“Teatro aberto: escritos de um diretor” explora o teatro de Aderbal Freire Filho, um dos nomes mais importantes da dramaturgia brasileira

Aderbal Freire Filho é o fio condutor de Teatro aberto: escritos de um diretor, livro que percorre mais de três décadas de reflexões sobre teatro, política e criação artística. O volume reúne textos escritos pelo encenador e dramaturgo ao longo de sua vida e oferece um amplo panorama de seu pensamento sobre o teatro e a cultura. A seleção, publicada pela editora Cobogó, é organizada por Patrick Pessoa, um de seus principais interlocutores dos últimos anos, que assumiu a tarefa de reunir os escritos que refletem a multiplicidade da atuação de Aderbal na cultura teatral.

Ao acompanhar a progressão desses escritos, o leitor percebe como a ideia de “teatro aberto” atravessa toda a obra de Aderbal Freire-Filho: primeiro como elaboração teórica e, por fim, como prática artística e política. O livro revela, assim, o pensamento e a trajetória de um artista que dedicou a vida a ampliar as fronteiras do teatro e do cenário teatral brasileiro.

Estruturado em cinco capítulos, o livro percorre diferentes faces de sua trajetória. Em “Autorretratos”, textos de três décadas evocam memórias da infância em Fortaleza, o exercício cotidiano da direção e meditações sobre o tempo e a finitude. Em “Obsessão brechtiana”, Aderbal examina a influência decisiva de Bertolt Brecht em sua formação e a busca incessante por uma síntese entre os registros épico e dramático. Essa investigação se desdobra em “O sonho de um teatro ilimitado: o romance-em-cena”, onde o diretor expõe sua contribuição singular ao teatro contemporâneo — a linguagem do romance-em-cena, experimentada em montagens como A mulher carioca aos 22 anos, O que diz Molero e O púcaro búlgaro. Compõem ainda o volume ensaios, traduções e intervenções críticas que revelam um Aderbal para quem leitura, crítica e criação eram práticas inseparáveis.

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“Objetivos: extrair teatro puro de um material estritamente literário, mostrar que o teatro, que tudo pode, o teatro ilimitado que renova a poética cênica, só não pode, precisamente, não poder se apropriar da palavra, não poder transformar a literatura em teatro.”

“Concentrando sua especificidade no jogo do ator, o teatro recobrou o potencial infinito da imaginação e o poder da convenção, e, por isso, cresceu como linguagem e possibilidades. Nasce, então, um paradoxo que posso formular assim: o teatro reduzido à parcela se amplia.”

Além dos textos selecionados, o livro inclui prefácio de Marieta Severo, apresentação de Patrick Pessoa, uma carta inédita de Aderbal à atriz — reproduzida em fac-símile — e uma troca de correspondências com José Celso Martinez Corrêa sobre diferentes modos de conceber o teatro. O texto de orelha é assinado por Eduardo Moreira, fundador do Grupo Galpão.

A parte final, dedicada à dimensão política de sua atuação, reúne textos que abordam experiências centrais de sua trajetória: o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo (CDCE), sua passagem pela Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), reflexões sobre políticas culturais e o papel do teatro na vida pública do país. O volume registra ainda iniciativas marcantes como o Teatro Poeira, criado ao lado de Marieta Severo e Andréa Beltrão — espaço que encarna sua concepção de um lugar vivo, crítico e poroso ao diálogo com o público.

Sobre o autor:

Aderbal Freire-Filho nasceu em Fortaleza, em 1941, e desde a adolescência participou de grupos de teatro amador. Antes de se estabelecer definitivamente no Rio de Janeiro, acumulou experiências diversas: foi locutor da rádio Dragão do Mar, trabalhou como técnico em prospecção de petróleo e vendedor de móveis de aço durante uma primeira temporada carioca (1960–1962) e, de volta ao Ceará, formou-se em Direito. Em 1970, mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro, participando como ator e diretor de uma montagem de Diário de um Louco, de Nikolai Gogol, encenada dentro de um ônibus em movimento.

Foto Paula Giolito

Sua estreia na direção foi em 1972 com Flicts – Era Uma Vez Uma Cor, de Ziraldo. No mesmo ano, dirigiu O cordão umbilical, peça estreante de Mario Prata e, em 1973, dirigiu Marília Pera no monólogo Apareceu a Margarida, de Roberto Athayde, seu primeiro grande sucesso. Ao longo da carreira, atuou como diretor, ator e dramaturgo, escrevendo peças como Lampião, rei diabo do Brasil (1991), No verão de 1996 (1996), Xambudo (1998), Isabel (2000) e Depois do filme (2011). Entre suas traduções e adaptações estão Turandot ou o congresso dos intelectuais (1993), de Brecht; Luzes de Boemia (2000), de Valle-Inclán; Casa de boneca (2001), de Ibsen; Hamlet (2008) e Macbeth (2010), de Shakespeare; e Na selva da cidade (2011), também de Brecht.

Nos anos de 1990, iniciou o projeto do que viria a ser chamado de romance-em-cena com o espetáculo A mulher carioca aos 22 anos, a partir do romance de João de Minas. Em seguida vieram O que diz Molero (2003), a partir do romance de Dinis Monteiro, e O púcaro búlgaro (2006), a partir do romance de Campos de Carvalho. A essa mesma fase pertencem iniciativas de fôlego institucional: a criação do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo (1989–2003), a participação no Conselho Diretor do Festival Ibero-americano de Teatro de Cádiz e a coordenação da comissão que criou o Curso de Direção Teatral da UFRJ.

Em 2005, uniu-se às atrizes Marieta Severo e Andréa Beltrão na inauguração do Teatro Poeira, dirigindo a peça de estreia do espaço, Sonata de Outono, a partir do filme de Ingmar Bergman. Ao longo dos anos, comandou inúmeros outros trabalhos por lá, como As Centenárias, de Newton Moreno (2009), e a tragédia libanesa Incêndios (2013), de Wajdi Mouawad. Durante décadas, principalmente entre os anos de 1980 e 1990, esteve também à frente de vários espetáculos do grupo uruguaio El Galpón, sediado em Montevidéu. Ao longo de sua trajetória, recebeu prêmios expressivos, entre os quais o Prêmio Molière (1981), o Golfinho de Ouro (1984), o Prêmio Shell Especial (1992), o Prêmio Shell Direção (2002, 2003 e 2013) e o Prêmio APTR (2006). Aderbal Freire-Filho faleceu no Rio de Janeiro, em 2023.

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