Em 1936, através do relato ficcional da vida de um jovem puxador de riquixá cujos sonhos e ambições foram massacrados pela cidade grande, Lao She apresentou um retrato visceral das condições de trabalho na Pequim das primeiras décadas do século XX em “O garoto do riquixá”. Em “Faço entregas em Pequim”, com tradução de Amilton Reis e publicado no Brasil pela Editora Record, menos de 100 anos depois da publicação do romance de Lao She, Hu Anyan atualiza a vida do trabalhador na metrópole chinesa, trazendo, porém, uma perspectiva de dentro do sistema em um misto de memória e crítica social.
Publicado originalmente em 2023, o livro conta a história do próprio autor como entregador em Pequim, revelando a extenuante carga de trabalho e a insegurança financeira que também marcaram os inúmeros outros empregos que ele teve. De empresas de logística em Xangai a entrega de encomendas em Pequim, foram 19 empregos em 20 anos, inclusive, em outras regiões do país, embora o número total seja ainda maior, já que ele desconsiderou alguns pequenos bicos realizados nesse período.
A narrativa de todas essas ocupações não segue uma cronologia rígida. Na verdade, o livro começa com o dia a dia de Hu enquanto entregador entre 2018 e 2019 e cujo relato viralizou em um fórum literário para o qual o autor escrevia no raro tempo vago.
Antes disso, ele também foi atendente de hotel, frentista, distribuidor de sorvetes, diagramador em uma revista de mangá, segurança, vendedor de bicicleta, vendedor de loja on-line, dentre outros. Com uma prosa simples e direta, o autor detalha em primeira pessoa o cotidiano de todos esses trabalhos: a exaustão física e mental, a pressão tanto de empregadores quanto de clientes, a desumanização, etc, dando um vislumbre não apenas da cultura do trabalho na China, mas no mundo contemporâneo.
Hu cita a escala “996”, das 9 da manhã às 9 da noite, 6 dias por semana, totalizando 72 horas semanais. Proibida na China desde 2021, ela fez e ainda faz parte da rotina de muitos trabalhadores, tendo sido defendida por fundadores de gigantes do mercado chinês, como Alibaba.com e JD.com, a última, inclusive, está entre as empresas citadas pelo autor.
Contudo, não faz muito tempo li uma reportagem sobre como o Vale do Silício estaria importando a prática na era da I.A., ou seja, não é uma questão superada, é um problema real no mundo afora, principalmente na “Gig Economy”, conhecida no Brasil como “economia de plataforma” ou “uberização”. Nesse modelo, no geral, não há vínculo empregatício, ou seja, nada de direitos trabalhistas.
Sendo assim, mesmo que o leitor desconheça a realidade de uma cidade grande chinesa, é plenamente possível reconhecer e se sensibilizar nas adversidades relatadas pelo autor, afinal, grande parte dos brasileiros sabe o que é ter o cotidiano marcado pela informalidade, invisibilidade, pulando de emprego em emprego, vendendo o almoço para pagar a janta.
Além do sistema injusto, dos empregadores e dos clientes, Hu ainda precisava lidar com colegas de profissão nem sempre dispostos a ajudar e, assim, ele aprendeu de forma amarga que para muitos a vida funcionava como “num jogo de soma zero — ou você se dava bem, ou eu me dava bem, mas era impossível todos se darem bem.”.
Era um cenário extremamente competitivo para o qual ele não havia sido criado, afinal, o mundo era completamente diferente do mundo no qual seus pais haviam crescido e para o qual eles acreditavam que o tinham preparado. Hu nasceu em 1979, seus pais viveram boa parte da vida adulta antes da reforma e da abertura econômica do país ocorrida no governo de Deng Xiaoping, e como era comum na época, trabalharam nos mesmos empregos a vida toda. Ou seja, na década de 90, quando Hu entrou no mercado de trabalho, o ambiente era outro.
Havia uma ânsia por ganhar dinheiro e um desconhecimento generalizado de direitos trabalhistas, muitos direitos sequer existiam, na verdade. Olhando por esse ângulo, “Faço entregas em Pequim” também contribui para termos uma noção da profunda transformação da China na virada do século XXI e nas primeiras décadas do nosso século.
Porém, nem só de decepções essas relações foram feitas. Hu relata episódios de camaradagem que me remeteram às interações de Xiangzi, o personagem do romance de Lao She que comentei no início desse texto. Em uma cena que se passa em uma casa de chá, local comum de encontro no período, um grupo de puxadores de riquixá expunha as dificuldades do trabalho:
“As histórias de cada um, o tom com que as contavam e os sotaques que tinham eram todos diferentes, mas cada um amaldiçoava a sua sorte e queixava-se das injustiças que sofria.” (Lao She em “O garoto do riquixá”, tradução de Márcia Schmaltz).
São nessas reclamações e desabafos que nos reconhecemos trabalhadores.
Além da identificação, que transformou o livro em um best-seller na China, outro fator que considero essencial para a aproximação do leitor é a linguagem. A escrita do Hu Anyan é objetiva, sem rodeios, seca até.
“Em julho, a temperatura em Pequim vivia passando dos 35 °C. O lugar onde morava não tinha ar-condicionado e eu costumava acordar no meio da noite ensopado de suor. Acho que por causa das noites maldormidas e também porque eu evitava beber água durante o trabalho para não precisar ir ao banheiro, acabei pegando um resfriado que não sarava de jeito nenhum. Junho e julho eram baixa temporada para entregas e dois funcionários antigos do meu grupo tiraram férias longas para visitar a família. Por isso, fiquei dois meses sem conseguir tirar folga.”
O fato de ele ter começado a escrever em blocos de notas, no celular, e em fóruns online pode ter contribuído para essa escrita mais simples e direta, mas parece ter muito da personalidade do autor. É tudo meio plano, há um olhar focado na descrição e menos na emoção.
Isso não significa que não há sentimento no livro, ele descreve a solidão, a ansiedade e o stress de se viver dentro dessa máquina de moer gente que é o sistema. Mas Hu parece optar por uma aproximação mais pela franqueza e objetividade. A exposição de seus sentimentos ocorre para contextualizar o leitor das escolhas feitas por ele e conforme o livro avança, conhecemos um pouco sua personalidade; fechado, mais antissocial, um cara na dele, e que fala abertamente sobre não ser uma pessoa de grandes ambições.
“Este texto fala das minhas experiências de trabalho, mas acaba tocando em outros aspectos da minha vida, que são difíceis de separar. Contar só uma parte pode deixar o leitor confuso, mas tem coisas que quero compartilhar e outras não, então talvez ainda fique um pouco confuso.”
Essa introspecção, além de uma temporada como “nômade criativo fã de Rock” em Pequim na juventude, talvez o tenha levado à leitura e à escrita.
Após as principais narrativas sobre seus trabalhos, ele discorre sobre o ofício da escrita e sobre como passou a ler autores como Salinger, Raymond Carver, James Joyce, Hemingway e a escrever nas horas vagas: “trabalhar e escrever, para mim, são formas de fortalecer o espírito.”
Hu cita e conecta seu texto com essas referências de autores ocidentais, mas ele brilha mesmo ao terminar o livro com uma reflexão sobre um ensaio que Virginia Woolf escreveu sobre o livro de memórias da poeta anglo-irlandesa Laetitia Pilkington, que levou uma vida comum, de altos e baixos, foi abandonada pelo marido com dois filhos, escrevia para pagar as contas e que mesmo diante das dores e das lutas, “preservou o espírito alegre.”.
Ao contrário de Xiangzi, personagem de Lao She, que sucumbiu ao sistema, Hu conseguiu encontrar um equilíbrio que chamou de liberdade e que me remeteu às palavras do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica:
“A vida não é só trabalhar. Tem que deixar um bom capítulo para as loucuras de cada um.”.