“50 microcontos e minicontos – A relojoeira do abismo”, de Alexandra Vieira de Almeida: as fábulas dos novos tempos para vidas entre o acaso e o destino

Durante muito tempo, a história do conhecimento humano não foi transmitida de geração em geração por meio de um método ou de uma ciência. Ao contrário, o conhecimento era passado através da narração. Isso significa que, de um lado, tínhamos o poder da história como primazia do conhecimento e, de outro, o poder daquele que conta.

Essas histórias eram transmitidas de diversas formas: em fábulas, nas quais animais e objetos podiam assumir identidades humanas, ou em parábolas, nas quais, tal como na matemática, uma narrativa traçava uma espécie de curva para chegar a um sentido e a uma finalidade.

Com a modernidade, porém, em especial com Franz Kafka, surgiu um tipo de narrativa breve parabólica que parecia muito com o seu próprio tempo: ela não conseguia encontrar o rumo dos sábios antigos e vagava pela cidade que se acelerava.

Mais imersa ainda em sua contemporaneidade e cada vez mais consciente de um tempo que “mergulha em seu abismo”, Alexandra Vieira de Almeida nos presenteia com sua obra: 50 microcontos e minicontos – A relojoeira do abismo.

Trata-se de uma coletânea publicada pelo selo Microficções da editora Litteralux, em 2024. Nela, a autora investiga o tempo e os próprios tempos, pensando, repensando, narrando e contando diversos tempos, temas e histórias.

Pela escolha do formato, Alexandra compõe uma obra que, ao mesmo tempo, nos remete às antigas Fábulas de Esopo e aos pequenos contos de Kafka, porém reatualizados com um estilo de observação, perspicácia e humor à la Millôr Fernandes, acrescido de um instante poético contemporâneo, marcado pelas urgências de um mundo em tempo real que está prestes a explodir a qualquer momento.

Se o tema parece amplo, é porque os tempos em que a autora mergulha também o são. Isso já fica evidente no primeiro texto, “O mundo onírico”, logo na primeira frase:

“O mundo é tentacular. A Hidra corta cabeças para o amanhã. Penso: ele não seria de outro tempo, mas do futuro. Meu professor dizia: os lances do jogo de dados. Os seres pensando que o mundo é uma bola, perfeito em seu ritmo. Não, o mundo é uma chama, presente nos corações vulcânicos, eu sonhei.”

Já neste primeiro texto temos pano para manga de análise. Alexandra abre nomeando o texto como “mundo dos textos”. Para ela, este mundo é tentacular, ou seja, como um polvo, de diversos braços, tal como a Hidra, a figura mítica grega cujas cabeças crescem novamente quando são cortadas.

Em seguida, ela menciona o professor que fala sobre “o lance do jogo de dados”, referindo-se aos famosos versos do poeta francês Stéphane Mallarmé: “Um lance de dados jamais abolirá o acaso”. De um lado, o acaso; de outro, o destino; no meio, o sonho vulcânico sonhado por ela.

O mais interessante do livro, porém, é que Alexandra também abre espaço para a observação cotidiana. Destacando as diversas formas de conhecimento que mencionamos no início, ela parte do conhecimento intelectual para o da observação e da flânerie pela cidade, como neste texto que é o meu preferido: “O Silêncio do mendigo”:

“Passei pela rua e vi um mendigo. Para ele, o mundo representa a liberdade dos sistemas. Ele não está preso ao capitalismo doentio. Vive como um monge mendicante que aceita de bom grado o que lhe dão. Nunca reclamou da vida. O mundo, para ele, se apresenta muito bem como um cinema mudo, em que o silêncio seria a coisa mais bela.”

O mais curioso deste excerto é a projeção que a narradora faz dessa pessoa em situação de vulnerabilidade social: ela vê nele uma espécie de utopia da desconexão dos aparelhos digitais e de uma vida desapegada dos bens materiais. É ver, na figura silenciada pelas violências do sistema, alguém invejado pelo narrador: alguém que “nunca reclamou”, enquanto o narrador se sente aprisionado num mundo em que “precisa narrar”.

Mais do que isso, ela enxerga neste sujeito lançado aos chãos e excluído da sociedade uma figura quase nostálgica, cujo silêncio lembra o do cinema mudo. Um belíssimo texto que dá uma porrada certeira no que de mais cruel vivemos no mundo de hoje.

O mais instigante de “50 microcontos e minicontos – A relojoeira do abismo” é que, pela escolha do formato de seus escritos, Alexandra acertou em cheio: o mini e o micro. Podemos investigar os motivos dessa escolha. Um deles é a liberdade absoluta para construir histórias soltas, que funcionem como instantes poéticos, flashes de momentos, como stories de celular, que não precisam de mais do que aquele recorte preciso.

Ou, quem sabe, não seja pela liberdade, mas pelo tempo: em um mundo de tempo real, a narrativa precisa acompanhar esse ritmo acelerado. Mas, diante disso, por que recorrer a mitos gregos? Porque nada é mais contemporâneo do que as guerras no Hades.

Ou, ainda, o desejo pode ser pelo fragmento. Talvez Alexandra queira nos trazer histórias compostas por fagulhas de narrativas, pelas forças que as criaram, tais como as faíscas que acendem o fogo. O desejo do fragmento permite que não haja sempre o gozo do meio nem a ânsia do fim. A história nasce do desejo desse recorte que pode ser cortado a qualquer momento, sem angústia, sem ansiedade, sem dores.

E assim nascem potentes micro-histórias que podem ser abandonadas ou finalizadas conforme o desejo da pena da autora, sem que as narrativas ganhem autonomia própria. Alexandra, no fim das contas, é ainda a demiurga dos sonhos da primeira narrativa, aquela do sonho primordial que briga contra o acaso do lance de dados, entre o acaso e o destino. Ela sonha suas narrativas de fogo e anota todas elas em seus “50 microcontos e minicontos – A relojoeira do abismo”.

Este livro, uma espécie de mapa antigo, jovem, novo e contemporâneo, pode ser lido, fica a sugestão, como um livro de cabeceira: uma história por dia, toda manhã. Ou pode ficar na cabeceira do trabalho, inspirando o dia. Pois, de verdade, ele ilumina com uma visão perspicaz da realidade, coisa rara em nosso mundo atual. Alexandra Vieira de Almeida sabe que domina a escrita como ninguém e, por isso, controla suas histórias com a ponta dos dedos.

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