“Perto do Sol é Mais Claro”: Reginaldo Faria protagoniza filme sobre luto, evelhecimento e o que resta depois de uma vida inteira

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Reginaldo Faria, em preto e branco, aos 85 anos, escova os dentes diante do espelho. Prepara um pão em uma torradeira que queima os seus dedos. Bebe seu café lentamente. Faz exercícios no jardim. Senta-se diante de uma máquina de escrever, coloca um papel na máquina e começa a digitar. A tinta acaba. Acompanha a construção de um prédio em andamento. Tudo isto pode ser visto através de uma câmera indiscreta, que aprofunda a intimidade de Reginaldo e invade seu espaço. Simultaneamente, tudo pode ser ouvido através de um som cru, bruto, como se estivéssemos diante de um documentário ou de uma biografia do próprio ator.

É isto: Perto do Sol é Mais Claro nos salta como uma espécie de biografia imagética e sonora, em homenagem à trajetória de Reginaldo Faria, colando sua imagem na tela e seus gestos, às minúcias. Enquanto isso,  apresenta um elemento a mais: na trilha sonora, para deleite, temos quase todas as suas composições, todas elas ainda desconhecidas do público. 

Perto do Sol é Mais Claro, estrelado por Reginaldo Faria, um dos grandes nomes do audiovisual brasileiro,  roteirizado e dirigido por seu filho, Regis Faria, não é, porém, uma biografia: apesar de ser obra feita em família e que mantém os nomes reais dos atores, é filme ficcional de fundo falso, ou seja, obra de ficção. Na narrativa, acompanhamos Rêgi (Reginaldo Faria), um engenheiro carioca e octogenário que enfrenta o luto após a perda da esposa. Em meio a uma rotina solitária, busca ressignificar a própria vida ao dedicar-se à escrita de um livro e abrir-se à possibilidade do novo.

O longa expande a experiência do luto para além da perda de um ente querido, alcançando a sensação de dissolução de toda uma vida anterior. Trata-se de um retrato das complexidades do envelhecimento e das relações humanas, marcado, contudo, por um humour flagrante que, justamente nos pontos de inflexão da trama, revela ao espectador a força dos afetos e a possibilidade de um desfecho que celebra a vida de maneira mais solar e colorida do que se poderia esperar.

Intimista, desloca continuamente o olhar da expectativa dramática do futuro e da luz das memórias do passado para a urgência do presente, que reivindica sua importância máxima. Ganham relevo os detalhes de uma rotina construída para sustentar a difícil tarefa de continuar vivo quando o mundo que existia antes parece ter acabado: os exercícios físicos, os hábitos cotidianos, as pequenas estratégias de permanência no agora. Mas emergem também as dificuldades diante da modernidade e os lapsos de memória que tornam árduas até as recordações mais simples, como tomar os remédios. Esse esforço de estabilidade é frequentemente interrompido, tanto pelas frinchas abertas pela idade quanto pela própria vida, que insiste em impor situações inesperadas e obrigá-lo a sair do comum.

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O elenco, que conta ainda com Marcelo Faria, Candé Faria e Vanessa Gerbelli, evidencia a complexidade das relações familiares e interpessoais ao trazer à tona desencontros afetivos e diferentes maneiras de lidar com o envelhecimento e a perda, numa convivência inevitavelmente imperfeita. As atuações tornam sensível a invisibilidade dentro da própria família, a distância silenciosa produzida pelas urgências da vida cotidiana, em que os filhos, absorvidos pelos próprios conflitos e rotinas, acabam relegando o pai a um lugar periférico. Nesse contexto, surgem diálogos sensíveis, marcados por distintas formas de encarar a velhice e a vida. Celo, o filho mais velho (Marcelo Faria), centraliza parte das tensões familiares e espelha o próprio pai nos trejeitos e exclamações, numa espécie de eco que articula antagonismo e herança afetiva, ao mesmo tempo em que evoca as ideias de legado e continuidade. 

A fotografia do filme ressalta a expressividade da trama e imprime à velhice um tom melancólico, grave, quase solene. Por outro lado, a isso se soma o uso da câmera de mão e uma mise-en-scène pouco preocupada com a perfeição formal dos enquadramentos. A luz natural cria atmosfera propícia à poética orgânica das cenas e é dada preferência ao uso de locações reais, com objetos pessoais da família Faria. 

Essas escolhas contrastantes articulam forma e narrativa num paradoxo próximo ao da própria vida, em que dor e alegria, desgaste e repouso, problema e solução coexistem. Também valorizam a linguagem mais livre, de tom experimental, como força expressiva, e um realismo sensorial que privilegia a intensidade em detrimento do acabamento formal. Traços muito similares aos de produções independentes e da estética do Cinema Novo (do qual Reginaldo Faria foi considerado um expoente). Os raros momentos que escapam a essa construção, enquadrados em cores vivas, surgem quando Rêgi está ao lado da personagem Vanessa, figura que encarna o jovial e a irrupção do novo.

Com distribuição da O2 Play em parceria com a RioFilme, o filme é rico em discretas referências literárias e cinematográficas. É possível identificar, entre os objetos do cenário, um pôster de filme estrelado por Reginaldo – O assalto ao trem pagador – além de citações de textos e livros, como A Casa dos Budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro. 

Ao eleger a criação ficcional como uma espécie de ponto axial da trama, faz da escrita um espaço de ressignificação que se articula simbolicamente ao ofício de Rêgi como gestor de obras. Os dois papéis, escritor e engenheiro, manifestam sua tentativa de reorganizar e recriar a própria existência. O personagem se torna, sem dúvida, o obreiro de sua trajetória, recusando os papéis que outros desejam lhe impor para criar, para si, uma nova forma de viver.

Texto de Carolina Quintella e Luiz Antonio Ribeiro

Veja o trailer completo:

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