Projeto em game house inova ao trocar tempo de leitura por acesso a jogos

Com o objetivo de incentivar a leitura, uma game house resolveu inovar ao transformar o acesso aos jogos de videogame em “moeda de troca”.

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Na WD Game House, que funciona em Itatiaia, no Rio de Janeiro, o empresário William Santos, de 38 anos, propõe que crianças e adolescentes que não tenham condições de pagar também possam usufruir do espaço. Para isso, eles precisam dedicar alguns minutos à leitura dos livros disponibilizados para ganharem gratuitamente o tempo em dobro de videogame. Ou, mais especificamente, cada 10 minutos de leitura garante 20 minutos de jogo.

A ideia surgiu ao observar que muitas crianças frequentavam o local, mas não tinham dinheiro para jogar. A partir dessa constatação, ele começou a investir nos livros por ser algo seguro e instrutivo: “A leitura vai influenciar na vida deles. Pode ser que eu não usufrua disso agora, mas lá na frente alguém vai colher esse resultado”, disse em entrevista.

No início, a atividade que parecia fora de contexto, passou a ser incorporada à rotina de parte dos frequentadores: “No começo, foi muito estranho para eles. Eles não entendiam direito. Perguntavam quanto tempo tinham que ler, como funcionava. Hoje não. Hoje eles chegam e já pedem a ficha de leitura”. Para a organização, um formulário é disponibilizado para que cada usuário faça o próprio controle dos dados do livro que está lendo e das páginas lidas para retomar em outra visita ao local. Para aquelas crianças que ainda não sabem ler e não se sintam excluídas, outras alternativas são propostas como, por exemplo, a elaboração de um desenho.

Já é perceptível uma mudança no comportamento dos frequentadores, conforme observou o idealizador: “Alguns vêm, leem, fazem o resumo e vão embora sem nem querer jogar. Isso, para mim, é muito forte. Porque é uma game house, né? E quando a pessoa vem só para ler, chama muita atenção”. Um dos exemplos foi o da estudante Brunna Karlla, de 14 anos, que ficou lendo por quase uma hora o livro “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” e não quis jogar. Nesse caso, o livro tornou-se tão atrativo que ela pediu emprestado para terminar a leitura em casa. O empresário contou ainda que ficou surpreso: “a menina fez um resumo muito caprichado. […] E o que mais me marcou foi que ela não quis jogar. Ela veio aqui só para ler”.

A maior parte do acervo, que conta com aproximadamente 150 livros, chegou por meio de doações após a divulgação nas redes sociais. No início do projeto, dez livros foram comprados. Depois disso, tanto os seguidores quanto os autores começaram a enviar ao estabelecimento.

O espaço, que recebe em torno de 30 a 40 jovens por dia, tem atraído também novos frequentadores. A repercussão nas mídias tem ajudado a dar visibilidade ampliando o alcance do projeto: “Tem criança que eu nunca vi aqui na região, e o bairro nem é grande. Eles vêm porque ficam sabendo que podem jogar mesmo sem dinheiro.”

No entanto, o que mais surpreende é a reação dos pais: “Teve pai que falou: ‘meu filho não lê nem em casa, e está lendo aqui’. Eles ficam admirados, meio sem entender. Acham estranho ver leitura em uma game house”.

William comentou que na infância teve pouco acesso aos livros, pois começou a trabalhar cedo e não conseguiu concluir os estudos, mas compreende o quanto a leitura é imprescindível.

Embora a game house funcione desde 2019, a proposta de troca entre leitura e jogos surgiu no final de 2023. Com boa aceitação e adesão, o movimento aumentou e outros projetos estão em desenvolvimento. O espaço, que antes priorizava somente o entretenimento, agora contribui também para a disseminação da leitura, colaborando como uma importante iniciativa cultural na região.

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