Felipe Julius lançará este mês o livro vencedor do 8º Prêmio CEPE Nacional de Literatura

O livro é uma narrativa em versos que remonta às enchentes que assolaram o sul do Brasil em 2024. Nele, uma mulher grávida e sua companheira atravessam cenários de destruição para recomeçar a vida

“Cicatrizes na paisagem”, de Felipe Julius, foi o livro vencedor do 8º Prêmio CEPE Nacional de Literatura, na categoria poesia, e finalmente chega ao público este mês. O lançamento acontecerá no dia 18/06, das 19h30 às 21h, na Livraria Travessa no Shopping Iguatemi, em Porto Alegre.

A publicação leva o leitor de volta a maio de 2024, quando o Rio Grande do Sul foi cenário de uma das maiores catástrofes climáticas que o Brasil já viu, com quase 200 mil pessoas desabrigadas pelas enchentes. No livro, que ficcionaliza em versos o episódio, o leitor acompanha a trajetória de uma mulher grávida que atravessa o Sul do Brasil em meio às enchentes, junto da companheira Maria e de uma família desconhecida com quem divide o carro e o destino.

Apesar de organizada como poema, em versos e com tonalidade lírica, Cicatrizes na paisagem é quase como um road novel, gênero literário onde a narrativa se desenvolve a partir de uma viagem, com enredo, personagens e marcação de espaço e tempo, como nos romances.

Entre as referências literárias de Felipe Julius estão nomes como Louise Gluck, Adélia Prado, Susan Sontag, Antônio Cicero e Lilian Sais. Segundo o autor, Cicatrizes na paisagem se guia pela máxima “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”, de George Santayana, pois “busca documentar o presente para transformar o futuro”, diz.

Dividido em três capítulos, Cicatrizes na paisagem retrata os caminhos tortuosos na estrada para Viamão e, em meio a tantas perdas, mostra que é a esperança que sustenta os personagens até seu destino final.

Leia o primeiro poema do livro:

(I)

A única maneira de escapar de Porto Alegre

é pela RS-040, pela estrada que corta Viamão.

Aqui, os poucos postes que surgem

parecem velas de um cortejo,

iluminando não as sendas,

mas o inventário da nossa inquietação.

A via única é estreita,

o limite exato entre a fuga

e os liames que não conseguimos arrancar.

No asfalto, betume gasto.

E, no fundo da Chevrolet Spin,

Maria e eu: lagartas inertes,

apertadas em uma cápsula de metal.

A criança no meu ventre chuta com força.

A sensação é aguda, cortante,

como algo que não cabe em si,

mas talvez não tão grande quanto a incerteza.

Estamos acompanhadas por recém-conhecidos:

Seu Carlos, que guia com mãos pregadas;

Gabi, sua filha, pequena e atenta,

que está ao nosso lado;

e Hermínia, sua mãe,

copilota de um filho que carrega um fardo invisível.

São gente boa e resistente,

como a gente.

Saímos correndo das enchentes,

carregando o que conseguimos,

antes que as chuvas se erguessem ainda mais,

antes que nos soterrassem na lama.

A capital está um caos,

cheia de estrangulamentos e pressa:

as avenidas Castelo Branco e Assis Brasil, bloqueadas.

Pouca água potável, menos mantimento ainda,

e o barro — muito barro —

assanhando, invadindo, enroscando tudo o que toca.

Além disso, o combustível.

Temos que cuidar da gasolina,

contar os quilômetros,

e torcer para chegar a algum posto em tempo.

No rádio, João Gomes repete a trilha da viagem,

seu cantar atravessa o taciturno,

e já não nos distrai.

Minha única firmeza é a prece muda

que faço a cada quilômetro,

para que tudo dê certo,

para que eu consiga te reencontrar em Floripa, maninha.

Mas, antes, precisamos atravessar

e achar a BR-101,

ainda intacta.

Lançamento:

O lançamento acontecerá no dia 18/06, quinta-feira, das 19h30 às 21h, na Livraria Travessa no Shopping Iguatemi, em Porto Alegre. Haverá sessão de autógrafos e bate-papo com o autor.

Sobre o autor:

Felipe Julius nasceu em Porto Alegre (RS), em 2000, e mora em Florianópolis (SC). É escritor, roteirista e redator publicitário, formado em Comunicação Social pela PUC-RS. Seu livro de estreia, Foram talvez os anjos revoltados (Urutau, 2023), foi finalista do 66º Prêmio Jabuti, na categoria Poeta Estreante. Seu segundo livro, Cicatrizes na paisagem, venceu o 8º Prêmio CEPE Nacional de Literatura. É TEA — nível de suporte 1.

Para saber mais sobre o livro, e acompanhar o autor, acesse: https://www.instagram.com/fpjuliuss/

Related posts

Em “Rede de pescar ossos”, segundo romance de Martha Lopes, a autora narra a experiência desorganizadora do desejo e da maternidade

“Narração nortuna”, de João Paulo Borges Coelho, leva o leitor à grande narrativa sobre a história de Moçambique

Uma distopia do agora em “Fogo no jardim”, de Fabiano da Mata