“Quem Ama Cuida”, nova novela das nove da Globo, surpreendeu com estreia arrebatadora. Inundando o cotidiano de telespectadores com imagens impactantes, Amora Mautner conduz a novela com ambição estética rara na TV aberta: a de tensionar limites e flertar com a linguagem do cinema.
Numa enchente de proporções avassaladoras, a água toma uma cidade, dissolve seus contornos, arrasta qualquer sensação de estabilidade, desestruturando a vida de Adriana (Letícia Colin) de forma irreversível. Nessa longa sequência de abertura — marcada por impressionante investimento técnico, efeitos especiais e uma experiência sensorial incomum em novelas —, Adriana, fisioterapeuta recém-demitida, vê a própria existência ruir: perde a casa, o marido Carlos (Jesuíta Barbosa), e tudo aquilo em que reconhecia a própria vida.
Em meio ao colapso, conhece Pedro (Chay Suede), advogado idealista, profundamente impactado por sua força e vulnerabilidade. Aos poucos, Adriana reconstrói sua trajetória ao ser contratada para trabalhar na casa de Arthur Brandão (Antônio Fagundes), empresário rico e solitário, cercado por uma família ambiciosa.
O vínculo entre patrão e funcionária, inicialmente atravessado por tensão, transforma-se em confiança e afeto. Para proteger seu patrimônio da família, Arthur propõe um casamento de conveniência. Pressionada pelas circunstâncias, Adriana aceita — decisão que abala Pedro, que descobre estar apaixonado por ela. Mas tudo se rompe na noite do casamento, quando Arthur é assassinado misteriosamente. Última pessoa a vê-lo com vida e principal herdeira da fortuna, Adriana se torna a principal suspeita do crime e vê seu destino ruir novamente.
Mais do que um melodrama policial à la Agatha Christie, a novela de Walcyr Carrasco e Claudia Souto (parceiros em títulos como Caras & Bocas, Sete Pecados e Morde & Assopra) se estrutura como uma narrativa sobre resiliência. Adriana emerge como centro emocional da história: uma mulher atravessada por perdas sucessivas, confrontada o tempo inteiro pela dimensão incontrolável da vida, mas que ainda assim preserva uma forma radical de afeto, cuidado e permanência, mesmo quando tudo ao redor parece estar à deriva.
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É na condução de Amora Mautner, grande destaque, que a novela encontra seu traço mais distintivo. Em parceria com uma equipe de direção e fotografia de forte apuro técnico, aposta em enquadramentos pouco usuais e numa construção imagética de rigor visual evidente. O resultado é uma estética que se afasta da tradição “televisiva” mais crua e se aproxima de uma experiência cinematográfica atenta às minúcias da cena.
Impactam o espectador, já nos primeiros capítulos, as imagens de movimentação rápida e fluida, em plano sequência, operadas por Thiago Ferreira — referência no uso de Steadicam e um dos precursores na operação de Trinity no Brasil. A câmera flutuante participa ativamente da construção emocional das cenas, fazendo desaparecer a percepção do aparato técnico e conduzindo-nos para dentro da narrativa. Mais do que registrar os acontecimentos, seus movimentos parecem interpretar a pulsação dramática da novela, acompanhando o ritmo dos corpos, antecipando hesitações, denunciando silêncios e tensões entre os personagens. Há um evidente trabalho de sintonia entre direção, operação de câmera e atuação, como se a imagem respirasse junto aos atores e respondesse, em tempo real, às oscilações da cena.
A direção de fotografia, o uso preciso da iluminação e, sobretudo, a cenografia de Cris Bisaglia ampliam essa atmosfera de imersão, construindo ambientes visualmente coerentes e densos. Cada espaço parece carregado de textura, contrastes e intenção dramática, compondo uma paleta visual que aproxima a novela de uma experiência sensorial cinematográfica.
O desenho estético da novela, figurino, caracterização e cenografia — assinados por Flávia Costa, Mari Sued e Marcelo Dias — também ultrapassam a função ilustrativa para assumir papel narrativo. Mais do que situar época e contexto (uma metrópole marcada pelos anos 1990), esses elementos operam como linguagem: revelam hierarquias sociais e os estados emocionais dos personagens sempre às voltas com seus avessos.
Adriana, por exemplo, é construída visualmente a partir de um eixo cromático dominado pelo vermelho, à la Almodóvar, e suas variações. A cor funciona como signo dramático de sua identidade afetiva, destacando-a no espaço urbano e reiterando sua centralidade emocional na narrativa. Mesmo em momentos de ruptura, como quando passa a vestir roupas doadas no abrigo, o código cromático se preserva, garantindo continuidade simbólica à personagem.
Já a vilã Pilar, interpretada por Isabel Teixeira, cuja atuação vem sendo amplamente comentada, é marcada pelo excesso visual: animal print, volumes, sobreposições e uma estética que a aproxima do universo kitsch e do melodrama clássico, evocando figuras tradicionais da vilania folhetinesca.
Esse detalhismo se estende a objetos de cena que operam como extensão simbólica da narrativa, como o anel com o brasão da família Brandão, criado especialmente para o personagem de Antônio Fagundes. Mais do que adorno, o objeto funciona como condensação material de poder e tradição.
No universo de Arthur Brandão, há uma biblioteca repleta de volumes, de livros de arte como Goya a obras como Angústia, de Graciliano Ramos, reforçando a inscrição simbólica de uma elite tradicional, marcada pela herança e pela erudição. Há, aqui, um notório interesse em inserir a leitura e o objeto livro como elemento constitutivo do universo dramático.
Também se nota o toque de Amora Mautner em inserções de “referências literárias”. Além de pequenos gestos de circulação cultural incorporados organicamente ao cenário, livros aparecendo como elementos cotidianos do espaço dramático, seja em mesas, estantes ou compondo ambientes de personagens, as cenas nos trazem personagens lendo.
Com um elenco de destaque e uma equipe técnica de alto nível, “Quem Ama Cuida” deixa, desde seus primeiros capítulos, a impressão de uma produção que busca extrapolar os limites convencionais da novela das nove. Entre o melodrama e a linguagem cinematográfica, a obra parece apostar numa televisão de maior densidade estética — ambição que, ao menos em sua estreia, já se impõe como um de seus principais trunfos.