealismo do amor, no contraponto entre expectativa e esperança, ou numa força a despeito de.
Somam-se a isso: Eu, Robô, de Asimov, na relação entre ser humano e robô; Nós, de Zamiátin, quando nos deparamos com os robôs seriados e com a preparação das “famílias margarinas futurísticas”, como muito bem sintetizou o escritor Tiago Ramos; e A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, quando pensamos no papel dos corujos.
Fogo no jardim é um livro com diversas camadas e influências, que estabelece uma crítica distópica ao mundo de hoje ao encher a narrativa de marcas publicitárias, colocá-las no lugar das coisas, ressaltar as propagandas trípticas na tela das casas feilozes, expor as vidas pasteurizadas, as comidas sintéticas, os plásticos, a falta de alteridade e a naturalização das violências — sendo a maior delas os estranhos desaparecimentos. No entanto, nada desaparece sem que se deixe rastros, principalmente nas memórias, o que move a procura, o motor dessa incrível história.
Ninguém passa pela Vila Feiloz sem levar as suas “marcas”. Estamos diante de uma história inventiva, ousada na linguagem, que vale muito a pena ser lida e que nos suscita, quem sabe, o olhar disruptivo da adolescência, para que possamos achar os nossos estranhamentos diante das artificialidades do mundo de hoje.
Sobre o autor:
Fabiano da Mata é pedagogo, escritor e músico mineiro. Publicou de forma independente os livros Amor sem Parcimônia (2016) e Levando a Estrela (2018). Em 2022, lançou seu primeiro romance, No quarto do peixe, pela editora Penalux, obra indicada pelo escritor Fernando Andrade como uma de suas melhores leituras de 2022 no blog Ágora Literária. Em 2023, por esta mesma editora, o autor lançou o romance Leões na fechadura, resenhado pela escritora Rita Apoena no site de revista digital de cultura Entrementes.