Em 2024, a TV Cultura recebeu o ator e dramaturgo Édouard Louis no programa Roda Viva. Durante a entrevista, Louis faz uma brilhante citação a Jean-Paul Sartre, em que este questiona: “em que momento o teatro se tornou burguês?” Essa citação cabe muito bem ao que a elite cultural vem fazendo com alguns espetáculos.
Recentemente conversava com um amigo ator, falando sobre um espetáculo de um amigo dele, em que esse, com toda sua insegurança, aceitou o desafio de fazer Hamlet, adaptando o espetáculo para um monólogo e realizando questionamentos nunca antes apresentados sobre o personagem. Na época, não escrevia sobre teatro, mas tive a oportunidade de ver essa adaptação e achei indiscutivelmente brilhante. O ator que fazia a peça se entregou à proposta e apresentou um trabalho à altura de Hamlet, mas não houve nenhuma citação dos colegas que escrevem sobre teatro – talvez pelo fato de o ator ser midiático, mas não posso afirmar.
Intenso – Meu retorno de Saturno, sofre do mesmo mal. Antes de escrever essa análise, fiz uma pesquisa e não encontrei nada em outros sites, o que me deixa triste, pois o espetáculo possui uma coisa que eu, como artista, fico morrendo de inveja.
Antes de iniciar o espetáculo, o teatro já está lotado. Observamos um público diferente do habitual nas salas de teatro, pessoas mais soltas que estão ali pelo espetáculo e para ver o que aquele artista que elas admiram tanto tem para falar. Na minha opinião, isso já é um grande mérito, pois lotar salas de teatro tem sido cada vez mais difícil.
O espetáculo trata do amor gay com sensibilidade e bom humor, trazendo um tema que gera bastante interesse do público, retratado em diversas produções, mas ainda não relatado desta forma sob a ótica de um casal gay.
A dramaturgia de Cris Wersom para Intenso – Meu retorno de Saturno é sofisticada e inteligente, ao articular, com sensibilidade e bom humor, as múltiplas camadas emocionais e psicológicas de um relacionamento em crise, utilizando o humor sobre a separação não como alívio cômico superficial, mas como ferramenta para introduzir o conceito de “aproximação” na exposição e superação de traumas. Além dessa densa camada psicológica, que por si só já é uma aula, Wersom insere questões políticas de maneira orgânica e nada panfletária, recorrendo à memória coletiva para resgatar a importância da luta de gênero e de classe, o que evidencia um texto que não apenas cativa um público amplo, mas também desafia os limites do teatro contemporâneo ao provar que é possível ser acessível, popular e artisticamente exigente ao mesmo tempo.
A atuação de Vitor DiCastro se destaca ao navegar entre o humor e o drama, sem cair no caricato, mantendo uma organicidade que sustenta a complexidade emocional do texto. Uma das minhas surpresas em sua atuação é o domínio sobre o texto e seu círculo de concentração onde, mesmo com interação do público de forma aleatória, DiCastro permanece habitando a personagem. Essa segurança técnica, aliada à entrega emocional, permite que DiCastro conduza o espectador por diferentes camadas de sensibilidade.
A solução técnica de utilizar caixas como cenário e paredes do novo lar em Intenso – Meu retorno de Saturno se revela um acerto dramatúrgico e cênico de grande inteligência simbólica. Ao utilizar as caixas não como mero objeto decorativo, mas como recipientes que embalam as lembranças do relacionamento, a encenação cria uma metáfora visual potente: as caixas representam tanto os afetos guardados quanto os problemas dos quais se tenta fugir durante o processo de cura, ficando inicialmente distantes do acesso da personagem.
No entanto, a grande qualidade técnica está na dinâmica de progressiva abertura – ao longo do espetáculo, essas mesmas caixas são desfeitas, e as memórias são trazidas para o centro da cena, aproximando o público da solução emocional. Esse recurso cenográfico não apenas sustenta a dramaturgia, mas a potencializa, traduzindo em imagem concreta o movimento psicológico de exposição e superação dos traumas.
A direção de Pedro Granato é inteligente e eficiente, sobretudo por sua capacidade de integrar todos os elementos cênicos em uma linguagem coesa que amplia as camadas psicológicas da dramaturgia. Granato não apenas extrai o melhor do carisma e da técnica de Vitor DiCastro, potencializando sua habilidade de transitar entre humor e drama. Essa direção consegue, assim, fazer com que recurso técnico, atuação e texto não coexistam de forma sobreposta, mas sim como uma extensão orgânica uns dos outros.
Através da minha análise, concluo que Intenso – Meu retorno de Saturno é um espetáculo tecnicamente impecável, com dramaturgia sofisticada, atuação cativante, solução cenográfica inteligente e direção coesa. Mas mais do que isso: ele responde à pergunta de Sartre — “em que momento o teatro se tornou burguês?” — com uma prática concreta de desobediência estética.
Ao lotar salas com um público não habitual, ao tratar do amor gay sem panfletagem, ao utilizar o humor como ferramenta de aprofundamento psicológico e ao transformar caixas em metáfora viva da memória, o espetáculo prova que é possível ser acessível, popular e artisticamente exigente sem jamais subestimar a inteligência de quem assiste. Que a elite cultural continue ignorando trabalhos como este (assim como fez com a adaptação de Hamlet mencionada no início); nós, que ainda acreditamos em um teatro vivo, temos o dever de reconhecer e celebrar nossos colegas que, como Vitor DiCastro, Cris Wersom e Pedro Granato, estão resgatando o público desse lugar tão burguês em que o teatro, por vezes, se acomodou.
Ficha Técnica:
Com Vitor DiCastro
Direção: Pedro Granato
Texto: Cris Wersom
Participação especial: Diego Leo
Assessoria pessoal: Bruna Geordanna
Assistentes de direção: Gabi Gonzalez, Bruno Lourenço e Leticia Calvosa
Figurino: Thays Heleno
Coreografia: Gabi Gonzalez
Iluminação e operação de luz: Carolina Soares
Cenografia: Diego Dac
Adereços: Diego Dac e Luana Miyamoto
Assistente de cenário: Luana Miyamoto
Diretor de palco: Diego Dac
Operador de Som e microfonista: Henrique de Paula
Audiovisual: Uma produção: Dois Pontos Filmes (Bruno Arrivabene e Vitin Allencar)
Projeção e mapping: Lui Cavalcanti
Acompanhamento artístico e Divulgação: Mynd
Design Gráfico: Lucas Sancho
Fotos de divulgação: Ana Alexandrino
Fotos de espetáculo: Victor Otsuka
Realização: Deboche Astral Produções
Produção: Rodri Produções Artísticas e Pequeno Ato
Direção de Produção: Jessica Rodrigues
Coordenação de Produção: Carolina Henriques
Assistência de produção: Julia Terron e Diego Leo