Identidade, gênero e violência em “Noite de Baba Yaga”, de Akira Otani

Em A noite de Baba Yaga, publicado pela Estação Liberdade com tradução de Guilherme Katague, a escritora Akira Otani explora os limites entre proteção e dominação, liberdade e aprisionamento em uma narrativa que transita entre o thriller e o drama psicológico.

Yoriko Shindō é uma mulher deslocada da sociedade, mas com incríveis habilidades marciais. Ela foi raptada pela Yakuza para servir como guarda-costas da jovem Shōko Naiki, aparentemente frágil e envolta em mistério, filha do chefe da organização. Contudo, o que começa como um trabalho de vigilância aos poucos se transforma em uma relação ambígua marcada por tensão, fascínio e uma crescente e perigosa intimidade.

“Apesar dos rostos vermelhos de raiva e tensão de todos eles, suas feições eram as de alguém sonhando, um tanto incrédulos por não conseguirem reagir àquilo que lhes acontecia bem diante dos olhos. Em meio à ira e à confusão, apenas a mulher ria, expondo os dentes. E, enquanto ria, continuava incessantemente com os golpes e chutes.” [p. 13]

À medida que as duas personagens se aproximam, a história mostra as faces do poder, do abuso e da sobrevivência. A dinâmica entre elas passa a desafiar categorizações simples; papéis como “vítima e agressora”, “protetora e prisioneira” tornam-se intercambiáveis em uma relação que se intensifica cada vez mais. Com uma escrita crua e ao mesmo tempo sensível, a autora constrói uma atmosfera densa que espelha o estado emocional de suas personagens. Ao mesmo tempo, há momentos de inesperada delicadeza, nos quais o vínculo entre as duas mulheres revela uma busca desesperada por conexão em meio ao caos.

Leia também: A língua como território de disputa em “A escrita no Japão da era Meiji”, de Seth Jacobowitz

Sobre a autora:

Akira Otani nasceu em Tóquio em 1981. Seu início na escrita como ofício se deu na indústria de jogos eletrônicos, e posteriormente estreou na literatura com a coletânea de contos Kanpeki ja nai, atashitachi [Nós não somos perfeitas], publicada em 2018, que explora diversos tipos de relação entre mulheres. Douse karada ga meate desho [Só meu corpo que interessa, não é?], de 2019, reúne ensaios que tentam despertar nelas o senso crítico sobre o próprio corpo. É conhecida por sua abordagem crítica a questões de gênero e temáticas como relações humanas. Sua obra frequentemente transita entre estilos, incorporando elementos do noir, da literatura psicológica e do romance literário.

Com uma escrita marcada pela intensidade emocional e pela economia de linguagem, Otani tem se destacado como uma voz singular na literatura japonesa atual. Seus textos exploram personagens cujas problemáticas envolvem a relação com a sociedade, revelando suas contradições internas e os mecanismos de sobrevivência que desenvolvem em contextos hostis.

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