O livro Urutau (2025), de Nathan Soares, pode ser inserido no campo da poesia contemporânea brasileira como uma obra de forte densidade subjetiva, marcada por um projeto estético em que a dor e a identidade se misturam ao campo da linguagem em uma dimensão quase confessional. Desde a nota do autor, o texto se apresenta como necessidade vital, “escrevo porque é necessário e intrínseco – para mim é questão de vida ou morte”. Essa declaração inicial é o que orienta a leitura, além de legitimar o tom gutural que atravessa toda a obra.
Primeiramente, a obra constrói uma voz lírica que oscila entre o testemunho íntimo e a encenação da dor. O eu poético não busca mediação, ele a expõe. Há um compromisso explícito com uma escrita que não conforta, mas existe — e essa recusa ao apaziguamento torna-se um dos eixos centrais do livro.
Nesse sentido, a poesia presente em Urutau dialoga com uma tradição confessional, mas deixando claro que não se limita a ela. Há também um forte componente performático, em que o sofrimento é encenado e reiterado. Poemas como “Espetáculo” e “Aula de anatomia prática” evidenciam essa dimensão ao tratar a dor como arte, técnica e exposição do corpo.
A temática dominante é a dor psíquica e corporal, frequentemente figurada por imagens de decomposição, mutilação e morte. O corpo aparece como matéria instável, em constante ruína: corpo necrosado (“Decomposição”); corpo aberto e analisado (“Aula de anatomia prática”); corpo fragmentado (“Mosaico”).
“Com a morte
Para alcançar a
Vida -.
É uma aula prática
– De anatomia,
revira-me”
(Aula de Anatomia Prática)
Essa insistência não é apresentada de forma gratuita, pois constrói uma poética do limite, em que existir é suportar uma violência contínua. A morte, contudo, não aparece como solução definitiva, e sim como uma repetição; morrer e voltar torna-se um ciclo.
Outro tema, se assim pudermos chamar, pertinente em Urutau é a presença de um eu lírico profundamente dividido. Há recorrentes imagens de duplicidade e desintegração (“Há como dois corpos ocuparem — o mesmo espaço;”). Essa fragmentação se manifesta tanto na linguagem quebrada, como na oscilação entre eu e outro e ainda na percepção de si como estranho. Assim, o poema final (“Existe um túnel sob o Anhangabaú”) sintetiza essa condição: o eu é simultaneamente canto e ferida, existência e ruína.
“Lembraram seu nome, mas não lembram
— que Você existe —.
Não notam o mármore — que aplaca
O desnível.”
(Existe um túnel sob o Anhangabaú)
Ainda, uma terceira vertente, um dos núcleos que seria um dos mais consistentes do livro, é o conjunto de poemas sobre pai, mãe e irmã. Neles, a dor deixa de ser apenas individual e passa a ser herdada ou “joias da família” que circulam entre gerações.
“É hereditário — o facão que nosso ancestral carregava
Você, de fato, o usava. — Eu o manuseio na palavra.
Na nossa troca, ganho e perco
São as joias da família — do testamento não saio ileso.”
(Pai)
“Aqueles que agora estão em um túmulo.
Mas continuam dançando — repassando
As Joias da família.
Um Facão — e armas na língua
E A Senhora Morte — como amiga
Algumas intrigas — longe da luz do dia.
Cada um pegou sua parte;
Estava no testamento — é um lamento;
São Dominós caindo — Eu me sustento”
(As Joias da Família)
É possível fazer aqui uma leitura crítica da estrutura familiar: o pai como figura ambígua e distante; a mãe, talvez, como a duplicação identitária e a figura conflituosa; a herança emocional como cadeia difícil de romper. Esse eixo dá densidade social à obra, afastando-a de um mero subjetivismo alienado.
Nathan Soares insere, ainda, referências bíblicas (Abel, Caim, Babilônia, Pedro) que aparecem com frequência, mas não em chave de redenção. Ao contrário, são mobilizadas a partir de uma leitura que privilegia figuras associadas à culpa, à queda e à corrupção espiritual, como Caim, marcado pela maldição; Babilônia, símbolo da decadência moral; ou Pedro, lembrado pela negação. Nesse contexto, tais imagens reforçam a ideia de abandono e culpa:
“Abel — clama do chão;
Teve a dádiva de morrer.
As ilhas de Caim — não — .
Sou semente daquelas
Amaldiçoadas. — Fadadas — A Esticar
Essa curta, curta Linha.”
(Os Rios da Babilônia)
A espiritualidade aqui se constrói de modo ambíguo: há o desejo de deslocamento do horizonte de transcendência, mas ele se confronta com a ausência de resposta.
Além disso, apesar da predominância da morte, há momentos em que a vida se afirma como resistência mínima, mas esses instantes não anulam a dor, apenas a tensionam.
Publicar é — A Pulsação
De um — batimento cardíaco.
Escrever é — o esforço
Do pulmão. — Respiro.
Permaneço vivo – como uma
Obra de arte. — Vivo —
Pelo conceito do — poema
Do conto — lido…
Eu me torno um livro!
Um ser vivo, superando a própria vida.
(Publicar)
Sobre a linguagem de Urutau, afirmo que este é um de seus aspectos mais marcantes, pois o texto rompe com a linearidade ao apresentar versos quebrados, uso de travessões, cortes abruptos e uma possível disposição gráfica irregular. Isso produz uma leitura entrecortada, que mimetiza o estado psíquico do eu lírico.
Sua linguagem também carrega um aspecto imagético bastante intenso, pois recorre ao sangue, carne, ossos, insetos, decomposição, etc e essa estética do excesso aproxima a obra de uma poética do grotesco.
Por fim, o autor assume influências em Sylvia Plath, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Carolina Maria de Jesus em Urutau como um diálogo explícito, coerente com a ideia de escrita como continuidade.
O livro há muita potencialidade, pois há alguns aspectos de coerência estética: o livro sustenta seu projeto do início ao fim, com: intensidade imagética; consciência autoral: o autor sabe o que está fazendo e declara isso; e dimensão existencial: ultrapassa o individual e toca questões universais.
Contudo, minha leitura permite apontar alguns limites observados que poderiam ser melhor explorados. Temas como morte e dor aparecem de forma reiterada, com variação mais limitada em alguns trechos, o que reduz o espaço de respiro entre os poemas. A presença mais equilibrada de contrastes poderia enriquecer a experiência, preservando a força do impacto ao longo da obra.
Urutau é um livro sobre existir sob fratura. O símbolo do pássaro — cujo canto é naturalmente melancólico — sintetiza o projeto: cantar (para o autor, escrever) não por escolha, mas por condição.
A obra transforma a dor em linguagem e a linguagem em corpo. Ao final, o que resta não é a resolução do sofrimento, mas sua inscrição estética: o poema como prova de existência.
Transformo a sangria em zurra…
E se uma hora o sangue parar de fuir,
Se em dez anos eu deixar de existir;
Essas páginas ensanguentas são um sinal
— De que estive aqui —.
(Tripas)
Urutau, de Nathan Soares, se afirma como uma obra consistente dentro da poesia contemporânea brasileira, e seu maior mérito está na radicalidade com que assume a dor como matéria poética e na construção de uma linguagem que tenta dar forma ao indizível.
Mas o que fazer se a morte é dor materializada –
em vida
E a vida é morte – múltiplas vezes morrida?
Permaneço respirando como uma performance
artística.
(Sylvia)